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Morreu o cineasta e resistente antifascista Henrique Espírito Santo

Foi nos cineclubes, «grande movimento cultural de massas que muito incomodou a PIDE e o fascismo», que Henrique Espírito Santo se formou e descobriu o seu amor pelo cinema. Morreu este domingo, aos 88 anos. 

Créditos / Cinemateca

Nascido em 18 de Novembro de 1931, em Queluz, concelho de Sintra, Henrique Espírito Santo foi um apaixonado pelo cinema. Tal como recordava ontem a Cinemateca Portuguesa, esta figura incontornável do Cinema Novo português foi «cineclubista de formação, antifascista militante por convicção, director de produção e [...] formador de toda uma geração de profissionais de cinema na área da produção».

Crítico de cinema em várias publicações, Henrique Espírito Santo foi professor na Escola de Cinema do Conservatório Nacional e director de produção do Centro Português de Cinema, que marcou o movimento renovador das décadas de 1960 e 1970. Trabalhou com cineastas como Luís Filipe Rocha, José Álvaro Morais, José de Sá Caetano, Solveig Nordlund, Jorge Silva Melo, João Mário Grilo e Alberto Seixas Santos.

Nos anos 50 e 60, dirigiu o Cineclube Imagem com José Fonseca e Costa, tendo sido ambos presos pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) e acusados de «actividades subversivas». Do Aljube seguiram para Caxias, onde Henrique Espírito Santo, que aí fica um ano e meio, encontra Vasco Granja, outro cineclubista. 

Os cárceres do fascismo não os atemorizam e Henrique Espírito Santo participa como director de produção nos primeiros projectos de Fonseca e Costa no cinema, nomeadamente na curta-metragem Regresso à Terra do Sol, realizada em Angola (1967), e na longa-metragem O Recado (1971).

Balada da Praia dos Cães (adaptação do romance de José Cardoso Pires) e Cinco Dias Cinco Noites (adaptação da novela de Manuel Tiago, pseudónimo de Álvaro Cunhal) foram outros filmes de José Fonseca e Costa que contaram com a colaboração de Henrique Espírito Santo.

O seu nome está associado também à produção de A Promessa, de António de Macedo, que entrou na selecção oficial do Festival de Cannes, em 1973; Jaime, de António Reis, pioneiro do documentarismo em Portugal; Benilde ou a Virgem Mãe e Amor de Perdição, de Manoel de Oliveira; e A Fuga, de Luís Filipe Rocha, inspirado na fuga de Dias Lourenço da prisão de Peniche, entre mais de duas dezenas de filmes, que remontam ao final dos anos de 1960.

Em 2014, Henrique Espírito Santo, militante do PCP, foi homenageado pela Academia Portuguesa de Cinema nos Prémios Sophia, onde recordou que os cineclubes «foram o grande movimento cultural de massas que muito incomodou a PIDE e o fascismo». 

O funeral realiza-se esta terça-feira, a partir das 11h, no crematório do Cemitério dos Olivais, em Lisboa.

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