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Imigrantes franceses enfrentam segregação, vigilância e desprezo, afirma Blumenthal

O conhecido jornalista, autor e realizador de documentários denuncia que os «jovens imigrantes franceses enfrentam níveis alarmantes de segregação, vigilância e desprezo».

Polícias franceses durante os protestos pelo assassinato do adolescente Nahel M. 
Polícias franceses durante os protestos pelo assassinato do adolescente Nahel M. Créditos / PressTV

Numa entrevista ao portal PressTV, o jornalista norte-americano Max Blumenthal afirma estar «familiarizado» com as condições a que os jovens imigrantes são sujeitos em França, tendo em conta que, em 2015, realizou, juntamente com James Kleinfeld, o documentário Je Ne Suis Pas Charlie (ver mais abaixo).

No Verão de 2015, Blumenthal e Kleinfled viajaram até Paris e falaram com um grupo representativo de residentes, para avaliar os níveis de racismo e islamofobia na capital francesa, na sequência do ataque contra o Charlie Hebdo.

O documentário seria, entretanto, actualizado (e lançado gratuitamente online), para enquadrar os ataques sincronizados que, em Novembro do mesmo ano, provocaram a morte de 130 pessoas em Paris.

Je Ne Suis Pas Charlie inclui uma série de depoimentos, testemunhos e reflexões sobre as atitudes para com a população imigrante, pobre e, sobretudo, muçulmana, estabelecendo uma ligação directa entre a atitude imperialista francesa e o crescimento da discriminação e da islamofobia.

O debate sobre o «racismo estrutural em França» reacendeu-se – e de que forma! – com o assassinato de um adolescente pela Polícia francesa, na semana passada, a que se seguiram dias e noites de protestos pelo país fora.

O facto de a morte de Nahel M., de 17 anos – atingido por um disparo à queima-roupa em Nanterre, nos arredores de Paris – ter sido filmada e amplamente divulgada nas redes sociais potenciou as enormes mobilizações e os pedidos de justiça.

Para tentar justificar o acto, a Polícia alegou que o rapaz assassinado cometeu infracções de trânsito, pôs em perigo os peões e conduzia sem carta. Portanto, na perspectiva da Polícia parece justificar-se uma solução «à americana».

Seguiram-se manifestações de revolta e também protestos violentos, distúrbios, actos de vandalismo. Max Blumenthal disse, a propósito, que esta última série de protestos foi espoletada por «uma indignação legítima contra um novo acto de repressão levado a cabo pelo Estado».

Mas também sublinhou «a pouca orientação política entre os jovens que foram para as ruas».

Em declarações ao portal da PressTV, disse: «A [Marine] Le Pen e a extrema-direita já saíram reforçados e, embora Macron possa ter sido atingido, isto é uma bênção para os serviços de segurança e a Polícia.»

Em seu entender, é evidente que as forças de esquerda, nomeadamente as aglutinadas em torno de Jean-Luc Melenchon, «serão bastante debilitadas, à medida que a classe média francesa clama por "lei e ordem"».

De um ponto de vista internacional, acrescentou, a «desestabilização social» em França «expõe a hipocrisia evidente dos elementos transatlânticos que salivaram a propósito da breve rebelião armada do chefe do grupo Wagner, Yevgeny Prigozhin, na Rússia, desejando que este país entrasse numa sangrenta guerra civil».

«As redes por cabo nos EUA e jornais da imprensa dominante que dedicaram dias de cobertura ininterrupta a Prigozhin estão a tratar o mergulho de França na anarquia como um tema monótono e enterram a cobertura no final dos seus portais», comentou Blumenthal.

Entretanto, o presidente francês, que na segunda-feira visitou algumas esquadras em Paris e fez questão de declarar o apoio às forças da ordem, encontrou-se esta terça-feira com representantes autárquicos de 240 municípios atingidos pela onda de revolta com o assassinato de Nahel.

No encontro, prometeu legislação de emergência para acelerar a reconstrução das infra-estruturas públicas que foram vandalizadas.

No Twitter, Max Blumenthal sublinha que, de 2015 para cá – data da realização de Je Ne Suis Pas Charlie –, nada se alterou, excepto o aprofundamento das «reformas» neoliberais e a impotência crescente dos cidadãos para fazer alguma coisa quanto a isso.

Nesse sentido e questionando «É a França um Estado de apartheid?», o jornalista afirma que não há razão para acreditar que o mergulho no caos e na violência não se volte a repetir, uma e outra vez. As razões estruturais continuam lá.

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