Tenho uma bolsa de doutoramento da FCT e estudo Literaturas e Culturas Modernas na FCSH da Nova de Lisboa. Desde o mestrado, participo em congressos, eventos dedicados ao livro, à literatura e à cultura para diferentes organismos dos quais nunca fiz verdadeiramente parte. Tal como nestas áreas, na qual fui profissional ou falsa profissional, continuo a sentir uma certa angústia e incerteza a nível futuro, enquanto bolseira de investigação. Penso que este possa ser o cenário para várias pessoas destas áreas e que queiram seguir investigação e/ou docência na sua carreira.
De certa forma, passei de um estatuto precário a outro, e mesmo antes e durante o período de bolsa, deparei-me com vários problemas a nível de salários, condições laborais, ambientes tóxicos e abusivos e ainda condições de habitação deploráveis que impediam tanto o descanso e parte do trabalho. A precariedade na investigação e na cultura, separadas ou entrecruzadas, parece-me também um tema importante a ser falado neste contexto de (Des)Encontro da ciência.
«Ao terminar o doutoramento poderei ter que me sujeitar, praticamente às mesmas condições de antes, e neste caso, nem tendo direito a subsídio de desemprego após os três anos de investigação»
É com pena que noto a não valorização e não visibilidade dos bolseiros e investigadores desta área, muitas vezes, altamente qualificados, com funções e projetos importantes para o desenvolvimento tecnológico e científico do país ao qual me parece determinante e necessário relembrar o papel de reflexão crítica das ciências sociais, das humanidades e da memória cultural – sobretudo num debate sobre a sociedade e a ciência. Parece-me evidente o esquecimento e até uma certa marginalização da história e da produção científica associada a estas áreas que são tão necessárias na análise da própria produção de conhecimento e da sociedade.
Ao terminar o doutoramento poderei ter que me sujeitar, praticamente às mesmas condições de antes, e neste caso, nem tendo direito a subsídio de desemprego após os três anos de investigação, caindo no risco de ainda sujeitar-me a piores condições, dadas as condições socioeconómicas de hoje. É neste sentido, e tantos outros aqui falados, que apelamos à necessidade de contestação e exposição de desigualdades, promovidas por várias entidades e interesses que vão muito além do domínio científico e do dito «mérito», também de modo a permitir uma verdadeira e democrática integração e reconhecimentos destes perfis especializados, extremamente dedicados a uma ou mais áreas de conhecimentos.
Este texto foi lido no dia 9 de julho de 2025, na concentração «Em Defesa da Ciência Pública e pelo Fim da Precariedade na Ciência», realizada em frente à Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (NOVA SBE), em Carcavelos, onde decorreu o Encontro Ciência 2025.
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