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«O Velho Salazar» de João Botelho estreia-se no IndieLisboa

Numa altura em que «os ignorantes são arrogantes e chegam ao poder e mandam», o realizador quis fazer um filme sobre «o velho Salazar», que estreia esta quinta-feira no festival de cinema IndieLisboa.

CréditosAntónio Cotrim / Agência Lusa

«Estamos a viver momentos perigosos e apeteceu-me dar uma aula. Não é nem um documentário nem é ficção, é cinema. Peguei em actores, peguei em textos» que ajudam a traçar um perfil mais íntimo de António de Oliveira Salazar, disse João Botelho à agência Lusa, a propósito de O Velho Salazar.

No filme, João Botelho conjuga fotografias, áudios, imagens de arquivo e encena curtos depoimentos de figuras muito próximas do ditador – o médico, o calista, o conselheiro, a governanta. Esses depoimentos são representados, por exemplo, pela actriz Maria Rueff enquanto Maria de Jesus, a governanta de Salazar, o actor Dinarte Branco no papel do cardeal Manuel Cerejeira, ou o actor Hugo Mestre Amaro a interpretar o director do Serviço de Propaganda Nacional António Ferro.

João Botelho avisa que todos os textos ditos no filme são verdadeiros, retirados da pesquisa e de livros que são mostrados no início do filme, que arranca com uma fotografia de arquivo, na qual António de Oliveira Salazar está sentado na relva, encostado a uma árvore e de pernas esticadas, desvendando um buraco na sola de um sapato.

«É um ser mesquinho que mandou neste pobre país durante 50 anos. As pessoas esquecem-se do sofrimento que havia. […] É mostrar o que está por detrás daquela máscara hedionda e mesquinha», sublinhou João Botelho, que nasceu em Lamego em 1949.

O Velho Salazar, com produção da Ar de Filmes, estreia-se no festival IndieLisboa na quinta-feira e deverá chegar aos cinemas depois do Verão. João Botelho quer que o filme seja exibido em conjunto com o documentário O Jovem Cunhal, que fez em 2022 sobre Álvaro Cunhal, histórico dirigente do Partido Comunista Português.

Sobre O Velho Salazar, que termina com imagens de arquivo do funeral do político, às quais sobrepôs a canção Coro da Primavera, de José Afonso, João Botelho disse que é apenas cinema feito «a pensar nos jovens, que se esqueceram de tudo».

Dinis Gomes, Catarina Wallenstein, Cláudio da Silva, João Pedro Vaz e Fernando Cabral Martins são outros protagonistas deste filme.

Enquanto O Velho Salazar chega ao cinema, coincidindo com o centenário da revolução militar de 1926 que conduziu à ditadura, João Botelho acabou de filmar uma adaptação de Rei Lear, de William Shakespeare, com tradução de Álvaro Cunhal.

Esta mesma tradução da peça acaba de ser encenada por António Pires para o Teatro do Bairro, em Lisboa, e será reposta em julho no Casino Lisboa. O filme de João Botelho foi rodado com os mesmos actores da peça, com Adriano Luz, Carolina Campanela, Cláudio da Silva ou Crista Alfaiate, entre outros.

«É um texto magnífico, actual, sobre as más escolhas», resumiu João Botelho.

A 23.º Festival Internacional de Cinema IndieLisboa decorrerá de 30 de Abril a 10 de Maio em várias salas da capital.


Com agência Lusa

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