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A guerra nuclear limitada, de novo

O abandono por Washington do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermédio significa o regresso a uma situação que, em 1984, atingiu a maior gravidade. Parece ser o que a administração Trump pretende.

Créditos / abc7.com

O presidente russo, Vladimir Putin, disse que a Rússia decidia deixar de participar no acordo nuclear INF1 (Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermédio) entre a URSS e os países da NATO, ainda do tempo da guerra fria, após a decisão de Washington no mesmo sentido, já anunciada e entretanto confirmada. A Rússia anunciou ir desenvolver mísseis anteriormente proibidos nos termos do Tratado, respondendo ao anúncio pelos EUA de que estariam a realizar investigações e testes relativos a novas armas.

Há trinta anos um movimento de opinião, à escala mundial e que abrangeu todos os sectores, incluindo militares, susteve o projecto de instalação pela NATO de mísseis de médio alcance em países europeus dirigidos contra a estafada «ameaça soviética» – os Pershing-2.

Daí resultou, em 1987, o Tratado INF.

Putin esclareceu que, embora as ofertas de Moscovo para modernizar o tratado de 1987 e torná-lo mais transparente «ainda estejam sobre a mesa», é agora altamente improvável que se inicie qualquer negociação com os americanos para o tentar salvar. «Vamos esperar até que os nossos parceiros amadureçam o suficiente para manter uma conversa significativa sobre esse assunto, extremamente importante para nós, para eles e para o mundo inteiro», disse Putin.

Em Dezembro de 2018 o governo Trump ameaçou renunciar ao acordo, que limita mísseis nucleares e convencionais lançados entre 500 e 5500 km, a menos que a Rússia parasse de supostamente o violar com o seu míssil 9M729, que Washington afirma exceder o alcance permitido.

Moscovo negou ter quebrado o tratado e ofereceu inspecções mútuas adicionais durante as fracassadas negociações em Genebra, em Janeiro de 2019. Em 1 de Fevereiro, Washington confirmou oficialmente que o acordo bilateral, assinado por Mikhail Gorbatchev e Ronald Reagan, seria suspenso por 180 dias, e mostrou intenções de se retirar completamente do Tratado, depois desse prazo.

Tal atitude tem precedentes. Serguei Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE) da Rússia, acusou os EUA de, pelo menos desde o final dos anos 90, estarem a pôr em causa o INF.

Em particular, Washington começou a «testar drones que correspondiam às características» dos mísseis de cruzeiro terrestres banidos no tratado e instalou «sistemas de lançamento MK-41», para o escudo de defesa na Europa, que podem ser usado para disparar mísseis de cruzeiro Tomahawk de médio alcance sem qualquer modificação», o que Putin classificou como «uma violação directa» do INF.

Lavrov afirmou ainda que a instalação destes sistemas já foi concluída na Roménia e que está programada a sua entrada em operação na Polónia e no Japão.

Putin disse que o colapso do INF não é um caso isolado, mas marca uma política deliberada de Washington que poderia pôr em perigo o novo tratado START2, que expira em 2021.

Putin referiu ainda que, «ao longo de muitos anos, temos repetidamente sugerido realizar novas conversações de desarmamento, em todos os tipos de armas. Nos últimos anos, vimos as nossas iniciativas não serem apoiadas. Pelo contrário, os pretextos são constantemente procurados para demolir o sistema existente de segurança internacional».

O regresso a uma situação que atingiu a maior gravidade em 1984, parece ser o que a administração Trump pretende.

Recuar mais de 30 anos

Na altura foram muito discutidos:

- Como o complexo militar industrial norte-americano, constituído por grupos monopolistas, atingia taxas de lucro de 30-40% enquanto os restantes sectores de actividade oscilavam entre os 8 e os 12%, apresentando uma só empresa do grupo lucros de quase 2000% em relação ao capital investido. E como a Lockheed, a Rockwell, a Boeing e a Northrop, com administrações em que pontificavam generais reformados, pagavam muitos milhões de dólares em «luvas» a membros de governos e subsidiavam candidaturas nas eleições para o Congresso;

- Como, com a prática de medidas proteccionistas, elevadas taxas de juros e sucessivas subidas nas cotações do dólar, os EUA faziam os seus aliados financiarem os enormes défices comerciais decorrentes da corrida aos armamentos, para além do aumento de impostos decididos internamente (nesta altura um trabalhador pagava 40 % do que ganhava contra os 16% pagos nos anos 30);

- Como os dirigentes políticos norte-americanos resistiam a converter todo esta vasta rede quer na investigação, quer na indústria, quando existiam estudos credíveis, com uma sustentada base em profissionais deste sector, de que isso era possível e criaria milhões de novos postos de trabalho. Mas esses dirigentes insistiam em que a redução de gastos militares faria perder muitos postos de trabalho, ignorando que a corrida armamentista fizera aumentar o desemprego crónico e retirara meios para resolver as necessidades essenciais das populações dos países subdesenvolvidos;

- Que esta corrida aos armamentos também tinha como objectivo dar um golpe profundo na economia da URSS, em prejuízo do bem-estar que tinha vindo a crescer nos seus povos, o que efectivamente aconteceu;

- E que tinha também como objectivo dar cobertura a agressões imperialistas contra outros povos que lutavam pelo progresso social. No período que decorrera entre o início de 1946 e o final de 1975, os EUA tinham utilizado as suas forças armadas para fins políticos noutros países por 215 vezes, incluindo em agressões directas;

- Projectos então revelados dos EUA contra a Rússia, como o Charioteer, Gunpowder, Cogwheel, Drospshot e outros, que foram produzidos durante a 2ª guerra mundial para destruírem a URSS. Só o projeto Dropshot, elaborado em 1944 (na altura em que a URSS estava a contribuir, de forma cada vez mais decisiva, para a derrota dos nazis na Europa…) previa assestar 300 golpes nucleares com o objectivo de destruir 85% da indústria soviética. Na altura tais projectos não se realizaram porque os estrategas norte-americanos não dispunham de um arsenal nuclear suficiente para alcançarem uma «derrota militar definitiva da URSS». Os EUA acabaram por inaugurar o crime nuclear contra cidadãos japoneses, em 1945, em Hiroxima e Nagasaki, com consequências ainda hoje não concluídas.

- Depois de a URSS ter começado a fabricar armas atómicas, em 1949, estes projectos careciam de reconversão e, em 1981, Ronald Reagan começou a trabalhar na possibilidade de «uma guerra nuclear limitada» no continente europeu, a partir, das ideias expressas, desde meados dos anos 70, pelo Secretário do Estado Schlesinger e pelo seu sucessor Rumsfeld.

Em 1982 os EUA criaram os mísseis de cruzeiro, sucessivamente sofisticados, e começaram a planear a instalação de mísseis Pershing-2 na RFA. Ambos os tipos de mísseis podiam ser portadores de ogivas nucleares. Os Pershing-2 dispunham de grande precisão e penetração no solo e podiam atingir objectivos na URSS entre 4 a 6 minutos depois do lançamento, o que inviabilizaria respostas contra objectivos nos EUA, porque nessa altura eram atingidos em cerca de 30 minutos.

Uma luta com factores contraditórios

O regresso da luta contra a «guerra nuclear limitada» está hoje muito mais condicionado pelo domínio informativo e ideológico dos meios de comunicação social, hoje com novos recursos que também dominam, como as edições on-line e as redes sociais.

Os EUA já desestabilizaram o equilíbrio nuclear quando decidiram sair do tratado ABM em 2002 e estão a colocar bases de «defesa» anti-mísseis em toda a Eurásia, criando um cerco à Rússia e à China.

Em termos ideológicos e de direito internacional, pretendem separar a soberania do direito internacional e querem ter uma liberdade total para manter a sua supremacia no mundo pelo maior prazo tempo possível, e esses tratados limitam-lhe essas ambições.

Mas, hoje, os próprios EUA estão condicionados pelas capacidades da sua economia e das suas dívidas colossais, que poderão gerar novas graves crises económicas que os atingirão, bem como aos seus aliados e a todos os países, sendo de salientar a capacidade, que a economia chinesa ainda tem, de segurar a economia mundial.

Hoje, porém, quer a China quer a Rússia têm mais condições de lhes resistir do que aconteceu na altura em que se deu o colapso dos países socialistas do Leste europeu.

E a opinião pública na Europa, que começa a falar mais dos mísseis russos de resposta à aventura norte-americana, começa a despontar, podendo ser uma base para novas e contundentes acções em prol da paz.

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