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Macron ameaça punir a Síria se atravessar a «linha vermelha»

A França, potência de largo passado colonial e com o neocolonialismo bem activo no presente – sob o comando de Sarkozy, Hollande ou Macron –, tem intensificado as ameaças contra a Síria. Esta terça-feira, o presidente francês voltou a abordar a questão das «armas químicas».

Macron, que voltou a ameaçar a Síria, diz que «está a atento» ao que o «regime» faz
Macron, que voltou a ameaçar a Síria, diz que «está a atento» ao que o «regime» fazCréditos / Sputnik News

«Relativamente às armas químicas, estabeleci uma linha vermelha e reafirmo essa linha vermelha», disse ontem aos jornalistas, em Paris, Emmanuel Macron, o presidente da França, que ameaçou atacar a Síria caso surjam provas de que armas químicas tenham sido usadas contra a população civil.

O paladino da reforma laboral em França e à frente do país que, ao lado dos Estados Unidos, mais tem contribuído para a militarização do continente africano – com a espoliação dos seus recursos naturais na mira –, falou como se fora um defensor dos injustiçados.

Por ora, os serviços secretos do Hexágono não têm provas que fundamentem «tais alegações», mas o aviso sempre fica feito. Macron disse que, na sexta-feira passada, ligou ao presidente russo, Vladimir Putin, a quem pediu que passasse a mensagem, de forma clara, ao «regime sírio». Este «tem reafirmado que não faz uso de armamento químico... mas nós estamos a observá-lo», frisou Macron, qual Big Brother.

O Ocidente, como «uma cobra»

A atitude pretensamente humanitária de Macron no que se refere à Síria tem «barbas», inserindo-se, com nova roupagem, na franca hostilidade que as potências ocidentais assumem para com o governo de Damasco, ingerindo-se nos assuntos internos da Síria e apoiando diversas facções armadas daquilo a que foram chamando «oposição».

Em Agosto do ano passado, falando na abertura da Conferência do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Bashar al-Assad, presidente da Síria, comparou o Ocidente a «uma cobra que muda de pele conforme as circunstâncias», sublinhando que as potências ocidentais fracassaram na tentativa de criação de um «movimento popular» e, depois, no apoio às claras a grupos terroristas, sob a etiqueta de «oposição».

Agora, o Ocidente passou para o «produto humanitário e é nessa fase que estamos», disse, então, o presidente sírio, denunciando que o pretexto da «assistência humanitária» visava, na realidade, dar aos terroristas a possibilidade de se reorganizarem.

O filme repetido das acusações

Desde que tomou posse, em meados de Maio de 2017, Macron tem andado a rondar a possibilidade de «represálias imediatas» contra a Síria pelo uso de armamento químico, mas tal passo não chegou a ser dado «por falta de certeza do que se passou na Síria», segundo disse a ministra da Defesa, Florence Parly, na sexta-feira passada, citada pela RT.

Parly disse ter «algumas indicações sobre a possível utilização de ácido clorídrico [na Síria], mas não uma confirmação absoluta». Já o ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Yves Le Drian, pareceu estar a par de investigações mais aprofundadas, que o levam até à certeza de que o governo sírio é culpado e de que «actualmente o ácido clorídrico é usado pelo regime».

Ao longo do conflito na Síria, os governos ocidentais, com a colaboração dos dotes hollywoodescos de encenação dos Capacetes Brancos, têm acusado reiteradamente Damasco de recorrer a armas químicas – acusações que o governo sírio tem refutado como «não fundamentadas» e «fabricadas», e cujo objectivo último é deter a acção do Exército Árabe Sírio e forças aliadas sempre que estes estão na mó de cima na luta contra o terrorismo.

Para além disso, Damasco já deixou claro que procedeu à destruição do seu arsenal químico, num processo monitorizado pela Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ).

Acusações recentes, com Tillerson e Macron juntos em Paris

As acusações mais recentes foram vertidas no dia 23 do mês passado pelos Estados Unidos e pela França contra a Rússia e a Síria, alegando, sem qualquer investigação concreta, que eram responsáveis por um ataque com armas químicas em Ghouta, na província de Damasco.

Nem de propósito: o Secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, estava em Paris, com Macron e representantes de mais de duas dezenas de países da civilização mundial, e, na ocasião, decidiram lançar a chamada Parceria Internacional contra a Impunidade pelo Uso de Armas Químicas.

Moscovo não esteve pelos ajustes e, em comunicado, o Ministério russo dos Negócios Estrangeiros afirmou que a criação da «parceria» era uma tentativa de substituir a OPAQ e de construir um «novo bloco anti-Damasco».

No mesmo documento, o Ministério russo sublinhou que as acusações – «falsas» – apenas visavam dificultar uma saída para a crise na Síria e que Washington procura evitar a investigação sobre o uso de armas químicas na Síria, não sendo seu objectivo identificar os verdadeiros responsáveis pelos ataques.

Rússia alerta para falsos ataques em Idlib

As declarações de Macron ocorreram no mesmo dia em que o Centro Russo para a Reconciliação na Síria alertou para a possibilidade de uma nova «provocação» no país árabe.

Em comunicado, o Centro afirma ter recebido informações de um habitante de Serakab, na província de Idlib, de acordo com as quais o grupo terrorista Frente al-Nusra transportou para a aldeia cerca de duas dezenas de bidões de ácido clorídrico, juntamente com material de protecção individual.

O texto acrescenta que a unidade local dos Capacetes Brancos já executou os primeiros ensaios [filmados] com habitantes locais, como se estivessem a sofrer de envenenamento químico». Para o Centro, tal actividade poderá ser indicativa de está em preparação um novo «incidente químico» com civis, para depois lançar as culpas sobre o governo sírio, informam a RT e a PressTV.

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