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Agricultura familiar: Comunidades rurais doaram toneladas de alimentos no Paraná

Nove comunidades rurais participaram na iniciativa, na sua maioria membros do MST, em protesto contra o aumento da fome e para ajudar a paliar os efeitos das crises que as políticas de Bolsonaro agudizam.

No total, foram distribuídos 2,1 mil cestas de alimentos e 2,6 mil litros de leite na acção solidária 
No total, foram distribuídos 2,1 mil cestas de alimentos e 2,6 mil litros de leite na acção solidária CréditosWellington Lenon / MST-PR

Cerca de duas dezenas de camiões carregaram as mais de 48 toneladas de mandioca, feijão, arroz, fubá, batata, legumes, frutas e leite doadas por famílias camponesas de Quedas do Iguaçu e Espigão Alto do Iguaçu a habitantes da região, no fim da semana passada.

No total, foram refere o Brasil de Fato, foram partilhados 2,1 mil cestas de alimentos e 2,6 mil litros de leite na acção solidária levada a cabo no âmbito do Dia Internacional da Agricultura Familiar, que se assinala a 25 de julho.

Os alimentos chegaram a famílias urbanas dos municípios referidos e também da Terra Indígena Rio das Cobras, localizadas em Nova Laranjeiras, formada pelos povos Kaingang e Guarani.

No seu portal, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) afirma que as «nove comunidades rurais se uniram para a actividade como forma de amenizar os efeitos da crise económica, sanitária e de governo genocida potencializada de Bolsonaro».

«Em todo o Brasil – lembra o movimento –, mais de 116 milhões de pessoas não têm o suficiente para se alimentar ou passam fome – segundo pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, de Dezembro de 2020».

Oito das nove comunidades que participaram na acção integram o MST, somando mais de 2000 famílias. Além do gesto de solidariedade e protesto contra o crescimento da fome, a iniciativa foi uma forma de comemoração da conquista do Cadastro de Produtor Rural (CAD/PRO) por mais de 800 famílias acampadas em Quedas do Iguaçu.

As emissões ocorreram nas últimas semanas, respondendo a uma reivindicação antiga das dessas famílias camponesas e também a uma nota técnica emitida pelo Ministério Público do Paraná, publicada em Março.

As doações de alimentos vieram de famílias camponesas de Quedas do Iguaçu e Espigão Alto do Iguaçu / Wellington Lenon / MST-PR

Reconhecimento da Reforma Agrária

As mais de 2000 famílias envolvidas na mobilização têm em comum a luta pelo direito à terra para produzir alimentos e conquistar uma vida digna. A maior parte das comunidades onde hoje vivem as famílias camponesas já esteve sob domínio de um único dono, a madeireira Giacomet Marodin, actual Araupel, indica o MST.

«Desde 1996, quando houve a primeira ocupação na região em áreas da empresa, passou a haver a substituição do monocultivo de pinus pela produção de alimentos da agricultura camponesa», refere, acrescentando que, entre as comunidades fruto dessas lutas, está o assentamento Celso Furtado, com 1200 famílias, o maior assentamento de Reforma Agrária da América Latina e um dos que participaram nesta acção.

O desembargador do Tribunal de Justiça do Paraná Fernando Prazeres, presidente da Comissão Estadual de Conflitos Fundiários do Paraná (CEJUSC), esteve presente na abertura das entregas dos alimentos e enfatizou a possibilidade de haver formas pacíficas para resolver os conflitos no campo.

Por seu lado, a vice-prefeita da cidade de Quedas do Iguaçu, Edith Helma Maier, reconheceu o papel das famílias agricultoras sem terra, a quem chamou «plantadores da saúde e da vida».

Também estiveram presentes na acção Manoel Caetano, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e advogado da equipa do presidente Lula; Darci Frigo, vice-presidente do Conselho Nacional de Direitos Humanos, e Paulo Porto, professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e indigenista.

Alimentos chegaram a famílias urbanas dos municípios e também da Terra Indígena Rio das Cobras / Wellington Lenon / MST-PR

Acções de solidariedade do MST durante a pandemia

«As acções fazem parte da campanha nacional do MST em solidariedade com quem enfrenta o desemprego e a fome neste período de crise sanitária e de governo genocida de Bolsonaro», revela o movimento. Em todo o país, já foram partilhadas mais de 5000 toneladas de alimentos e um milhão de marmitas.

Com a acção realizada no fim da semana passada, as famílias sem terra do Paraná (Sul do Brasil) doaram mais de 760 toneladas de alimentos saudáveis desde o início da pandemia. Só as famílias camponesas de Quedas do Iguaçu e Espigão já doaram mais de 113 toneladas de alimentos, precisa o MST.

Desde Maio de 2020, o MST também coordena a iniciativa Marmitas da Terra, que produz e distribui refeições a pessoas em situação de rua e residentes na periferia de Curitiba e Região Metropolitana. Pelo menos 1100 marmitas são doadas todas as quartas-feiras, perfazendo, até ao momento, mais de 66 mil refeições, produzidas sobretudo com alimentos vindos de áreas da Reforma Agrária.

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