Fui bolseira de doutoramento até há uns meses atrás quando entreguei a minha tese. Vou defender a minha tese em breve e neste momento encontro-me sem qualquer rendimento, e depois de anos como bolseira, não tenho direito a um subsídio de desemprego uma vez que não somos considerados trabalhadores.
O meu trabalho de doutoramento teve como tema a pesca do atum em Portugal e procurei explorar os desafios e oportunidades para as frotas que capturam atum e como trabalhar essas oportunidades. As espécies de atum que capturamos e as artes de pesca utilizadas são reconhecidas internacionalmente, mas muitos desafios existem no que diz respeito à gestão da pesca, e ao equilíbrio entre gestão e pessoas envolvidas na pesca. Fala-se muito da importância do mar para Portugal, mas muita dessa investigação é feita com trabalho precário.
O que é certo é que cheguei ao fim do doutoramento com resultados interessantes, com artigos publicados, com muitas ideias de investigação com aplicabilidade prática, mas o meu enquadramento profissional não existe.
«Fala-se muito da importância do mar para Portugal, mas muita dessa investigação é feita com trabalho precário.»
Confesso que cheguei ao fim de um doutoramento a questionar-me se valera a pena ter dedicado quatro anos para agora não ser «ninguém» aos olhos do Estado.
As perspectivas futuras são concorrer a projetos de investigação ou a um CEEC [Concurso Estímulo ao Emprego Científico], para continuar aquilo que comecei e desenvolvi nestes quatro anos e trabalhar com todos os contactos que fiz – associações de pescadores e de produtores, a indústria, outros investigadores. Esperar que também os orientadores possam abrir portas que, muitas vezes querendo, também eles não conseguem porque também eles são consequentemente desvalorizados pelo estado, pela instituição, pelos centros de investigação.
As perspectivas que surgem alimentam a paixão pela área de investigação, claro, mas adiam a sensação de que somos descartáveis. Continuarei (e continuaremos) a viver uma situação profissional precária sem garantias de estabilidade para investigar os desafios da ciência, porque estamos continuamente preocupados com vínculos, contratos e remuneração.
Estou aqui hoje, como vocês, para protestar e lutar contra a falta de financiamento, de contratos e de segurança laboral e exigir a revogação do EBI [Estatuto de Bolseiro de Investigação]!
Texto lido no dia 9 de Julho de 2025, na concentração «Em Defesa da Ciência Pública e pelo Fim da Precariedade na Ciência», realizada em frente à Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (NOVA SBE), em Carcavelos, onde decorreu o Encontro Ciência 2025.
O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)
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