Passar para o conteúdo principal

|Debate Quinzenal

Governo e direita insuflam polémicas para evitar falar da greve geral

O Governo parece estar a fugir ao embate político sobre a greve geral como o diabo foge da cruz. Para isso, o Executivo contou com a ajuda do Chega e Iniciativa Liberal para instrumentalizar determinados problemas reais.
 

Créditos José Sena Goulão / Lusa

O debate quinzenal começou com uma questão do Livre que, dada a ausência no apelo à greve geral, recorreu à mais recente encíclica papal para questionar o Governo sobre os nefastos impactos do pacote laboral. Face à tímida questão da co-porta-voz do partido de Rui Tavares, Isabel Mendes, o primeiro-ministro teve a palavra e, no tom jocoso que lhe é hábito, limitou-se a insistir na falaciosa narrativa dos benefícios da reforma laboral supostamente trará.

Na sua réplica, Inês Mendes voltou a insistir na palavra do Papa Leão XIV. De resto aproveitou o momento para invocar o combate aos incêndios, porta essa que era precisamente o que a direita pretendia para desviar o foco da luta dos trabalhadores.

Na sequência desta primeira interpelação, foi a vez do líder da bancada parlamentar do PSD, Hugo Soares, ter a palavra para reivindicar o seguimento da palavra do Papa, começando com os argumentos rasos que lhe são característicos, apelidando o Livre de «extrema-esquerda».

«Julgo que temos uma oposição que podiam ser personagens de uma banda desenhada». Foi com esta elegância que Hugo Soares quis atacar o Chega e o PS, numa ponte para uma metáfora de baixo nível. Mais uma vez, o parlamentar focou a sua intervenção na venda de imóveis abaixo do preço de mercado que, apesar de ser factual, para Soares é «falso», e sobre as declarações por parte do secretário de Estado norte-americano e a utilização da base das Lages, passando ainda pelo caos no aeroporto de Lisboa. Como não podia deixar de ser, o líder da bancada parlamentar dos «sociais-democratas», optou pelo vazio argumentativo e não abordou os reais problemas do país, com recurso ao que foi aprovado nos Conselhos de Ministros.

Para participar na fraca qualidade do debate democrático que veio da bancada do PSD, André Ventura não faltou à chamada e alinhou nas comparações com personagens de banda desenhada. Num momento de risos entre as bancadas da direita, enquanto o povo e os trabalhadores sofrem na pele o aumento do custo de vida, o Chega recorreu a um relatório da presidência para questionar o primeiro-ministro sobre a gestão da crise resultante da depressão Kristin.

Agradecendo o favor do suposto «líder da oposição», Luís Montenegro começou a elencar o conjunto de acções realizadas pelo Estado no apoio às empresas que foram afectadas pelas fortes tempestades que assolaram o país.

Numa segunda ronda, o líder do Chega, como não podia deixar de ser, ignorou mais uma vez a greve geral que irá acontecer exactamente daqui a uma semana e insistiu nas CCDRs e na sua resposta nos apoios às autarquias. Para manter a linha de ignorar a vida de todos os trabalhadores, numa intervenção direccionada para os holofotes da comunicação social, André Ventura foi ainda falar da mais recente polémica do SIRESP. O deputado de extrema-direita lembrou-se do pacote laboral quando tinha menos de 30 segundos para questionar Luís Montenegro, elencando os aspectos que considera negativos, mas que aprovaria caso descesse a idade da reforma. Importa frisar que a greve geral foi ignorada, reforçando a ideia que o Chega odeia a luta organizada dos trabalhadores.

Pelo PS, José Luís Carneiro focou a primeira parte do seu tempo para falar sobre o custo de vida, porém, colocou a tónica nos impostos. Numa intervenção focada na constatação do aumento da taxa de inflação, abordou a questão do aumento dos bens alimentares, os custos energéticos e rendas, o secretário-geral dos «socialistas» acabou por fazer uma pergunta sobre os impostos nos combustíveis.

Sabendo que, de facto, o Governo pouco ou nada fez relativamente ao aumento dos preços, o primeiro-ministro escudou-se na inacção do ex-governo do PS para justificar a sua inércia, e sobre os combustíveis disse que, «com sentido de responsabilidade», o actual Governo promoveu um desconto adicional. De resto, esta foi a tónica das supostas ajudas elencadas: descontos e apoios pontuais que não apagam a especulação de preços nem mitigam as dificuldades globais que são impostas às famílias.

Se José Luís Carneiro na sua intervenção inicial quis abordar o aumento do custo de vida, seria de esperar que na sua segunda intervenção pudesse ter algo a dizer relativamente ao momento que irá paralisar o país, no entanto não foi o que ocorreu. O secretário-geral do PS optou por focar-se no investimento nos CTeSP, mas para reclamá-lo para o seu partido.

Já sobre o sector da Saúde o líder dos «socialistas» invocou os números que traduzem o descalabro no SNS. Face a tal, Luís Montenegro refutou o «falhanço clamoroso», mais uma vez por comparação com o anterior governo, alegando que os números negativos são pontuais e puxou pela intensificação das USF modelo C que abrem a porta aos privados e são obra o PS para exemplificar que está a ser feita obra.

Neste momento era já evidente que a omissão de uma greve geral era um pacto silencioso na direita parlamentar e, neste sentido, a intervenção da Iniciativa Liberal insistiu na questão do SIRESP para não falar dos problemas reais do país. De resto, o partido criado pelas ideias oriundas dos think tanks neoliberais nada de relevante trouxe ao debate, algo que tem sido constante em debates quinzenais, como ficou evidente pelas preocupações que vieram a debate relativamente ao sistema starlink.

O combate ao pacote laboral chegou, por fim, através do PCP, num embate que opôs o secretário-geral dos comunista ao primeiro-ministro e que se traduziu num dos momentos altos do debate. Numa primeira intervenção, na qual elencou os problemas reais daqueles que «cá vivem e trabalha», Paulo Raimundo foi buscar a célebre frase de Luís Montenegro, que considera que «o país está melhor» para dizer que é natural que o primeiro-ministro tenha essa opinião quando vê a realidade a partir dos olhos das famílias mais ricas, como a Azevedo, Soares dos Santos ou Amorim.

Luís Montenegro, procurando ter uma réplica à altura, disse que é verdade que governa para essas famílias, mas também para a família Raimundo, elencando as migalhas que o seu Governo atribuiu às famílias trabalhadoras como se de um pão se tratassem. Foi neste seguimento que o comunista, aproveitando a deixa, disse que o Governo não governa nem para a família Raimundo nem para a esmagadora maioria das famílias porque essas não beneficiam das borlas fiscais que o 1% que detém 25% da riqueza do país beneficia.

Não perdendo o ritmo, Paulo Raimundo foi rapidamente ao pacote laboral e, num tom jocoso, porém combativo, disse que o PSD encontrou uma solução para resolver a precariedade: «generalizar a precariedade para todos». Aludindo à greve geral, o secretário-geral do PCP deixou claro que o que vai determinar a derrota do pacote laboral será a força dos trabalhadores, reiterando que estes não vão deixar que vingue uma alteração da legislação laboral digna do século XIX.

Pelo Bloco de Esquerda, Fabian Figueiredo seguiu uma deixa do PCP sobre a impaciência de Passos Coelho pela demora na destruição das Funções Sociais do Estado. O deputado único fez questão de desmentir o facto das ditas reformas estarem a demorar muito tempo quando o Governo, em vários sectores, está a dar cartas na criação de problemas. Relativamente ao pacote laboral, o bloquista apelidou-o de «zombie legislativo», reiterando que o povo português já o rejeitou. Mais uma vez, na senda do que foi trazido pelos comunista, o parlamentar do BE vincou a greve geral e os impactos que a mesma terá. 
 

Tópico

Contribui para uma boa ideia

Desde há vários anos, o AbrilAbril assume diariamente o seu compromisso com a verdade, a justiça social, a solidariedade e a paz.

O teu contributo vem reforçar o nosso projecto e consolidar a nossa presença.

Contribui aqui