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Ferroviários unidos enfrentam governo e prosseguem greves

A semana anuncia-se tensa em França. Os sindicatos da SNCF estão unidos na intenção de prosseguir a luta, face à intransigência do governo. Nas universidades e aeroportos a luta continua, também.

Manifestação de apoio à greve dos ferroviários da SNCF em Paris, França, a 3 de Abril de 2018. Os sindicatos da SNCF decretaram um greve nacional de três meses para defender os seus direitos face às reformas do mercado de trabalho anunciadas por Emmanuel Macron.
Manifestação de apoio à greve dos ferroviários da SNCF em Paris, França, a 3 de Abril de 2018. Os sindicatos da SNCF decretaram um greve nacional de três meses para defender os seus direitos face às reformas do mercado de trabalho anunciadas por Emmanuel Macron. CréditosEtiénne Laurent/EPA / LUSA

A greve nacional dos ferroviários prossegue nesta segunda-feira, dia 9 de Abril, quando a Assembleia Nacional começa a debater o projecto de lei sobre a Sociedade Nacional dos Caminhos de ferro Franceses (SNCF).

Na sexta-feira passada os sindicatos da SNCF classificaram como uma «mascarada» a posição do governo na primeira reunião de «concertação» e anunciaram a intenção de «reforçar, ampliar e endurecer a luta» para «fazer dobrar o governo», refere o 20 minutes. Admitem prolongar a greve «dois em cinco» (dois dias de greve em cada cinco dias de trabalho) para além do mês de Maio, se as suas reivindicações não forem atendidas. As declarações nesse sentido foram da CGT-Ferroviários mas também da CFDT, da Unsa e da Sud-Rail. Os sindicatos estão unidos na luta pelos seus direitos e contra a liberalização do sector ferroviário em França.

Membros da Confederaçã Geral do Trabalho (CGT) e da Confederação democrática do Trabalho (CFDT) votação para decidir a continuação da greve na SNFC, em Nice, França, 4 de Abril de 2018. Uma greve nacional de três meses foi convocada pelos trabalhadores ferroviários para defender os seus direitos contra as reformas do mercado laboral pretendidas por Emmanuel Macron. CréditosSebastien Noguier/EPA / LUSA

Desde os primeiros dias da greve que «o tráfego ferroviário foi muito perturbado», refere a mesma fonte. A Confederação Geral do Trabalho (CGT) é mais precisa: a mobilização dos ferroviários foi um sucesso, metade estiveram em greve em todo o país e cerca de 15 mil participaram nas assembleias-gerais convocadas pelos sindicatos. A AFP confirma que apenas «um em cada cinco comboios TGV e Intercidades circularam».

As decisões sobre a continuidade e natureza das formas de luta têm sido democraticamente escolhidas, com votações nos locais de trabalho.

A greve prossegue hoje e amanhã, dias 8 e 9 de Abril e regressará na sexta e no sábado, dias 13 e 14 de Abril1.

Uma luta patriótica

As reivindicações dos ferroviários ultrapassam o quadro estritamente laboral e «são no interesse dos franceses – afirma a CGT. Os sindicatos querem «verdadeiras negociações sobre a dívida e o financiamento» que ultrapassem a «solução mágica» do governo – a abertura aos privados e a liberalização do mercado ferroviário.

O estatuto da empresa, o estatuto do ferroviário, a organização da produção, a reinternalização das cargas de trabalho, os direitos sociais e as garantias sociais, entre outros, são assuntos sem cima da mesa. A CGT cita o conhecido sociólogo Pierre Bourdieu para afirmar que o combate dos trabalhadores é contra «a destruição de uma civilização, associada à existência do serviço público». Bernard Thibault, antigo secretário-geral da CGT, afirma que «a greve dos ferroviários é do interesse geral». A CGT alerta para o exemplo da destruição da British Rail inglesa, que teve como consequência uma subida de preços da ordem dos 117%.

A dívida é um falso pretexto e encobre a má gestão dos sucessivos governos e da «nobreza de Estado»

O governo tem jogado com a dívida da SNCF a qual, segundo referiu na quinta-feira passada, na Assembleia Nacional, atinge 55 mil milhões de euros e custa 1 milhão de euros à empresa. Os sindicatos responsabilizam o governo – e o Estado pela má gestão na SNCF. Bernard Thibaut lembra que a actual ministra dos Transportes, Élisabeth Borne, «dirigiu durante anos a estratégia da SNCF», que agora pretende «reformar», e terá decerto «toda a perícia para explicar porque se terá enganado acerca da mesma», e prossegue: «acusar os ferroviários de serem responsáveis pelas políticas públicas é o cúmulo». A CGT, a este respeito, relembra as palavras de Pierre Bourdieu, num comício de apoio a uma greve dos ferroviários, na Gare de Lyon, em 1995: «Esta nobreza de Estado, que prega o enfraquecimento do Estado e o reino sem limites do mercado e do consumidor – substituto comercial do cidadão – deitou a mão ao Estado. Fez do bem público um bem privado, da coisa pública, da República, a sua coisa».
 

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