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Cimeira das Américas em Los Angeles marcada pelas ausências

A maioria dos participantes da Cimeira de Los Angeles questionou a decisão de excluir a participação de Cuba, Venezuela e Nicarágua e expressou a rejeição ao bloqueio imposto a Cuba há mais de 60 anos.

O presidente Joseph Biden viu a política dos EUA de bloqueio e de sanções a Cuba ser largamente contestada pelos participantes da Cimeira das Américas, apesar de ser o anfitrião do encontro, que decorreu entre 6 e 10 de Junho de 2022 em Los Angeles
O presidente Joseph Biden viu a política dos EUA de bloqueio e de sanções a Cuba ser largamente contestada pelos participantes da Cimeira das Américas, apesar de ser o anfitrião do encontro, que decorreu entre 6 e 10 de Junho de 2022 em Los AngelesCréditosMarcio Jose Sanchez / AP Photo

A IX Cimeira das Américas, acolhida pelos EUA em Los Angeles, nos dias 6-10 de Junho, ficou marcada por várias ausências de peso e a contestação às imposições dos EUA e ao papel vassalo da Organização de Estados Americanos (OEA) e do seu secretário-geral, Almagro.

Prosseguindo a política de exclusão e a escalada de sanções contra Cuba, Venezuela e a Nicarágua seguidas por Trump, a administração Biden resolveu não convidar para a Cimeira os três países, todos membros da ALBA-TCP, recorrendo à estafada alegação de violação dos direitos humanos. Decisão que motivaria o protesto e a ausência do presidente do México, López Obrador, acompanhado pela decisão de não comparência dos presidentes da Bolívia, Luis Arce, e Honduras, Xiomara Castro, e do primeiro-ministro de São Vicente e Granadinas, Ralph Gonsalves. Outros três chefes de estado – de El Salvador, Guatemala e Uruguai – invocaram diferentes motivos para não asssistir à reunião de Los Angeles, que registou a menor participação de sempre em quase 30 anos de história do fórum regional (apenas 23 chefes de estado). O presidente da Argentina, Alberto Fernández, esteve presente em representação da CELAC (Comunidade de Estados Latinoamericanos e Caribenhos), país que detém actualmente a presidência rotativa da organização fundada em Caracas em 2011.

Num claro revés para a Casa Branca e as aspirações de vigência perpétua da doutrina Monroe, a maioria dos participantes da cimeira de Los Angeles questionou a decisão de excluir a participação de Cuba, Venezuela e Nicarágua e expressou a rejeição ao bloqueio imposto a Cuba há mais de 60 anos.

Não houve acordo para aprovação de uma declaração final, apenas um conjunto de acordos temáticos genéricos e uma declaração sobre migração, patrocinada pelos EUA. As ofertas de Washington nesta matéria, segundo um editorial do jornal mexicano La Jornada, «não poderiam estar mais distantes do que se requere para enfrentar o fenómeno migratório», bastando reter que o montante da ajuda prometida pelos EUA constitui «menos de um por cento do destinado num só pacote de apoio para continuar as acções bélicas na Ucrânia». Ao mesmo tempo, recorda-se, as autoridades dos EUA decidiram manter as disposições aprovadas por Trump de deportação simplificada de migrantes, ao abrigo das quais desde 2020 mais de 1,8 milhões de migrantes foram expulsos do território norte-americano.

Em jeito de balanço da cimeira, o jornal El País de 12 de Junho lamenta a «ocasião perdida para a América», reconhecendo a «falta de entusiasmo» e «frieza» como factores que ensombraram a Cimeira.

Discursando em Havana numa iniciativa dirigida à sociedade civil cubana excluída da Cimeira das Américas de Los Angeles, o presidente cubano Díaz-Canel realçou que «os tempos mudaram e a nossa América não aceita a imposição dos interesses do imperialismo, como não aceita que nos utilizem para os conflitos dos Estados Unidos contra aqueles que identifica como rivais estratégicos noutras partes do mundo». Utilizando o twitter, o antigo presidente boliviano, Evo Morales, salientou a «derrota (...) em casa» dos EUA e aponta o «fracasso» da cerimónia de encerramento da Cimeira devido à «fuga de assistentes e o protesto» contra a «política arbitrária de exclusão». Morales criticou ainda a OEA, considerando-a um «paradoxo», e defendeu a criação de um novo organismo integrador, «respeitador da soberania e cultura da América Latina», e o desenvolvimento da CELAC e UNASUR.

Intervindo na cimeira, o presidente argentino Alberto Fernández marcou o tom crítico dominante, ao defender uma América Latina unida e sem exclusões e aludindo à discriminação de Cuba, Venezuela e Nicarágua, afirmou que o «silêncio dos ausentes interpela-nos». Defendeu que no futuro o facto de um país ser anfitrião não deve conceder a direito de imposição da admissão dos países do continente e denunciou a actuação da OEA como gendarme que apoiou o golpe de Estado na Bolívia de 2019, tal como a apropriação da direcção do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Ideias corroboradas pelo ministro dos Negócios Estrangeiros do México, Marcelo Ebrard, que considerou o papel da OEA «esgotado» – apontando o dedo ao «papel vergonhoso» da organização sob comando do secretário-geral Almagro no golpe de Estado na Bolívia – e advogou a necessidade da sua «refundação» com base em «políticas de não-intervenção e benefício mútuo». Ebrard lembrou os bloqueios e sanções aplicados contra países da região, inclusive no contexto da pandemia de Covid-19, em «contradição» com o direito internacional, criticando a manutenção do bloqueio dos EUA contra Cuba. 

Numa cimeira que contou com a participação do secretário-geral da ONU, António Guterres, e da OEA, Luis Almagro, o presidente da Colômbia em fim de mandato, Iván Duque, foi um dos poucos chefes de estado a prestar vassalagem ao país anfitrião, com um discurso pleno de hipocrisia, enfatizando a divisão entre «democratas» e «autocratas». Uma intervenção que acabou por carimbar o fiasco da Cimeira de Los Angeles.

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