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Uma programação para as artes do continente africano

Três exposições de artistas de países africanos ou afro-descendentes em dois espaços alternativos de Lisboa tiveram por foco uma abordagem à criação artística do continente africano, em foco na ARCOlisboa.

Vista geral da exposição «Fronteiras Invisíveis
Vista geral da exposição «Fronteiras Invisíveis", de Francisco Vidal, no espaço Not a Museum, Palais Castilho, Lisboa, Junho de 2019. CréditosFrancisco Palma

Registámos, há bem pouco, a realização de três exposições de artistas de países africanos ou afro-descendentes, em dois espaços de Lisboa, foram elas: a exposição colectiva África Diversidade Comum e Fronteiras Invisíveis, exposição individual de Francisco Vidal, promovidas pelo programa/projecto "Not a Museum" na Rua Castilho; a outra exposição, Spaces In Between, foi organizada pela galeria This is not a White Cube (Luanda, Angola) na Rua da Madalena. Todas estas exposições foram realizadas em espaços alternativos.

A razão destas exposições foi a realização da Feira de Arte Contemporânea ARCOlisboa deste ano, que colocou no seu programa uma proposta chamada "África em Foco", para uma abordagem à criação artística do continente africano. No fundo, este ano acabei por fazer, tal como tem vindo a ser meu hábito, o mesmo do que quando vou a Madrid na altura da ARCO (Feira-mãe da ARCOlisboa), que é privilegiar sempre o programa paralelo, e lá fui a Lisboa em busca destas exposições.

«porque uma feira será sempre uma feira, com interesses de mercado, onde o que mais importa é o potencial valor de troca que está associado às artes, a obtenção de lucro, o recorde de vendas, as possibilidades de investimento e a especulação financeira, e não o valor simbólico, nem o interesse cultural e histórico que fomentem e reinventem diálogos entre culturas, para que isto venha a acontecer, na nossa relação e aproximação ao que se faz nas artes em países africanos, tem de existir uma programação fora do comércio, sem preconceitos ou equívocos de ordem social, política e artística e com um forte apoio das instituições portuguesas»

A memória tem vindo a assumir um papel importante em todo o contexto das práticas artísticas na arte contemporânea, são diversas as formas em que ela tem sido observada e trabalhada sob diferentes pontos de vista: individual, colectivo, género, espaço, esquecimento, história, pós-memória e pós-arquivo. Embora tenhamos tido por aqui, em Portugal, com alguma regularidade, algumas excelentes exposições onde as memórias e os lugares do continente africano de herança colonial estão bem presentes, referindo-me em particular aos artistas como Ângela Ferreira, Mónica Miranda, Yonamine e Francisco Vidal, entre outros, nunca tínhamos tido exposições com tão grande representação de artistas de países africanos, salvo em alguns projectos levados a cabo pela Gulbenkian e programados por António Pinto Ribeiro1. Neste caso, e porque uma feira será sempre uma feira, com interesses de mercado, onde o que mais importa é o potencial valor de troca que está associado às artes, a obtenção de lucro, o recorde de vendas, as possibilidades de investimento e a especulação financeira, e não o valor simbólico, nem o interesse cultural e histórico que fomentem e reinventem diálogos entre culturas, para que isto venha a acontecer, na nossa relação e aproximação ao que se faz nas artes em países africanos, tem de existir uma programação fora do comércio, sem preconceitos ou equívocos de ordem social, política e artística e com um forte apoio das instituições portuguesas.

Obra de Cristiano Mangovo (2018) da exposição colectiva «África Diversidade Comum», espaço Not a Museum, Palais Castilho, Lisboa, Junho de 2019. CréditosFrancisco Palma /

A Exposição África Diversidade Comum, de arte contemporânea africana, teve a curadoria de Manuel Dias dos Santos e contou com pintura, escultura, fotografia e instalação, dos cerca de trinta artistas, entre eles pudemos ver trabalhos de Abdel Queta Tavares, Blackson Afonso, Cristiano Mangovo, Gonçalo Mabunda, Ihosvanny, Januário Jano, Keyezua, Kiluanji Kia henda, Lucano, Mário Macilau, Maura Faria, Mumpasi Meso, Nelo Teixeira, Nú Barreto, René Tavares, Rómulo de Santa Rita, Roselyn Silva, Toy Boy e Yonamine, dos países de Angola, Cabo-Verde, Guiné Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

«a arte contemporânea produzida por artistas destes países, como é esperado, representa uma emanação das mudanças extraordinárias e únicas que vive o continente africano [e] tem sido um veículo privilegiado para convocar velhas utopias, viajar pela história, analisar contextos, reavivar sonhos, criar esperanças, educar para o futuro, convocando para o debate a maioria dos cidadãos destes espaços nacionais que são jovens»

Manuel Dias dos Santos

Sobre esta exposição o curador referiu que «a arte contemporânea produzida por artistas destes países, como é esperado, representa uma emanação das mudanças extraordinárias e únicas que vive o continente africano»2 não deixando de chamar a atenção que a arte «tem sido um veículo privilegiado para convocar velhas utopias, viajar pela história, analisar contextos, reavivar sonhos, criar esperanças, educar para o futuro, convocando para o debate a maioria dos cidadãos destes espaços nacionais que são jovens»3.

Em Fronteiras Invisíveis o sentir de uma fulgurante, emotiva e poética intervenção artística de Francisco Vidal em todo o 2.º andar do edifício, com o recurso a diversas técnicas, onde pudemos identificar ideias pessoais, ideais, retratos de figuras e acontecimentos marcantes para o pensamento contemporâneo africano como José Luandino Vieira, a "Utopia Luanda Machine", a série "Padrão Crioulo", uma "Revolução Industrial Africana" e também textos de Nina Simone, Pablo Picasso, Jean-Michel Basquiat, Henri Matisse, Simone de Beauvoir, Jimi Hendrix, John Coltrane, Miles Davis, Jean-Paul Sartre, entre muitos outros. Nesta exposição fomos confrontados com uma série de trabalhos “que nos remetem para lugares imaginários, situados algures, entre o real que se rejeita, e o ideal que se espera e deseja. Estas são fronteiras invisíveis que confluem na raiz do percurso de Francisco Vidal - de origem cabo-verdiana e angolana, que cresceu em Portugal, viveu em Berlim, Nova Iorque e Luanda – e, é nessa encruzilhada de códigos e referências culturais, que o seu trabalho ganha vida, forma e cor, através do desenho, escultura e instalação, debruçando-se sobre temas que debate a diáspora africana e a sua herança, no presente e no futuro”4.

Instalação com fotografias de Filipe Branquinho, exposição «Spaces In Between», organizada pela galeria This is not a White Cube (Luanda, Angola) em Lisboa, em 2019: 1. “Casa de Ferro, recepção”, 2014; 2. “Casa Velha, palco”, 2011; 3. “Cine teatro África, consolas”, 2014; 4. “Cine teatro Gil Vicente, plateia”, 2011; 5. “Escola Secundária Josina Machel, salão de festas”, 2014; 6. “Piscina do Maxaquene”, 2013. CréditosFrancisco Palma /

Na exposição Spaces In Between participaram 14 artistas, Alice Marcelino, Cristiano Mangovo, Evans Mbugua, EL Loko, Filipe Branquinho, Goncalo Mabunda, Hako Hankson, Januario Jano, Justin Andrew Dingwall, Marion Boehm, Monica de Miranda, Nelo Teixeira Teixeira, Patrick Bongoy e Pedro Pires. «A intersecção entre os espaços do mundo, habitada pelos marginalizados, cujas narrativas estão constantemente no alvo da política de estetização e apagamento, assume um papel central»5, este é o ponto de partida dos curadores desta exposição para juntar artistas com práticas e percursos diferentes, mas que em todos existe uma reflexão sobre lugares e memórias da história africana ou de herança colonial, diáspora, refugiados, identidade colectiva, sobre o activismo feminista e a política anti-racista.

Sugerimos visita à ZDB e ao Atelier-Museu Júlio Pomar

A Zé dos Bois é uma associação cultural fundada em Outubro de 1984 no Bairro Alto, afirmando-se em diversas áreas das arte: artes visuais, artes performativas, música, teatro e dança.

Escultura de Pedro Henriques, Exposição «Safari», Galeria Zé dos Bois, Lisboa, Junho de 2019. CréditosFrancisco Palma /

No ano em que comemora 25 anos de actividade, sugerimos a visita, na Galeria Zé dos Bois6 a duas exposições individuais que inauguraram a 14 de Maio, Safari de Pedro Henriques (Porto, 1985) e Kraczevo de Anne Lefebvre (Boulogne-Billancourt, 1963). Podem ser visitadas até 12 de Setembro. Destes dois artistas, Natxo Checa (curador) refere, no texto de apresentação, que Pedro Henriques «...explora as fronteiras entre a imagem e o objecto, lançando desafios cada vez mais sofisticados à capacidade perceptiva do espectador» e que o trabalho de Anne Lefebvre «...parte frequentemente da manipulação dos elementos estruturais da fotografia para criar obras que estabelecem diálogos directos com algumas das práticas e das preocupações conceptuais das vanguardas históricas».

A exposição que se encontra no Atelier-Museu Júlio Pomar7 tem como título Formas que se tornam outras e pode ser visitada até 29 de Setembro. Esta exposição com mais de 80 obras de Júlio Pomar (1926-2018), onde o artista reflecte sobre o «corpo, o erotismo, a sensualidade e a sexualidade», temas que influenciaram os seus trabalhos ao longo de mais de 70 anos, com especial atenção às décadas de 1960 e 1970. No âmbito desta exposição, vai também ser organizado um ciclo de cinema com filmes de Tereza Martha, realizados nas décadas de 1970 e 1980, sobre vários artistas portugueses.

  • 1. Fórum cultural O Estado do Mundo (2006/2007), Programa Criatividade e Criação Artística (2004-2008), Programa Distância e Proximidade (2008 e Próximo Futuro (2009/2015), programados por António Pinto Ribeiro.
  • 2. Manuel Dias dos Santos, texto da exposição colectiva África Diversidade Comum, espaço Not a Museum, Palais Castilho, Lisboa.
  • 3. Ibidem.
  • 4. Namalimba Coelho, texto da exposição Fronteiras Invisíveis de Francisco Vidal, espaço Not a Museum, Palais Castilho, Lisboa.
  • 5. Sonia Marina Vieira Ribeiro e André Cunha, curadores da exposição colectiva Spaces In Between, organizada pela galeria This is not a White Cube (Luanda, Angola).
  • 6. ZDB, Rua da Barroca, no 59, 1200-049 Lisboa. Horário Exposições: Quarta a Sábado das 18h às 22h.
  • 7. Atelier-Museu Júlio Pomar, Rua do Vale, nº 7, 1200 - 472 Lisboa. Horário: Terça-feira a Domingo das 10h às 13h e das 14h às 18h.

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