Passar para o conteúdo principal

|Ciência

Abuso na universidade: uma luta diária dos doutorandos

Na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT NOVA), mais de 50% dos estudantes de doutoramento recorrem a um psicólogo em algum momento do seu percurso, e isto está frequentemente ligado a problemas com a supervisão.

Créditos Joana Rodrigues / SPGL

Sou estudante de doutoramento no terceiro ano na FCT NOVA e hoje gostaria de falar sobre o abuso existente na relação entre estudantes de doutoramento e supervisores. Para dar algum contexto: na FCT NOVA, mais de 50% dos estudantes de doutoramento recorrem a um psicólogo em algum momento do seu percurso, e isto está frequentemente ligado a problemas com a supervisão. Há apenas alguns dias, um professor da NOVA-FCT foi acusado de vários tipos de assédio a estudantes.

Existem muitas formas de abuso, nomeadamente:
– Coacção para coautoria em troca de acesso aos instrumentos do laboratório, envolvendo até antigos ministros;
– Acesso limitado ao financiamento de projetos, com supervisores a não fornecerem as condições adequadas para a realização do doutoramento;
– Supervisores ausentes, por vezes responsáveis por mais de 10 estudantes, com conhecimento da universidade e da fundação;
– Falta de limites entre a vida pessoal e profissional; chamadas, mensagens e emails fora do horário de trabalho;
– Pressão para trabalhar em excesso, quer fora do horário, quer em tarefas não relacionadas com o doutoramento.

« Os doutorandos são trabalhadores, e o doutoramento não deve ser uma prova de sobrevivência.»

Porque é tão difícil falar? Porque tudo depende do supervisor: a bolsa, o salário, as publicações, até a assinatura necessária para submeter a tese. Apresentar uma queixa pode colocar em risco a nossa carreira e a nossa já limitada estabilidade financeira.

Por isso, apelamos a mudanças concretas:
– Um mecanismo independente para denunciar abusos;
– Maior controlo por parte da Fundação sobre a distribuição de fundos e o papel dos supervisores;
– Limitação do número de estudantes por professor ou laboratório.

E, acima de tudo, o reconhecimento dos estudantes de doutoramento como investigadores de pleno direito. Os doutorandos são trabalhadores, e o doutoramento não deve ser uma prova de sobrevivência.

Este texto foi lido no dia 9 de julho de 2025, na concentração «Em Defesa da Ciência Pública e pelo Fim da Precariedade na Ciência», realizada em frente à Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (NOVA SBE), em Carcavelos, onde decorreu o Encontro Ciência 2025.

Tópico

Contribui para uma boa ideia

Desde há vários anos, o AbrilAbril assume diariamente o seu compromisso com a verdade, a justiça social, a solidariedade e a paz.

O teu contributo vem reforçar o nosso projecto e consolidar a nossa presença.

Contribui aqui