Foram mais de 7600 os presos políticos, homens e mulheres, que entre 1936 e 1974 passaram pela sede da PIDE no Heroísmo. «Também foram protagonistas de várias fugas, bem-sucedidas, apesar do risco, para, em Liberdade, continuarem a luta pela justiça social, a democracia e a paz, pelo país que amavam, a cujo povo pertenciam e queriam livre e feliz», lê-se no apelo da União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) à participação na marcha, subscrito por cerca de 300 pessoas.
No último sábado, cerca de 800 centenas marcharam até ao local para exigir que o espaço, hoje ocupado pelo Museu Militar, seja finalmente transformado no Museu da Resistência Antifascista do Porto.
«É chegado o momento de fazer ouvir publicamente a voz de quem não desiste de respeitar e preservar a memória dos que lutaram e arriscaram a vida contra o regime fascista», refere o apelo subscrito por figuras como o arquitecto Álvaro Siza Vieira, os artista plásticos Agostinho Santos e Miguel Januário, o professor e investigador Manuel Loff, a escritora Manuela Espírito Santo, o jornalista Miguel Carvalho, a cineasta Raquel Freire, os capitães de Abril Abel Almeida Tavares e José Adelino Carneiro, antigos presos políticos e seus familiares, entre muitos outros.
Apesar de resoluções da Assembleia da República e de um protocolo com o Exército, em vigor desde 2015, a promessa continua por cumprir. «Mas o povo não esquece», alerta a URAP, frisando que tanto ela como «outras vozes imbuídas do mesmo espírito, não desistiram desse desígnio». A estrutura lembra que, em 26 de Setembro de 2025, foi aprovada uma resolução no Parlamento, com votos contra de CDS-PP e Chega, que recomenda ao Governo a deslocalização do Museu Militar e a instalação do Museu da Resistência no edifício do Heroísmo, entre outras reivindicações, como a criação de uma rede nacional de museus da resistência.
Lamenta, porém, que, apesar das diligências efectuadas, «não nos foi, até hoje, informado que acções foram ou estão a ser promovidas, para cumprimento desta Resolução».
Projecto museológico travado há uma década
A luta pela criação do museu não é nova. Em 2015, a URAP apresentou à hierarquia militar e à Assembleia da República o projecto museológico «Do Heroísmo à Firmeza – Percursos da Memória na Casa da PIDE no Porto (36/74)», da autoria do arquitecto e investigador da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP), Mário Mesquita.
A 2 de Julho desse ano, o plenário da Assembleia da República acolheu a proposta e recomendou ao Governo que apoiasse a sua implementação. A 1 de Setembro de 2015, foi assinado um protocolo entre o Exército Português e a URAP, que ainda hoje vigora, e que responsabiliza a associação pela manutenção do espaço onde funcionavam as salas de interrogatório, tortura e celas.
Mas, «sem apoio material do Estado», denuncia a URAP, tem sido através de «contributos individuais e de instituições como a Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação Eng.º António de Almeida e Fundação Oriente e outros, a quem temos recorrido, sempre em situação precária, que temos respondido a algumas das necessidades que a implementação suscita».
«Nem outro destino deveria ter»
A URAP recorda que, imediatamente após o 25 de Abril de 1974, e sobretudo a 26 de Abril, quando foram abertas as prisões e libertados os presos políticos, «exigiu-se que este edifício fosse reservado à memória da luta e resistência antifascista, como testemunho a preservar junto das novas gerações. Nem outro destino deveria ter, acreditava-se».
No entanto, os responsáveis políticos não cumpriram essa exigência. O edifício ficou sob tutela do Ministério da Defesa, que decidiu requalificar o espaço e instalar ali o Museu Militar, inaugurado em 1980. Em consequência, critica a URAP, foi demolido um dos edifícios prisão e estruturas de apoio, «ficando a memória decapitada de importantes referências materiais».
A URAP, que cumpre 50 anos no próximo dia 30 de Abril, tem desenvolvido, através do seu Núcleo do Porto, uma intensa acção de recuperação do edifício do Heroísmo. «Desde a homenagem que prestamos aos resistentes, junto ao edifício, em todos os aniversários da Revolução, às visitas guiadas que promovemos, a iniciativas de outro tipo (cinema de contexto, sessões comemorativas, recolha de depoimentos de antigos presos e suas famílias), tudo tem sido feito, apesar das dificuldades encontradas em muitos momentos», refere.
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