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Centenas de polícias invadem Universidade de Columbia para reprimir estudantes

Menos de 1300 km e 138 anos separam o massacre de Haymarket, que deu origem ao 1.º de Maio, e a invasão da Universidade de Columbia. Centenas de polícias, armados, assaltaram o edifício que albergava alunos pró-Palestina.

Centenas de polícias de Nova Iorque, armados e com equipamento de choque, preparam-se para invadir um edifício da Universidade de Columbia barricado por 20 a 30 estudantes em protesto contra o massacre em Gaza. 30 de Abril de 2024 
CréditosStephani Spindel / EPA

Primeiro como tragédia, depois como farsa. Há exactamente 56 anos, no mesmo edifício na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, a polícia foi chamada para impedir os protestos, pacíficos, dos estudantes. Em 1968, mais de 700 jovens foram detidos no protesto contra a guerra do Vietname. Em 2024, na noite de 30 de Abril para 1 de Maio, mais de uma centena foi presa pelas forças policiais norte-americanas enquanto ocupavam o mesmo edifício (Hamilton Hall) numa manifestação contra o massacre israelita em Gaza e investimentos de Israel na universidade.

O Hamilton Hall foi, em 1985, bloqueado por novos protestos estudantis, nesse caso contra o Apartheid (adequado para a situação corrente) sul-africano e as relações económicas que Columbia mantinha com esse país.

A ocupação deste edifício ocorreu poucas semanas do início de protestos em várias instituições de ensino superior norte-americanas, muitas das quais envolvendo a realização de acampamentos no seio das instituições. Em Columbia, os manifestantes que ocuparam o edifício renomearam-no Hind's Hall, em homenagem a uma das vítimas do ataque brutal do regime israelita: Hind Rajab, um rapariga de 6 anos que morreu dentro de um carro, rodeada pela família massacrada por balas israelitas.

De acordo com o Crescente Vermelho, Hind conseguiu ainda estabelecer contacto telefónico com os serviços de emergência, enquanto estava presa no carro com os corpos dos familiar. Depois de horas a tentar consolá-la, o grupo de ajuda humanitária enviou um ambulância num esforço frenético para a encontrar e salvar. Ambos os paramédicos foram assassinados por Israel e Hind foi encontrada já sem vida.

Segundo o Departamento da Polícia de Nova Iorque (NYPD), responsável pela mobilização de um contigente policial que muitos jornalistas descrevem como tendo sido inédito, até a um nível internacional («já cobri muitas situações deste tipo em todo o mundo e nunca tinha visto tantos polícias a mobilizarem-se para uma mesma zona», comentou, em directo, Miguel Marquez, da CNN), cerca de uma centena de estudantes foram detidos.

A decisão de solicitar a intervenção policial foi tomada pela directora da Universidade de Columbia, a baronesa Minouche Shafik, que fugiu, ainda criança, do Egipto depois do Estado nacionalizar o enorme latifúndio dos seus pais. Na carta que dirigiu à NYPD, Shafik pediu ainda a manutenção de uma presença musculada da polícia no campus, «para manter a ordem e garantir que os acampamentos não são restabelecidos».

A presença de forças policiais militarizadas nos campus das universidades em que se realizaram protestos contra o massacre em Gaza não começou, no entanto, com esta invasão. Ao longo das últimas semanas, em diferentes locais, os estudantes têm divulgado nas redes sociais imagens e vídeos de snipers instalados no topo dos edifícios circundantes. A mobilização de centenas de tropas de choque, dezenas de veículos blindados, munidas de armas de fogo é apenas um escalar das práticas repressivas empregadas contra os estudantes.

Farol da democracia, o establishment norte-americano mostra-se unido em torno da repressão

Durante os protestos contra a guerra no Vietname, em 1968, Joe Biden recusou-se a juntar-se à mobilização estudantil (estava a acabar o curso de direito). Hoje, presidente dos Estados Unidos da América, é responsável por incitar o ódio e a mentira sobre aqueles que não vão tolerar (como ele fez) o massacre de milhares de seres humanos.

Justificando a sua oposição aos protestos com «a vaga feroz de antissemitismo» que, aparentemente, está a ser dinamizada pelos jovens nas universidades (muitos dos quais judeus, ao contrário de Biden), o establishment democrático, profundamente alinhado com os interesses israelitas, foi indispensável para garantir a repressão policial em Columbia. Nova Iorque é, afinal de contas, um estado com um governador democrata, um presidente da câmara democrata e uma maioria democrata. 

Donald Trump criticou a posição dos democratas, argumentando que os polícias deviam ter investido contra o estudantes «muito mais cedo». Foi este alinhar de perspectivas republicanas e democratas que, na semana passada, permitiu a aprovação de um pacote de ajuda financeira e militar para a Ucrânia no valor de 95 mil milhões de dólares: 26 mil milhões destinam-se a apoiar militarmente o Apartheid de Israel.

Robin D. G. Kelley: Minouche Shafik «não está a proteger ninguém, excepto os seus doadores, dotações e os investimentos da Universidade de Columbia»

Numa carta aberta publicada no dia 29 de Abril, antecipando os acontecimentos do dia seguinte, Robin D. G. Kelley, professor de História Americana na Universidade da Califórnia em Los Angeles e antigo docente de Columbia, afirmou nunca ter visto, ao longo de vários anos e vários protestos contra a guerra, «uma crueldade tão descarada para com estudantes e professores, tanta cobardia perante aquilo que não é mais do que uma caça às bruxas da direita e uma desonestidade tão flagrante» por parte dos responsáveis de uma universidade.

«As universidades não devem assemelhar-se a ditaduras ou a empresas da Fortune 500, independentemente da dimensão das suas dotações».

«Como administradores de instituições encarregadas de educar, alojar e proteger os jovens (muitos dos quais adolescentes longe de casa), os dirigentes universitários são responsáveis pela sua segurança e bem-estar», defendeu o autor e historiador. «Suspeito que os seus [Minouche Shafik] anteriores cargos executivos e de gestão no Banco Mundial, no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no Banco de Inglaterra não a prepararam para dirigir uma universidade». 

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