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Morreu José Luís Tinoco, o «arquitecto de canções»

O compositor, artista plástico e arquitecto José Luís Tinoco, criador de canções como No teu poema, Um homem na cidadeMadrugada e O amarelo da Carris, morreu na noite de quarta-feira, em Lisboa.

Créditos / RTP

Pianista, criador de canções, José Luís Tinoco foi também o músico de jazz que fez parte das primeiras formações do Hot Clube de Portugal, o poeta que publicou Perseguição dos dias, o compositor que Bernardo Sassetti, João Paulo Esteves da Silva, Mário Laginha, Ivan Lins, Carlos do Carmo abordaram vezes sem conta, e cuja música detém «a qualidade dos grandes standards», como reconhecem os seus intérpretes, num nível equiparável a Cole Porter ou Tom Jobim.

A sua marca, porém, não se limita à música. Estende-se à arquitectura, à ilustração, ao cartoon, à foto-animação, aos figurinos e cenários para teatro, ópera e bailado, ao design e às artes gráficas.

Concebeu mobiliário, espaços interiores, desenhou capas para livros de autores como Alfred Jarry e José Rodrigues Miguéis, assinou emissões filatélicas dos CTT. Na década de 1980, lançou as bases para o Levantamento da Arte Portuguesa Contemporânea, que dirigiu para a então Secretaria de Estado da Cultura.

José Luís Tinoco é também o arquitecto do plano de urbanização do Bairro do Rego, em Lisboa, nunca foi concretizado; o arquitecto da escola do Porto, com o curso concluído na capital, quase de imediato nomeado para o Prémio Valmor pelos traços contemporâneos de uma moradia no Restelo, num concurso que acabou cancelado muito antes de Abril.

O artista multifacetado que evitava «o fácil»

José Luís Tinoco nasceu em Leiria, em 27 de Dezembro de 1932, num meio cultural privilegiado, como reconhecia, raro para a época. O pai era reitor do liceu, director do Círculo de Cultura Musical e do Museu da Cidade; a mãe, Maria Carlota Tinoco, pianista, pedagoga, concertista.

Em 1948, partiu para o Porto, para fazer Arquitectura na Escola Superior de Belas Artes. Mas a música esteve sempre presente. Estreou-se na rádio em 1951, fez incursões a Coimbra para tocar com a Orquestra Académica, esteve no conjunto do músico alemão Heinz Wörner, que na altura marcava a cena jazzística portuguesa.

Na capital, a arquitectura corria a par do Hot Clube, onde José Luís Tinoco era presença assídua. Aqui tocava piano e contrabaixo, aqui entrou no primeiro grupo do saxofonista Jean-Pierre Gebler, aqui tocou regularmente com António Barros Veloso e Bernardo Moreira (pai). E aqui encontrou material para muitas das caricaturas que dizia serem «nitidamente tocadas» pelo traço do britânico Ronald Searle, que marcou publicações como a revista The New Yorker e a britânica Punch.

Na altura, «a arquitectura era vivida com paixão, a música e a pintura, também», como disse ao JL. Mas, pouco a pouco, a pintura e a música ganharam terreno.

Em finais da década de 1960, a presença de José Luís Tinoco no Festival RTP da Canção fez diferença, com canções como Adolescente, com letra de Yvette Centeno, e Cidade alheia, com Pedro Tamen. 

«Decidi [participar no festival] um tanto porque me divertia, mas também com a intenção de ver até onde a linguagem do jazz poderia inserir-se na canção portuguesa e enriquecê-la do ponto de vista harmónico e melódico», disse na entrevista ao JL.

As suas canções traziam sempre algo «essencial, deveras elegante e único», distanciado dos modelos mais convencionais da época, como a crítica acentuou. Em 1975, venceu o certame com Madrugada, por escolha dos próprios concorrentes, uma canção para a qual escreveu letra e música, numa referência à queda da ditadura, interpretada por um capitão de Abril, Duarte Mendes.

Do ano seguinte ficou No Teu Poema, também com letra do compositor. Não passou do terceiro lugar, mas poucas canções se mantiveram tão presentes, ao longo dos anos, na música portuguesa. Dos seus muitos clássicos, há também Um homem na cidade e O amarelo da Carrisambas com letra de José Carlos Ary dos Santos, a última criada num «serão memorável», lembrou anos mais tarde Luís Tinoco.

O trabalho de escritor de canções, no entanto, era apenas uma pequena parte, comparado com o que fez no jazz e com o que arriscou na música para teatro e cinema.

Em 1976, editou o álbum «Homo Sapiens», com o qual tentou construir um repertório que se afastasse da canção convencional. «Tinha um conjunto de temas compostos para um disco de jazz-rock que recuperei, juntei-lhe outros, criados de base, formando um todo temático», recordou ao JL.

Seguiu-se a versão musical de O que diz Molero, de Dinis Machado, em parceria com Fernando Girão e Pedro Luís, destinada à banda sonora de um filme nunca produzido, do qual também assinou o argumento. Compôs para a curta-metragem de Sinde Filipe, A cama, e para a longa-metragem de Luís Galvão Teles, A vida é bela.

Em 2008, com «Arquipélago», aprofundou o idioma de jazz, com músicos como Mário Laginha, Bernardo Sassetti e João Paulo Esteves da Silva.

Na pintura, se o seu trabalho inicial, nos anos 1960-1970, acusava a tendência neorrealista, «com o 'tempero' de Marcel Grommaire, Modigliani e dos desenhos aguarelados de Henry Moore», como afirmava, pouco a pouco, «a subsequente e progressiva fragmentação da figura humana havia de dar lugar à abstracção, embora perseguisse situações de síntese entre as duas atitudes».

Em 1986, expôs na Fundação Calouste Gulbenkian, numa retrospectiva do que chamava período abstracto, que teria continuidade nas séries «Jardins e Passagens». No final dos anos 1990, regressou à figuração.

«Ao retomar a figura humana tive de a reaprender de forma diversa, completamente dissociada do ponto em que a abandonara antes. É um tipo de figuração a que não é alheia uma posição crítica em relação aos comportamentos – numa abordagem metafórica da violência, da arbitrariedade, do absurdo – e da própria vulnerabilidade do homem», disse ao JL.

Nesta fase da sua obra pictórica, tudo radica no quotidiano, na banalidade de um instante, nas múltiplas perspetivas que permite, fixando-se em personagens a que chamava «performers», «intérpretes, passivos ou activos de um desempenho imposto, aceite ou deliberado».

Surgiram assim as séries «Crucifixões» ou «Descida da Cruz», que levou à retrospectiva no Palácio Galveias, em Lisboa, em 1998. Sucederam-se «Figurações», na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), em Lisboa, em 2003, e outras mostras mais recentes como «As idades do corpo», no Centro Cultural de Cascais, em 2013, «Loop», retrospectiva no Pavilhão Preto do Museu da Cidade de Lisboa, em 2016, «Os ateliers», em 2018, em Leiria, e os «Desenhos Inéditos», na SNBA, em 2024.

Em 2014, José Luís Tinoco recebeu o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores, e o Teatro S. Luiz, em Lisboa, abriu a temporada com o espectáculo de homenagem Os lados do mar – José Luís Tinoco, dirigido por Laurent Filipe, com a participação de músicos como Carlos do Carmo, Carminho, Camané, André Sarbib e Pedro Jóia.

Em 2021, a RTP estreou o documentário Vida e obra de José Luís Tinoco, de Laurent Filipe, disponível na plataforma RTP Play, que atravessa as diferentes expressões da sua obra.

«Evito o fácil», dizia sempre José Luís Tinoco. «Não cedo só porque é bonito», garantia. Na música, na pintura, na arquitectura, na vida toda.

Com agência Lusa

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