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Mais de 300 músicos portugueses apoiam boicote à Eurovisão devido a Israel

Artistas portugueses, como Jorge Palma, Mayra Andrade ou The Legendary Tigerman, e internacionais, como Sigur Rós ou Brian Eno, estão entre os mais de mil subscritores de uma carta de apoio ao boicote à Eurovisão. 

Na carta aberta, divulgada esta-terça-feira pela organização «No Music for Genocide», a que o AbrilAbril teve acesso, os signatários, onde se incluem os antigos vencedores da Eurovisão Emmelie de Forest (Dinamarca, 2013) e Charlie McGettigan (Irlanda, 1994), afirmam que o concurso irá servir «para encobrir e normalizar o genocídio, o cerco e a ocupação militar brutal de Israel contra os palestinianos».

Entre os subscritores estão vários ex-participantes portugueses da Eurovisão – Cláudia Pascoal (2018), Iolanda (2024), Carlos Mendes (1968 e 1972), Ella Nor (Leonor Andrade, 2015), Vasco Duarte (2011) ou Beatriz Pessoa (2022, como coralista da concorrente Maro). À lista junta-se ainda Elisa, vencedora do Festival de Canção em 2020, que não participou na Eurovisão devido à situação pandémica de Covid-19 à data, que levou a que o festival fosse cancelado.

Recorde-se que, já no ano passado, dezenas de antigos participantes – incluindo os portugueses Salvador Sobral, Tatanka, Mimicat, António Calvário, Fernando Tordo ou Paulo de Carvalho, entre outros – haviam assinado uma carta aberta onde se opunham à participação de Israel no festival organizado anualmente pela União Europeia de Radiodifusão (EBU na sigla em inglês). Desde então, a contestação tem crescido, levando mesmo NEMO, vencedores da edição de 2024, a devolverem o troféu.

Mayra Andrade e Stereossauro, que actuaram na edição de 2018 da Eurovisão, em Lisboa, Luís Figueiredo, arranjador da canção Amar Pelos Dois, com a qual Salvador Sobral venceu o festival, Júlio Resende, Melo D e Ruca Rebordão são outros dos nomes que fazem dos músicos portugueses os mais numerosos neste apelo. A lista inclui ainda bandas como Linda Martini, Pop Dell’Arte, Vaiapraia ou Sensible Soccers e nomes de artistas emergentes, como Calcutá, Femme Falafel, Passo Real ou Sebastião Varela (Expresso Transatlântico).

O Comité de Solidariedade com a Palestina recorda num comunicado que, na sequência da 95.ª Assembleia-Geral da EBU, realizada em Genebra em Dezembro passado – onde a RTP e os restantes membros viram negada a possibilidade de votarem sobre a suspensão da emissora pública israelita KAN –, cinco emissoras europeias retiraram-se do Festival da Eurovisão.

«Aplaudimos a decisão das emissoras espanhola, irlandesa, islandesa, eslovena e holandesa de se retirarem, bem como dos muitos finalistas dos festivais nacionais que se comprometeram a recusar participar na Eurovisão. Tal como quando artistas se levantaram contra a opressão na África do Sul, também agora estamos unidos», afirmam os subscritores, fazendo alusão a casos como o do Festival da Canção, onde 13 dos 16 artistas em competição na edição deste ano assumiram uma posição prévia de boicote à Eurovisão em caso de vitória no festival português.

Após a Assembleia-Geral, a imprensa israelita revelou que o presidente israelita Isaac Herzog tinha lançado «uma campanha diplomática intensiva, que se prolongou por meses e decorreu em grande parte nos bastidores», pressionando as emissoras europeias para que apoiassem a inclusão de Israel. Em resposta a esta notícia, José Pablo López, presidente da emissora espanhola RTVE, afirmou: «Israel manobrou nas sombras durante meses. O que parecia ser um debate democrático em Genebra foi apenas uma farsa orquestrada nos bastidores… O governo de Israel continuará a usar o festival como bem entender.»

Os artistas, entre os quais Ólafur Arnalds, Ana Bacalhau (Deolinda), Peter Gabriel, João San Payo (Peste & Sida) e José Peixoto (ex-Madredeus), salientaram que Herzog é «citado, por incitamento ao genocídio, na queixa apresentada pela África do Sul ao Tribunal Internacional de Justiça». Também a Associação Internacional de Estudiosos do Crime de Genocídio afirmou que Israel cometeu um genocídio contra os palestinianos em Gaza, tal como afirmaram importantes organizações de direitos humanos, incluindo a Amnistia Internacional.

Os músicos, incluindo Henka, Rita Onofre, Miguel Pedro (Mão Morta) e Filipe Sambado, afirmam: «No entanto, mais de 30 meses de genocídio em Gaza – a par da limpeza étnica e da apropriação de terras na Cisjordânia ocupada – não são considerados suficientes para que as mesmas medidas se apliquem a Israel.»

A carta, cujos signatários incluem ainda Ana Deus, Inês Monstro, Bernardo Barata (ex-Diabo na Cruz), Sérgio Crestana (ex-Moonspell), Scuru Fitchádu, Selma Uamusse, Xullaji e Pedro Melo Alves (Memória De Peixe), acrescenta: «Há momentos em que o silêncio passivo não é uma opção. Recusamo-nos a ficar em silêncio quando a violência genocida de Israel abafa e silencia as vidas palestinianas.»

O Comité de Solidariedade com a Palestina salienta que «a adesão significativa de músicos portugueses a este apelo mostra, uma vez mais, que o apoio a esta causa não é circunstancial, mas crescente, sustentado e transversal a todo o meio musical nacional. É incompreensível e inaceitável que a RTP continue a associar os seus trabalhadores e a música portuguesa ao branqueamento de crimes contra a humanidade.»

Entre os signatários estão também os internacionais Black Country New Road, Brendan Perry (dos Dead Can Dance), Brian Eno, Chester Hansen (BADBADNOTGOOD), Dry Cleaning, Erika de Casier, Gus Gus, Henka, Hot Chip, IDLES, Julia Rigby, Kneecap, Macklemore, Massive Attack, Mogwai, Of Monsters And Men, Peter Gabriel, Primal Scream e Sigur Rós.

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