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A dura luta dos trabalhadores indianos em tempos de pandemia

Depois de Modi ter imposto o confinamento, a Índia assistiu a um êxodo massivo de trabalhadores das grandes cidades. Contudo, alguns decidiram ficar e continuar a lutar pela sobrevivência onde estavam.

Uma trabalhadora com duas crianças nas barracas de Gurugram, cidade satélite de Nova Déli, no estado de Haryana, 26 de Julho de 2020
Uma trabalhadora com duas crianças nas barracas de Gurugram, cidade satélite de Nova Déli, no estado de Haryana, 26 de Julho de 2020 CréditosStr / Xinhua

Com a entrada em vigor do confinamento (lockdown) a 25 de Março, milhões de trabalhadores, dependentes de rendimentos diários e que se viram sem trabalho, tentaram sair de grandes cidades como Déli, Mumbai, Chennai e Calcutá, entre outras, e regressar às suas terras.

A medida decretada pelo primeiro-ministro, Narendra Modi, que os comunistas indianos classificaram como «uma quarentena unilateral, não planeada, à última da hora», levou muitos a fazerem-se à estrada, chegando a percorrer mais de mil quilómetros para chegarem às suas aldeias, na sua maioria localizadas nos estados de Bihar, Jharkhand, Madhya Pradesh, Rajastão, Uttar Pradesh, Bengala Ocidental e Odisha.

No entanto, uma pequena parte decidiu ficar nas cidades, onde, mesmo já com as restrições da quarentena e a diminuição a pique na oferta de trabalho, conseguiram ir arranjando empregos precários para ganhar algumas rupias.

Trabalhadores regressam às suas aldeias logo após a quarentena imposta pelo governo de Narendra Modi, em Nova Déli, a 29 de Março de 2020. / Javed Dar / Xinhua

Manoj Raikwar, de 28 anos, oriundo do distrito de Teekamgarh, no estado de Madhya Pradesh, é um trabalhador da construção civil em Gurugram, uma cidade satélite de Nova Déli, no estado de Haryana. Vive com a sua mulher, Mamta, de 27 anos, num pequeno bairro de lata no Sector 52 de Gurugram, perto da aldeia de Wazirabad. Falou com Xinhua sobre a sua experiência neste período de quarentena.

«Quando havia incerteza por todo o lado, depois da noite de 24 de Março, nós também entrámos em pânico. Então, vivíamos aqui com os nosso quatro filhos. A construção parou e ficámos sem trabalho. Incapazes de decidir, esperámos e vimos como a situação evoluía. Ao fim de alguns dias, os camponeses da aldeia vizinha começaram a dar alguma comida a pobres como nós. E rapidamente mais ajuda chegou, incluindo comida cozinhada», disse Manoj à Xinhua.

Acrescentou que, uma semana depois do início do confinamento, conseguiu arranjar um emprego a tempo parcial, como segurança numa casa. No entanto, a incerteza era grande e o casal decidiu mandar as quatro crianças para a terra natal, onde, disse, estavam seguras ao cuidado dos avós.

Mamta fala à Xinhua enquanto cozinha o jantar na barraca onde vivem, sublinhando que foram tempos duros para toda a gente, como nunca tinham visto. «Conseguimos mandar as crianças para a nossa aldeia e nós decidimos ficar aqui enquanto o meu marido mantivesse o emprego temporário como segurança», disse, acrescentando que tanto os aldeãos como os governo do estado lhes ofereceram muita comida.

Mamta diz que foram muito poucos os trabalhadores que optaram por ficar e que muitos não devem ter conseguido transporte para regressar às suas terras, uma vez que os comboios, os autocarros pararam.

Entretanto, a actividade da construção foi retomada e ambos recuperam os seus empregos e estão a trabalhar o dia inteiro num estaleiro de obras perto de casa. «Mas temos saudades das crianças», disse Mamta.

Manoj Raikwar e Mamta na sua barraca em Gurugram, uma cidade satélite de Nova Déli, no estado de Haryana, 26 de Julho de 2020. / Str / Xinhua

Subhash Yadav, habitante da aldeia vizinha de Wazirabad, contou à Xinhua que tinha alugado quase 20 barracas a famílias de trabalhadores e que, logo a seguir à imposição da quarentena, a maior parte se foi embora para as suas terras, tendo ficado apenas uma ou duas famílias.

«Os que se foram embora ainda não regressaram. Fizemos o nosso melhor para abastecer os que passaram aqui o lockdown com comida seca e até suspendemos a cobranaça de renda por três meses», afirmou, acrescentando: «Também tinha alugado dez lojas a alguns trabalhadores que eram barbeiros, carpinteiros, merceeiros, etc. Mas esses também fecharam as lojas e foram-se embora para as suas aldeias. Ainda não voltaram.»

Yadav entende que, embora as actividades económicas tenham sido retomadas com a passagem do país à fase 2 do desconfinamento, a procura ainda não arrancou e pode levar algum tempo.

«Com cortes nos empregos e nos salários, os escritórios e as fábricas não estão a trabalhar na máxima capacidade. E, além disso, o governo prolongou o teletrabalho para as empresas de tecnologia até 31 de Dezembro. Então, muitos dos executivos que costumavam trabalhar aqui estão a fazê-lo a partir das suas aldeias, a trabalhar a partir de casa. Com isso, a procura diária de produtos ainda não está no nível anterior à quarentena», sublinha Yadav, para quem não a situação não se «normalizará» antes do fim do ano.

O Partido Comunista da Índia (Marxista) – PCI(M) – tem acusado o governo nacionalista hindu liderado pelo Partido Janata Bharatiya (BJP) de ter metido a população mais desfavorecida numa armadilha ao decretar a quarentena sem anunciar medidas que compensassem as perdas dos trabalhadores. Por isso, exigem medidas urgentes face ao agravamento da situação de desemprego e da miséria na Índia.

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