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Com ou sem vidros, a «doença da América»

Imitação caricatural dos «golpes eleitorais made in USA», o recente ataque de apoiantes de Trump ao Capitólio, constituiu o desfecho apropriado do mandato do narcísico presidente norte-americano.

Soldados junto ao Capitólio, em Washington DC, EUA, a 14 de Janeiro de 2021. Pelo menos 20 mil membros da Guarda Nacional estacionarão no Capitólio a partir desta semana, a fim de reforçar a segurança do edifício até à tomada de posse do presidente eleito
Mais de 20 mil soldados da Guarda Nacional reforçam a segurança do Capitólio até à tomada de posse do presidente eleito edifício até à tomada de posse do presidente eleito CréditosEPA/SAMUEL CORUM / LUSA

As eleições presidenciais nos Estados Unidos, talvez pela possibilidade (não concretizada) de Trump vencer, despertaram comentários críticos à estruturação política dos EUA, vindos de meios que, em condições «normais», quase sempre os omitem.

De facto, qualquer reserva quanto ao processo eleitoral norte-americano ou à sua lei fundamental é habitualmente apagada pelos grandes meios de comunicação social e essa omissão torna-se ainda mais notória quando se trata de justificar o papel, assumido pelos Estados Unidos, de «polícia do mundo», e a sua ingerência em países soberanos a pretexto da defesa dos «direitos humanos».

Por tudo isso, tem sido curioso analisar os comentários de jornalistas e personalidades habitualmente ligadas à sua defesa que, talvez perturbados pelo calor da refrega eleitoral, têm posto a nu o défice democrático dos EUA, retirando a credibilidade argumentativa que usam nas mais diversas alturas.

«A democracia na América está doente», escreveu o jornalista Manuel Carvalho no editorial do Público de 5 de Novembro de 2020, começando a desconstruir a imagem de uma «América» libertadora, que ele próprio habitualmente propagandeia, indo até mais longe, acrescentando que «o remédio convencional das eleições jamais seria suficiente para a recuperar».

Também Miguel Sousa Tavares, que um presidente Trump «tão ignorante, tão boçal, tão impreparado, tão incapaz, tão irresponsável, tão desavergonhado» conseguiu irritar, completou o desabafo na edição do Expresso de 7 de Novembro de 2020, esquecido dos elogios que sempre faz à democracia norte-americana:

«Que todo o sistema de colégio eleitoral por estados [para eleger o presidente dos EUA] é profundamente estúpido, consentindo regras diferentes de contagem de votos, já se sabia, assim como se sabia que a justificação de servir para combater o centralismo de Washington contra o poder dos estados, serve apenas para favorecer os republicanos contra os democratas e para desvirtuar a vontade popular maioritária expressa nas urnas.»

Uma democracia não muito democrática

Na RTP 1, Patrick Siegler-Lathrop, formado em Harvard e autor do livro Rendez-vous com a América, em entrevista sobre as eleições norte-americanas dada à jornalista Márcia Rodrigues, atira mais achas para a fogueira:

«...Hoje vemos os EUA como a principal democracia do mundo. Mas, na verdade, o presidente dos Estados Unidos não parece ser eleito num processo muito democrático (…) este sistema é, de algum modo, uma clara distorção da própria democracia…».

Depois de ter explicado que a organização política dos EUA foi acordada no séc. XVIII entre estados que «não estavam interessados num sistema puramente democrático», o historiador esclarece que «no século XXI estamos habituados a pensar em eleições com um carácter nacional, mas [nos EUA] temos um sistema não actualizado com a forma como o mundo evoluiu, mas é como é, e assim continuará, infelizmente».

Por seu lado, Isabel Lucas, num longo artigo publicado na separata P2 do Público de 1 de Novembro de 2020, intitulado «Constituição: virtudes e omissões do livro sagrado da América», analisa com algum pormenor a génese e espírito que presidiu à elaboração da «mais curta constituição do mundo e a segunda mais antiga ainda em vigor, a seguir à de São Marino, de 1600». A jornalista, sublinhando algumas das suas limitações e arcaísmos, refere que embora o texto comece com «Nós, o Povo…», logo dele excluía as mulheres e os escravos, a quem negava os direitos políticos, só bastante mais tarde parcialmente alcançados através de duras lutas.

Conforme menciona, alguns dos acordos então estabelecidos ainda hoje se mantêm, distorcendo os mais elementares conceitos de democracia:

«Os escravos seriam contados como parte da população de um estado (sem poder votar), mas cada escravo contaria apenas como três quintos de uma pessoa (….)».

«O Compromisso dos Três Quintos continua a ser um dos tópicos mais sensíveis e difíceis de digerir da Constituição, mesmo tendo em conta que a sua redação tem mais de 200 anos, e é um dos argumentos utilizados por alguns críticos ao texto que declaram não ser assim tão democrático.»

Ainda a esse propósito, Isabel Lucas cita um artigo de Sanford Levinson, na revista Atlantic, em 2019:

«O resultado de tudo isto é que, talvez a questão mais fundamental que os Estados Unidos enfrentam hoje, especialmente para aqueles que argumentam, com razão, que o sistema é “manipulado” a favor da manutenção de um statu quo insustentável, é o modo como a própria Constituição faz grande parte do “manipulado”.»

Voltando às opiniões de gente de cá, podemos ler no Expresso de 5 de Novembro de 2020:

«Uma das falhas mais graves do sistema político (dos USA) reside no domínio real de organizações que não são partidos políticos com participação pública, mas sim instituições de selecção de candidatos dirigidas por uma elite frequentemente descrita como as duas facções do partido empresarial que domina o sistema político.»

Quem escreveu isto não foi nenhum faccioso marxista mas sim Pedro Carvalho, economista e CEO da Tranquilidade/Generali, professor na tão «ocidental» Nova School of Business and Economics de Carcavelos que, ao contrário do que o nome pode sugerir, não se localiza em nenhum país anglo-saxónico.

O articulista – que frequentou Harvard e trabalhou para a McKinsey, Goldman-Sachs e outras instituições insuspeitas de terem simpatias pela esquerda – acrescenta, acutilante: «Se um país com o sistema de representatividade dos EUA tentasse aderir à União Europeia, o pedido seria certamente rejeitado pelo Tribunal de Justiça Europeu».

É certo que, para muita gente, a União Europeia (UE) está longe de ser um exemplo de organização democrática. A farsa que constituiu a «eleição» da presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen – nomeada pela Alemanha sob pressão dos governos de extrema-direita do grupo de Visogrado e descartando, de uma penada, todos os «candidatos» à simulada «eleição» para o cargo, apresentados, numa espécie de encenação, com debates públicos e tudo... – é uma boa prova de como funciona a «democracia» na UE.

Mas atendendo que o CEO da Tranquilidade/Generali parece fazer parte do grupo dos que consideram a UE como uma referência democrática, podemos perceber o que quer significar quando afirma que os EUA não seriam aceites na «Europa» por não atingirem os mínimos nesse campo.

Como tantos outros que expõem as falhas mas se recusam a tirar as devidas conclusões, também Pedro Carvalho termina o demolidor artigo sobre a «América» com um optimismo mal sustentado que se assemelha mais a uma profissão de fé: «A democracia americana já foi capaz de se reinventar e revolucionar sem mudar a constituição: os movimentos cívicos dos anos 60 tornaram os EUA uma das nações mais progressistas e democráticas do mundo durante quase duas décadas».

Liberdades de baixo grau e e um permanente belicismo

Ora como os «movimentos cívicos dos anos 60» se centraram nos violentos protestos contra a descriminação racial e a guerra travada pelos EUA longe das suas fronteiras (na altura, no Vietname), bastaria a recente onda de revolta contra a violência racista das forças policiais, onde se integrou o movimento Black Lives Matter, para mostrar que, apesar do ilusório progresso criado pela eleição do primeiro presidente de raça negra (que pouco fez para resolver o problema), a discriminação e o racismo permanecem bem vivos e activos na sociedade norte-americana.

E quanto a guerras ditas «pela liberdade e democracia», as que já neste século deixaram em cacos a Jugoslávia, o Afeganistão, o Iraque, a Líbia ou a Síria, demonstram à saciedade que, depois das derrotas na Coreia e no Vietname, também o intervencionismo bélico norte-americano não parou nem diminuiu de intensidade.

Foi também nesses conturbados anos 60 que se deu o escândalo dos Pentagon papers – com a divulgação, pelo New York Times e Washington Post, de documentos secretos que provavam que as administrações de Kennedy, Johnson e Nixon tinham escondido a verdade sobre a guerra ao povo americano. O episódio, conjuntamente com o do Watergate, passou a ser apresentado como exemplo da vitória da liberdade de imprensa sobre o poder político (que a tenta abafar), nos EUA.

Contudo, nos anos que correm e sem merecer qualquer glorificação pelos grandes media norte-americanos (antes pelo contrário), Julian Assange, jornalista fundador da Wikileaks que, à semelhança dos heróis dos Pentagon Papers, trouxe à luz milhares de documentos com provas dos crimes cometidos pelos governos da «América», tem sido alvo de uma cruel perseguição pelas administrações de Obama e de Trump, com acusações inventadas que o obrigaram a refugiar-se, durante anos, na embaixada do Equador, de onde foi grotescamente «raptado» pela polícia britânica, continuando preso na Grã-Bretanha, em condições deploráveis.

Após o persistente protesto de inúmeras organizações internacionais e personalidades de prestígio mundial (entre as quais cinco Prémios Nobel), Assange viu recentemente travada a sua extradição para os EUA, onde o espera uma justiça viciada, arriscando uma pena de 175 anos de prisão, tendo os juízes reconhecido a sua precária condição de saúde e o eminente risco de suicídio.

«O facto de a decisão ser correta e salvar Assange da extradição, não isenta o Reino Unido de se ter envolvido neste processo com motivações políticas, a mando dos EUA, e de colocar em julgamento a liberdade de imprensa e de expressão» – afirmou o director para a Europa da Amnistia Internacional, Nils Muižnieks, citado pelo Expresso de 4 de Janeiro de 2021.

A decisão do tribunal, apenas focada em aspectos humanitários, está ainda sujeita a recurso, podendo prolongar mais o já longo martírio de Julian Assange.

Arrastadas no mar de lama de toda esta vergonhosa perseguição que dura há quase uma década, instituições da justiça sueca, britânica e norte-americana, mostraram a sua total falta de independência e o seu desprezo pelas regras do Estado de Direito e pela liberdade de informação.

Não parece, pois, que «os movimentos cívicos dos anos 60» tenham conseguido tornar «os EUA uma das nações mais progressistas e democráticas do mundo», como afirma o professor da Nova Business School.

De facto, os EUA permanecem um país com liberdades de baixo grau, muito longe de constituírem «a mais pujante democracia do mundo» de António Barreto (Público de 9 de Janeiro de 2021), ou «a maior, a mais antiga e mais sólida democracia do mundo», de Teresa de Sousa (Público de 10 de Janeiro de 2021).

A impossível escolha

É certo que com Biden e a mais jovem e empática Kamala Harris, haverá diferenças, mas nada de essencial deverá mudar. O racismo, a xenofobia, a desigualdade social, a opressão económica, a falta de protecção no emprego e na saúde, a descriminação das minorias, a cultura das armas, a pena de morte, as ingerências e agressões a nações soberanas, com bombardeamentos, campos de concentração, assassinatos extrajudiciais, sanções e estrangulamentos económicos ilegais e ilegítimos, assim como a manipulação dos media e as fake news, não foram uma invenção de Trump.

Durante o seu mandato, o desabrido presidente norte-americano foi até objectivamente mais comedido em aventuras bélicas do que o seu predecessor, Barack Obama, premiado com o Nobel da Paz logo no início do mandato, antes mesmo de ter feito qualquer coisa de jeito, para além das promessas (não cumpridas) e da sua cor de pele.

Imitação caricatural dos «golpes eleitorais» made in USA (na Venezuela, com Gaidó, na Bolívia, com Jeanine Ànez, na Bielorrússia, com Svetlana Tikhanovskaya), ou das «revoluções coloridas», como a da Ucrânia e a dos neonazis da Praça Maidan, o recente ataque de apoiantes de Trump ao Capitólio, constituiu o desfecho apropriado do mandato do narcísico presidente norte-americano, tão arrogante e descarado que faz parecer Joe Biden uma angélica promessa de um regresso a um passado «normal», em que os EUA e o «Ocidente» só desencadeiam tais agressões em terras alheias.

Biden tem outro dress code e os amigos da NATO que ajudam os USA a pôr a sua bota cardada nos países e povos que ousam desafiar a ordem do império, podem estar descansados. Os erros estratégicos e o discurso rugoso de Trump serão corrigidos.

Para o Washington Post – que foi buscar uma ideia antiga do humorista David Sedaris – escolher entre Biden e Trump, seria como «ter de optar, numa viagem de avião, entre um frango ou um prato de fezes com vidros».

O eleitor indeciso, perguntaria, à hospedeira, após um momento de reflexão: «O frango está bem assado»?

Agora, depois das «instituições de selecção de candidatos dirigidas por uma elite», referidas pelo CEO da Tranquilidade/Generali, terem tirado de cena, logo à partida, o «perigoso» candidato democrata Bernie Sanders (um «socialista» moderado que poderia prenunciar algum pequeno sopro de mudança), quando o presidente eleito, Joe Biden, suceder, no dia 20 de Janeiro, ao fascistóide Donald Trump, muitos poderão perguntar à hospedeira: «Então já não há frango? O monte de fezes tem bom aspecto? E pode vir sem vidros?».
 

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