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Coimbra: trabalhadores hospitalares contra más e perigosas condições de trabalho

Cerca de 200 trabalhadores do turno da manhã reuniram em plenário e dirigiram-se à administração hospitalar de Coimbra. Alertam para as más e perigosas condições de trabalho. Antes que seja tarde demais.

Na sexta-feira passada os trabalhadores do turno da manhã do Serviço de Utilização Comum dos Hospitais (SUCH) em Coimbra reuniram em plenário para discutir as penosas e por vezes perigosas condições em que realizam o seu trabalho.

Foram cerca de 200 os trabalhadores dos serviços de Alimentação, Bares e Lavandarias e Resíduos do Hospital da Universitário de Coimbra que se juntaram às 8h15 no parque de estacionamento que dá acesso ao serviço de alimentação do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (CHUC), segundo um comunicado recebido do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Centro (Sindicato de Hotelaria do Centro/CGTP-IN).

Na participada reunião foi aprovada uma moção expondo as deficientes condições de trabalho, que «colocam em risco a qualidade do serviço prestado aos utentes» e «a higiene e segurança no trabalho» daqueles que diariamente tudo fazem «para evitar a rotura na prestação dos serviço».

Na moção refere-se, nomeadamente, problemas sérios de falta de pessoal, deterioradas condições de espaço físico e de equipamentos e utensílios de trabalho, bem como uma política de remunerações em que os salários ficam congelados a partir de 618 euros, quando na função pública e demais trabalhadores equiparados, como os bombeiros, o salário mínimo foi estabelecido em 635 euros.

Multiplicam-se as situações anómalas

Os trabalhadores acusam a SUCH de não cumprir, do ponto de vista de números de empregados, o protocolo estabelecido com o centro hospitalar de Coimbra. Os trabalhadores em falta podem atingir «20% do protocolado», segundo disse ao AbrilAbril o presidente do Sindicato de Hotelaria do Centro, António Baião, o qual tem sérias dúvidas de que «o SUCH consiga monitorizar a situação de incumprimento».

Também não tem procedido à «substituição de trabalhadores em situação de férias e baixas médicas», obrigando a que se trabalhe «em condições pouco dignas de acumulação de serviços» e de «aumento de ritmos de trabalho», em prejuízo da «qualidade de prestação de serviço» aos hospitais e aos utentes. Além disso, alertam, «as relações de trabalho entre as chefias e trabalhadores vão-se deteriorando», visto ser incompatível proceder a uma boa «gestão de recursos humanos» em «total ausência de condições de trabalho».

Os equipamentos são antiquados e obsoletos. «Os trabalhadores têm medo de um acidente», afirmou-nos António Baião, acrescentando que, «há poucos dias, um grelhador rebentou, ferindo um trabalhador». Os carros de transporte da comida para os doentes «têm ferrugem, com riscos para a segurança alimentar», sendo duvidoso que passassem numa inspecção sanitária.

Delegação reuniu com a administração

Findo o plenário, os trabalhadores prosseguiram a acção de luta dirigindo-se às instalações do Conselho de Administração (CA) do CHUC, onde exigiram ser recebidos para entregar em mão a moção aprovada. Com esta «deslocação simbólica» – como se pode ler no texto do documento – os trabalhadores pretenderam «manifestar, ordeiramente mas de forma muito sentida», o seu «desagrado, protesto e indignação» pelas condições em que trabalham.

António Baião declarou-nos que, na presença dos trabalhadores, uma delegação de dirigentes e delegados sindicais foi recebida pelo presidente do CA, Dr. Fernando Regateiro, a quem foram expostas as diversas situações anómalas vividas nos serviços.

Os assuntos expostos suscitaram preocupação ao presidente do CA, o qual se comprometeu «em diligenciar junto do Conselho de Administração do SUCH, na qualidade de cliente, mas também de associado/accionista» daquela empresa, para que «sejam ultrapassados os problemas laborais».

Quanto às necessidades de intervenção nas instalações e sobre os equipamentos e utensílios degradados ou obsoletos, o presidente do CA assumiu ir tomar «medidas urgentes» mas que, admitiu aos representantes dos trabalhadores, não serão mais do que «cuidados paliativos» face à intervenção de fundo que reconhece como necessária mas para a qual não dispõe dos recursos financeiros correspondentes.

O CHUC, o SUCH e a gestão deste

O Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (CHUC) presta de cuidados de saúde num contexto de formação, ensino, investigação, conhecimento científico e inovação. É composto pelo Hospital Geral, Hospital Pediátrico, Maternidade Daniel de Matos, Maternidade Bissaya Barreto e Hospital Sobral Cid.

O Serviço de Utilização Comum dos Hospitais (SUCH) é uma associação privada, sem fins lucrativos e de utilidade pública, que tem como missão realizar actividades de interesse público de prestação de serviços comuns aos hospitais nas áreas instrumentais à actividade da prestação de cuidados de saúde. Compreende 3250 trabalhadores a nível nacional, cerca de 400 dos quais prestam serviço nas unidades hospitalares de Coimbra.

O Governo colocou o SUCH no âmbito do Orçamento geral do Estado e na dependência directa do Ministério das Finanças depois de, segundo António Baião, «uma anterior administração ter aumentado principescamente os próprios salários», numa gestão contestada também pelos trabalhadores.

Uma nova e mais controlada gestão permitiu apresentar lucros já em 2018 (cerca de um milhão de euros). No entanto, para o sindicalista, a má gestão do passado não pode servir de desculpa para subfinanciar o SUCH e impedi-lo de cumprir a sua importante missão, colocando em risco a vida dos trabalhadores e dos doentes.

Por esse motivo os trabalhadores do SUCH de Coimbra vão associar-se à Greve Nacional de 29 de Julho nas cantinas hospitalares, concentrando-se às 8h à porta do Hospital Geral da Universidade de Coimbra.

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