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Governo cada vez mais «forte com os fracos e fraco com os poderosos»

Em mais um debate quinzenal, Luís Montenegro fez um conjunto de anúncios. Governo vai subsidiar grandes grupos económicos indiretamente sob um alegado combate ao aumento do custo de vida e, a mando dos patrões, insiste num pacote laboral que foi rejeitado na greve geral.

CréditosAntónio Pedro Santos / Agência Lusa

O Parlamento recebeu mais um debate quinzenal e o resultado não divergiu dos restantes. O Governo insistiu numa realidade alternativa e a direita, convergente com os interesses deste, encenou divergências. 

Luís Montenegro decidiu abrir o debate com dois elementos chave: o aumento do preço dos combustíveis e o pacote laboral. Em ambos os casos, o primeiro-ministro optou pelo lado das grandes empresas, porém, de formas diferentes. Se no último debate foi anunciado um desconto no ISP, desta vez o Governo vai aumentar a comparticipação para 25 euros das botijas de gás solidárias e introduzir um desconto adicional no gasóleo profissional. Assim, a margem das gasolineiras ficará intacta e continuará a ser garantida toda espaço de manobra para a especulação. 

Já sobre o pacote laboral, Luís Montenegro, antecipando-se às críticas da esquerda, procurou, mais uma vez, doirar a reforma em curso e o processo negocial em torno da mesma. Evitando dizer que o seu o seu Executivo exclui propositadamente a CGTP-IN das negociações, Luís Montenegro afirmou que já há «oito meses de diálogo social», «50 reuniões de negociação» e «76 normas consensualizadas, das quais 28 são da iniciativa dos sindicatos».

Com o decorrer do debate, a cumplicidade da direita nas opções de fundo ficou mais evidente com André Ventura a culpar a taxa de carbono pelo aumento dos combustíveis, alegando que são somente os impostos as razões pelo escalar dos preços. Naturalmente, o presidente do Chega não quis dizer que a Galp registou um resultado líquido ajustado recorde de 1154 milhões de euros em 2025 e a Repsol um lucro líquido de 603 milhões de euros.

Apesar deste apontamento, André Ventura procurou dar maior expressão às nomeações para o Tribunal Constitucional e restantes estruturas estatais, reclamando para o Chega uma fatia do aparelho de Estado, uma opção estranha num momento em que uma parte dos seus vereadores eleitos estão a desfiliar-se do seu partido e Mafalda Livermore foi exonerada da Câmara Municipal de Lisboa após um escadalo com imigração ilegal e habilitações académicas faldas. 

No campo da direita apareceu ainda Mariana Leitão, da Iniciativa Liberal, a procurar puxar o Chega para o seu lado, numa disputa para ver quem é que é mais radical. Funcionando como porta-voz do Executivo, a líder dos liberais implorou ao Governo para que este traga o pacote laboral à Assembleia da República mesmo que haja acordo na concertação social. 

À esquerda, pelo PS, José Luís Carneiro considerou «muito negativo que uma das centrais sindicais tenha sido recebida pelo chefe de gabinete da senhora ministra», referindo-se à CGTP-IN. Em resposta, Luís Montenegro disse querer perceber melhor uma alegada aproximação do PS à CGTP. 

Apagando a responsabilidade histórica do seu partido em matéria de insegurança laboral, o secretário-geral do PS disse ainda: « Nunca aceitaremos a precariedade dos mais jovens, a incompatibilidade da vida profisisonal e pessoal e se desprotejam os mais vulneráveis da sociedade». Para o primeiro-ministro o que está em causa é competitividade, escapando assim ao embate. 

Pelo Livre, Rui Tavares aproveitou o momento para se centrar na intervenção do Chega sobre o Tribunal Constitucional. Já sobre o aumento do custo de vida, no quadro do seu posicionamento internacional, optou por atribuir o fenómeno a «Putin» e «Trump», sem nunca colocar o papel da NATO e União Europeia em causa. 

O debate sobre o pacote laboral chegou no momento do secretário-geral do PCP ter a palavra. Paulo Raimundo acusou o Governo de «ser forte com os fracos e fraco com os poderosos» e «decidir com quem se fala e quem se exclui» mediante os seus interesses, reiterando que tal «não é sinal de coragem, é cobardia». 

Apontando à convergência entre PSD, CDS, Chega e Iniciativa Liberal nos impactos nefastos do pacote laboral, considerando que para tal «não é preciso coragem», mas sim «uma grande dose de vassalagem ao grande patronato», Paulo Raimundo apelou ao Governo para que este deixe de negociatas com a extrema-direita e abandone a reforma laboral. «Está consciente que os trabalhadores vão responder mais uma vez e as vezes que forem necessárias para derrotar os vosso objectivos?», questionou.

Em resposta, Luís Montenegro disse não fugir ao embate com a CGTP-IN, mas que não alinha em jogos de «cinismo». Visivelmente desagradado, até porque toca na questão central, o primeiro-ministro quis vender dar a entender que o pacote laboral é necessário para o país, quando o que está em causa é uma declaração de guerra aos trabalhadores.

Já sobre o aumento do custo de vida, o secretário-geral dos comunistas questionou o Governo como é que este irá travar a especulação e o aumento do custo de vida, se está disposto a regular preços nos combustíveis, energia, gás, alimentos e nas prestações ao banco e colocar as grandes empresas a contribuir. Naturalmente, Luís Montenegro não quis responder e ante o aviso do aumento do caudal reivindicativo disse que a «ameaça da luta dos trabalhadores não é coisa nova».

Por fim, o Bloco de Esquerda, através de Fabian Figueiredo, desafiou o primeiro-ministro a retirar Portugal da «rota da guerra», a regular os preços dos combustíveis e energia e a pôr em vigor o IVA 0 nos produtos do dia-a-dia, uma famigerada proposta da direita que não belisca os lucros dos especuladores nem fixa preços. 

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