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Nova noite de intensa repressão policial na Colômbia

Agentes do Esmad atacaram manifestantes que se mobilizaram esta quarta-feira no contexto da greve geral, que dura há 23 dias. O Comunes acusou Duque de temer ouvir o povo que confronta o seu governo.

A Polícia e, em especial, o há muito conhecido e temido Esquadrão Móvel Anti-Distúrdios (Esmad) têm sido alvo de denúncias frequentes ao longo da greve pela violência exercida sobre os manifestantes 
A Polícia e, em especial, o há muito conhecido e temido Esquadrão Móvel Anti-Distúrdios (Esmad) têm sido alvo de denúncias frequentes ao longo da greve pela violência exercida sobre os manifestantes Créditos / Prensa Latina

Centenas de milhares de pessoas participaram ontem na chamada «marcha do milhão», convocada pelo Comité Nacional da Greve, depois da tentativa falhada de negociação entre este organismo e o governo colombiano com vista a encontrar uma saída para a crise que o país enfrenta, dar resposta aos problemas dos colombianos e garantir o direito à manifestação.

Anunciando o carácter pacífico das mobilizações e o cumprimento das normas sanitárias, o Comité apelou à participação de todos, para denunciar as políticas neoliberais de Iván Duque, exigir respostas para os problemas estruturais do país, a violência sistemática e a repressão exercida sobre os manifestantes.

Na cidade de Cáli, que tem sido um dos principais focos de contestação ao governo de Duque e um dos epicentros da repressão policial e militar, milhares de pessoas voltaram a manifestar-se, refere a TeleSur.

Também na capital do departamento do Cauca, Popayán, os manifestantes vieram em massa para as ruas, de forma pacífica, exigindo justiça para os casos de repressão policial ocorridos na semana passada e protestando, também usando a cultura como ferramenta, contra «o governo criminoso de Iván Duque».

Em Medellín, outra grande cidade que tem sido palco de intensos protestos, a minga indígena tomou as ruas de forma pacífica. O presidente da Câmara, Daniel Quintero, manteve um encontro com dirigentes populares e indígenas, tendo depois instado o presidente colombiano a dialogar abertamente, de modo transparente e inclusivo com as comunidades.

No departamento de Magdalena, os protagonistas foram os agricultores, que exigiram o cumprimento dos direitos fundamentais, em especial o acesso a serviços básicos como a água e a electricidade.

Também houve mobilizações em Bogotá, Barranquilla, Ibagué, Manizales, Cartago, Bucaramanga, Villavicencio, Neiva, entre outros pontos do país sul-americano, nos quais as populações exigiram soluções para os seus problemas, denunciaram a desigualdade e a violência, e solicitaram ao governo que se envolva num grande diálogo com os representantes das camadas populares e dos trabalhadores.

O presidente da Central Unitária dos Trabalhadores (CUT), Francisco Maltés, disse que «Duque declara a guerra à greve quando manda destacar o máximo de forças militares e policiais para os sítios de concentração pacífica que há hoje no país», indica a TeleSur.

Repressão do Esmad em várias cidades

Ao final da tarde e, sobretudo, à noite, registaram-se múltiplos episódios de violência exercida pelo Esquadrão Móvel Anti-Distúrbios (Esmad), muitos dos quais denunciados nas redes sociais. De acordo com organizações de direitos humanos, várias pessoas ficaram feridas.

Em Popayán, o Esmad lançou bombas de gás lacrimogéneo contra os manifestantes junto ao hospital, atingindo doentes e trabalhadores da Saúde.

Na cidade de Bucaramanga, estudantes da Universidade Industrial pediram às autoridades que fosse criado um corredor humanitário para ser possível transferir os feridos. De acordo com os manifestantes, dois tanquetes da Polícia entraram na cidade universitária.

Na capital do país também foram registados vários ataques da Esmad contra civis que participavam na jornada de protesto. O mesmo sucedeu na cidade de Pasto e em Medellín, onde foram reportadas dezenas de feridos.

Duque teme ouvir o povo, acusa o Comunes

O partido Comunes afirmou esta quarta-feira em comunicado que o presidente colombiano tem medo de ouvir o povo que confronta o seu governo em gigantescas mobilizações pacíficas.

«Prefere obrigar-se a acreditar que aqueles que estão nas ruas são pessoas supostamente financiadas por governos "estrangeiros" e que a mobilização é um estratagema da oposição para o desestabilizar», afirmou no texto.

De acordo com a ONG Temblores, entre 28 de Abril e 18 de Maio, 51 pessoas foram mortas na Colômbia durante as jornadas de protesto da greve geral, sendo que 43 terão sido assassinadas por forças policiais.

A Temblores dá conta de pelo menos 2387 casos de violência policial (sem incluir os desaparecimentos), 33 casos de pessoas com lesões oculares e 18 casos de vítimas de violência sexual por parte da Polícia.

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