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Governo orquestrou plano para furar greve dos precários de Setúbal

Num plano engendrado entre o Governo e a Operestiva, o piquete de greve no Porto de Setúbal foi quebrado pela PSP, de forma a permitir a passagem de dezenas de fura-greves para carregar o navio da Autoeuropa.

Corpo de Intervenção da PSP forçou retirada do piquete de greveCréditos
Corpo de Intervenção da PSP forçou retirada do piquete de greveCréditosCréditos

Junto ao porto de Setúbal está hoje montado um forte dispositivo policial, com mais de meia centena de elementos na Unidade Especial de Polícia e da brigada de intervenção rápida da PSP. A acção faz parte do plano do Governo e da Operestiva para permitir a entrada de pessoal e assim carregar um navio que deu entrada no Porto de Setúbal, apesar de tal ter sido omitido no registo.

Durante a manhã, os quase cem estivadores que permaneciam sentados no chão a bloquear a passagem do autocarro, sob vigilância atenta da PSP, foram retirados um a um pelos agentes. Os deputados Bruno Dias e José Soeiro, do PCP e BE, respectivamente, também foram retirados.

Esta quarta-feira, o Sindicato dos Estivadores e da Actividade Logística (SEAL) denunciou que estava prevista a chegada de um navio Ro-Ro para o Porto de Setúbal, às 6h. O navio foi classificado como sendo «fantasma», pois a chegada foi omitida pela Administração do Porto de Setúbal e Sesimbra (APSS).

Em seguimento, num comunicado de imprensa, a Autoeuropa afirmou ontem ter recebido a garantia do Governo e do operador logístico Operestiva de que hoje ia entrar um navio no Porto de Setúbal para carregar os automóveis.

Manobra orquestrada pelo Governo e Operestiva

Com a confirmação do envolvimento do Governo neste plano conjunto para furar a greve dos estivadores com vínculos precários, as acusações do SEAL relativas ao envolvimento do Ministério do Mar nas tentativas de coagir estivadores de outros portos nacionais (Lisboa e Aveiro) ficam, de igual forma, também confirmadas.

Em vez de promover uma solução para o conflito, o Governo esteve durante vários dias a planear em conjunto com as empresas portuárias, estando agora claro que esteve envolvido no plano para a trazer o navio Paglia, bem como na contratação de gente alheia ao Porto de Setúbal para carregar o navio.

Além disso, Governo também assegurou o reforço dos meios da PSP e a sua colocação à porta do terminal, a pretexto da questão da segurança, o que veio a ser fulcral para a retirada do piquete de greve e possibilitar a entrada daqueles que iam substituir os trabalhadores com vínculos precários.

Previamente, a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, afirmou que, apesar de considerar os portos nacionais como uma «peça fundamental» para a economia, o diferendo laboral no Porto de Setúbal «não é uma matéria» do Governo, mas dos operadores privados e dos trabalhadores.

Um «Dia Vergonhoso»

«Estamos aqui para assistir a este dia vergonhoso para a democracia portuguesa porque [é isto que acontece] quando um Governo se põe ao lado de criminosos – porque aquilo que estamos a denunciar é um crime que se vive um pouco por todo o País, de perseguição aos sócios do sindicato, discriminação salarial e tudo mais», afirmou à Lusa António Mariano, do SEAL.

«Temos a informação de que os trabalhadores que vêm substituir os eventuais do Porto de Setúbal vêm ganhar 500 euros para trabalhar três dias. Durante 20 anos nunca tiveram disponibilidade para fazer um contrato sem termo aos 150 trabalhadores eventuais do Porto de Setúbal [90 da Operestiva e os restantes da Setulsete]», acrescentou.

O dirigente sindical, que se juntou ao protesto dos trabalhadores eventuais do Porto de Setúbal, admite que o protesto dos trabalhadores portuários se poderá agudizar «face a este comportamento» das empresas portuárias, mas remete para mais tarde uma decisão sobre um eventual agravamento das formas de luta.

A este propósito, António Mariano afirmou ainda que, «com esta santa aliança entre patrões e o Governo, aquilo que vai acontecer hoje no porto de Setúbal é que este navio de transporte de automóveis vai trabalhar, mas vão ficar quatro ou cinco parados», manifestando-se ainda convicto de «que os trabalhadores podem perder esta batalha, mas que vão acabar por ser integrados no efectivo do Porto de Setúbal».


Com agência Lusa

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