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Ao 15.º dia de greve, enormes manifestações contra o governo de Duque

Centenas de milhares participaram esta quarta-feira nas mobilizações convocadas pelo Comité Nacional da Greve para denunciar o aprofundamento dos problemas estruturais da Colômbia no mandato de Duque.

As mobilizações contra as políticas neoliberais de Iván Duque fizeram-se sentir em muitas cidades do país sul-americano 
As mobilizações contra as políticas neoliberais de Iván Duque fizeram-se sentir em muitas cidades do país sul-americano Créditos / Prensa Latina

A greve geral da Colômbia, iniciada no passado dia 28 de Abril, tem sido marcada pela forte repressão de uma Polícia «feita para a guerra», como afirma na sua conta de Twitter a organização não governamental (ONG) Temblores, mas ontem decorreu quase tudo de forma tranquila – pelo menos até certo ponto.

A representante na Colômbia da Alta Comissária dos Direitos Humanos da ONU, Juliette de Rivero, percorreu várias cidades do país, tendo afirmado que as marchas foram pacíficas, informa a Prensa Latina.

Além dos sectores que têm estado mais mobilizados nas últimas duas semanas, aderiram aos protestos habitantes que apoiam a luta em várias cidades, como aconteceu em Barranquilla, Bogotá, Catatumbo, Cartagena, Ibagué, Medellín, Pereira, Popayán e até em Cáli, apesar de se encontrar militarizada, manifestando a sua oposição às políticas neoliberais do actual governo.

Os manifestantes exibiram bandeiras, cartazes e fizeram ouvir palavras de ordem, de forma pacífica, em defesa de várias reivindicações. Nalgumas marchas, como a que teve lugar junto ao monumento aos Heróis, em Bogotá, foram evocados os 6402 «falsos positivos» (pessoas assassinadas para depois serem apresentadas como guerrilheiros abatidos).

Em Manizales, os manifestantes homenagearam quem se transformou em mártir nesta greve geral. Um deles foi Lucas Villa, estudante atingido a tiro no passado dia 5 e que morreu esta terça-feira, dia 11.

Os povos originários também aderiram à jornada de mobilizações, refere a Prensa Latina, para «avançar na defesa da vida, da paz, da justiça, da autonomia e da qualidade de vida para os colombianos». Por seu lado, ex-guerrilheiros mobilizaram-se pela implementação total do acordo de paz, o fim dos assassinatos dos seus signatários e dos dirigentes sociais, e por um rendimento mínimo universal.

O fim da violência e da militarização, bem como a revogação de um projecto de reforma do sector da Saúde com carácter privatizador foram algumas das exigências comuns às centenas de milhares de manifestantes que ontem vieram para as ruas da Colômbia.

Pobreza, fome, abandono da população pelo Estado

Segundo o Comité Nacional da Greve, as jornadas de luta recentes surgiram do «desespero provocado pela pobreza e o abandono estatal» a que se viu votada a população colombiana.

«Enquanto a fome se tornava uma rotina trágica com o símbolo do trapo vermelho pendurado nas portas e janelas de milhares de casas, a resposta do governo foi aumentar a sua despesa e olhar para o lado», afirmaram os organizadores do protesto, citados pela Prensa Latina.

A miséria e a desigualdade social já se faziam notar bem antes da pandemia, mas agudizaram-se e mostraram toda a sua intensidade com um governo que aumentava a despesa militar, acrescentaram.

Os «números da infâmia» já foram divulgados pelo Departamento Administrativo Nacional de Estatística: mais de sete milhões de pessoas só comem duas vezes por dia e mais de 500 mil colombianos só o fazem uma vez, destacaram os convocantes.

Ainda para mais, quando, no ano passado, a pobreza atingiu 42,5% da população, o governo «propôs torpemente uma reforma tributária regressiva», enfatizam, acrescentando que o sistema deficitário de saúde e a falta de financiamento da educação são sentidos com mais dureza pelos afrodescendentes, os indígenas, as mulheres e os agricultores.

Repressão em Bogotá, Popayán e Barranquilla: «pão e circo» garantidos

Apesar das manifestações pacíficas, à noite o Esquadrão Móvel Antidistúrbios (Esmad) carregou sobre os manifestantes na capital, como o faz praticamente todos os dias.

Na capital do departamento do Cauca, Popayán, agentes do Esmad atacaram e prenderam vários manifestantes que se encontravam no Parque Caldas, incluindo o jornalista Kevin Acosta, da Red Alterna, revela a TeleSur.

Em Barranquilla, no departamento do Atlântico, disputou-se ontem a partida entre o Junior e o River Plate, a contar para Copa Libertadores, e o Esmad atacou os apoiantes que, nas imediações do Estádio Romelio Martínez, se juntaram à mobilização.

De acordo as denúncias de organizações sociais e os vídeos publicados nas redes sociais, o Esmad atacou com gás lacrimogéneo e bombas atordoantes centenas de jovens que se concentraram no lado de fora do estádio e se uniram aos protestos da greve geral, enquanto decorria o jogo, indica a TeleSur.

Sergio Marín, do partido Comunes, destacou como, enquanto a normalidade futebolística decorria lá dentro, cá fora o povo que se mobilizava pelos direitos levava tareia. «Pão e circo, ao melhor estilo das ditaduras do Cone Sul», denunciou na sua conta de Twitter.

No mais recente relatório, a ONG Temblores informou que, entre 28 de Abril e 10 de Maio, foram mortas pelo menos 40 pessoas na Colômbia, no âmbito da greve geral, e se registaram 1956 casos de violência policial.

A Temblores, que irá actualizar os seus dados hoje, revelou ainda que, no período referido, 1003 cidadãos foram detidos arbitrariamente, se registaram 12 casos de pessoas agredidas sexualmente pela Polícia e 28 de pessoas com lesões oculares.

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