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Teatro da Comuna põe em palco «As Cadeiras» de Ionesco

A farsa trágica As Cadeiras, de Eugène Ionesco, texto que, segundo o encenador João Mota, é um «retrato fiel» dos tempos que se vivem a nível mundial, estão em cena na Sala Nova d'A Comuna, até 31 de Maio.

CréditosManuel Rodrigues Levita / CML

O fundador do Teatro da Comuna lembrou, em declarações à Lusa, que a peça foi escrita «em 1951, no pós II Grande Guerra, tendo sido um fracasso quando foi representada em Paris e em Londres, numa altura em que a Europa se encontrava em reconstrução material, ideológica e humana».

«Ora, hoje estamos numa crise bastante grande, numa crise mundial, não só no Médio Oriente, também noutros países com guerras em que a crise acaba por ser mundial, e é uma crise em que temos angústias, medos», frisou João Mota, equiparando a actualidade aos tempos que se viviam quando o texto foi escrito.

Para o encenador, vivemos um momento «terrível», com «os bens cada vez mais caros e sem sabemos para onde vai esta juventude». João Mota sublinha o caso de Gaza, numa «Palestina arrasada», questionando-se «como é possível» que tal aconteça.

«Estamos numa altura difícil» como já «não estávamos há muitos anos». «A verdade é que não é um pós-guerra. Estamos nela [na guerra] e não sabemos como», enfatiza. Para mais, reforça o encenador, «vivemos num mundo de grande mentira», em que os jovens sofrem cada vez mais em solidão.

«Os jovens deixaram de falar uns com os outros. Ou jogam ou falam através da máquina e cada vez estão mais sós e a solidão é a pior coisa que há para a depressão e para a angústia», sustenta João Mota.

O encenador recorda que o texto do dramaturgo franco-romeno, mestre do «teatro do absurdo», retrata ainda a memória dos velhos quando estes eram jovens.

Um velho e uma velha isolados numa ilha são as personagens centrais de As Cadeiras, que se estreou esta quinta-feira, em Lisboa. Um orador faz ainda parte da peça, numa sala cheia de cadeiras onde está a ser preparada uma conferência na qual o orador transmitirá uma mensagem à humanidade.

Entre memórias divididas, delírios de grandeza e um amor tão terno quanto absurdo, o casal aguarda a chegada de um orador profissional que irá finalmente transmitir a verdade que o velho nunca conseguiu dizer.

A peça As Cadeiras é a 166.ª produção de A Comuna e tem encenação e versão cénica de João Mota, que também assina os figurinos.

Com tradução de Luís Lima, a interpretar estão Custódia Gallego e Manuel Coelho, com a personagem de orador a ser interpretada por João Mota e por Carlos Paulo, em alternância.

Com desenho de luz de Paulo Graça, ambiente sonoro e sonoplastia de Hugo Franco, e Rogério Vale como operador de luz e som, As Cadeiras estão em cena na Sala Nova de A Comuna, até 31 de Maio, com récitas à quarta e quinta-feira, às 19h, à sexta-feira e ao sábado, às 21h, e, ao domingo, às 16h.

Com agência Lusa

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