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Turismo algarvio: sazonalidade, baixos salários e desemprego

Milhares de trabalhadores estão desempregados. Apesar do crescimento do turismo na região do Algarve e do aumento dos lucros, a precariedade e os baixos salários são a regra.

Na semana de combate à precariedade, também no Algarve os trabalhadores organizaram acções de contacto para chamar a atenção para o problema. O Sindicato de Hotelaria do Algarve (CGTP-IN) afirma ser esta «a região campeã nacional» do trabalho com vínculos precários, onde um em cada dois trabalhadores tem um contrato a termo. Especificamente no sector da hotelaria e restauração, a situação agrava-se e os trabalhadores com vínculos precários atingem os 60%.

No final do passado mês de Outubro, terminaram mais de dez mil contratos de trabalho no sector do turismo no Algarve. A realidade que marca o desenvolvimento deste sector na região é caracterizada pela sazonalidade, baixos salários, precariedade e desemprego. 

Os dados mais recentes revelaram que mais de quatro milhões de pessoas já passaram pela região até Setembro deste ano, o que representa uma subida de 8% face ao mesmo período do ano passado. Num quadro em que ano após ano têm crescido o número de turistas e os lucros, chega-se ao final de Outubro e são centenas os trabalhadores que estão diariamente nas filas dos centros de emprego de Faro, Portimão e Albufeira.

Na área onde a taxa de sazonalidade ascendeu aos 43,1% em 2018, a maior do País, são necessárias medidas que promovam a fixação de trabalhadores.

O sindicato acusa o Governo de, em vez de ter tomado medidas «para combater estes flagelos», os ter agravado com as recentes alterações à legislação laboral. Com o alargamento da duração dos contratos de curta duração de 15 para 35 dias e o alargamento do período experimental dos 90 para os 180 dias, «os patrões passaram a poder contratar um trabalhador em qualquer altura do ano e despedi-lo passados 179 dias sem qualquer justificação nem indemnização».

«Trabalho sete meses por ano»

O AbrilAbril contactou Célia Santos, trabalhadora de hotelaria, que falou da instabilidade em que vive devido à falta de condições de trabalho. «Desde 2012 que trabalho sete meses por ano e por isso não tenho uma vida estável», confessou, acrescentando que não tem condições para comprar uma casa e vive em casa dos pais. «A minha mãe trabalhou 30 anos nestas condições e eu vou pelo mesmo caminho», lembrou.

«Muitos trabalhadores não querem sindicalizar-se porque, vivendo nestas condições de precariedade, têm medo das retaliações», disse. Referiu ainda que muitas unidades hoteleiras recorrem a estagiários, que não são pagos, e a quem apenas garantem o alojamento. «Não lhes pagam nada mas trabalham tanto quanto nós», alertou.

Salário mínimo para alto ritmo de trabalho

Outra trabalhadora que ficou recentemente desempregada é Jéssica Macário, de 19 anos e que esteve empregada no INATEL durante cinco meses. «Vivo com os meus pais porque não consigo ser independente com o salário mínimo e a trabalhar apenas alguns meses por ano», disse, sublinhando que o ritmo de trabalho é muito intenso para o salário que recebe.

«Não há futuro com fim do contrato à vista»

Já Soraia Sousa, que vive em Quarteira, tem trabalhado sempre entre a restauração e a hotelaria, com contratos entre os seis meses e os dois anos. «A vida fica muito instável, nunca se pode projectar o futuro com o fim do contrato à vista», referiu, sublinhando que nos meses de Inverno é necessário arranjar emprego «onde houver», seja nas limpezas ou na restauração, às vezes com contratos ao dia. «A situação é generalizada», admite, frisando que «os empregos menos maus são aqueles em que, para além do salário-base, se recebe subsídio de alimentação ou de transporte».

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