Miguel Esteves Cardoso (MEC) é um intelectualmente sedutor Red Tory, um conservador vermelho, dada a sua anglofilia. No século XIX seria uma espécie John Ruskin, um dos grandes críticos morais e estéticos da economia política vitoriana. Isto significa que, politicamente, é capaz do péssimo e do ótimo.
Um exemplo do péssimo. A sua chocante posição ao serviço de Israel, de inaceitável confusão do brutal colonialismo sionista com o judaísmo. Um exemplo do ótimo. A sua defesa da massificação da escrita no livro Como Escrever (Bertrand Editora, 2024), revelando partilhar muito bem a intuição comunista: a de que a excelência só floresce na democratização de qualquer prática e na fruição o mais alargada e igualitária possível dos bens que lhe são internos.
No fundo, é como se MEC levasse demasiado a sério Michael Oakeshott, o teórico da disposição conservadora, e só conseguisse olhar e ver o que lhe está perto, a escrita, o SNS, as relações de proximidade, as coisas simples – aprendi com ele que o pão fresco dá as melhores torradas, por exemplo; tudo descrito com sensibilidade ímpar, incluindo o imenso amontoado de mercadorias a que acede e no qual se deixa voluntariamente submergir.
Há uma linha, uma fronteira, a partir da qual está o que se considera distante, deixando o conservador de querer olhar e ver, quando, a partir desta periferia, se imagina refastelado num sofá de um qualquer clube, numa qualquer metrópole, a defender a conversação civilizada e polida ao longo do tempo, ao mesmo tempo que, efeito da divisão do trabalho, alguém já ali ordenou: «exterminem-se todas as bestas». Agora é o Irão.
Tenho um dos primeiros livros de MEC que li ao lado do computador, A Causa das Coisas (Assírio & Alvim, 1986). Contém, logo de entrada, um ensaio influente sobre a perniciosa alcatifa, de que muitos nos libertámos, entretanto. Não me esqueço também do semanário Independente e de todo o seu classismo, culminando nas fotografias a denunciar a meia branca de figuras públicas. Lá está, ótimo, péssimo e enganadoramente irrelevante.
Enfim, todo este relambório, porque MEC decidiu, numa das crónicas diárias no Público, escrever sobre o «problema do marxismo». Imagino um seu fã a dizer: lá está, ele tinha razão, os marxistas são mesmo chatos, com a sua superioridade, nunca se enganam, etc. Olhe que não, olhe que não. Se não vejamos, façamos uma síntese, tentando fazer-lhe justiça.
«Podemos dizer com toda a segurança que se as praias estão cheias no verão, com trabalhadores em férias, tal deve muito aos marxistas. Este exercício de memória não impede outros, o dos fracassos e derrotas do marxismo. Quem tenha crescido para a política, para a vida, depois de 1989, sabe que não há gente mais autocrítica do que os marxistas, ao contrário do que possa pensar MEC.»
Basicamente, recorre a uma metáfora de vestuário: o marxismo seria um fato pesado, apropriado para algumas ocasiões, mas totalmente desadequado para levar para a praia, e os marxistas seriam gente relativamente insuportável, desatenta ao ritmo das estações e ao que é adequado a cada uma dela. E comportar-se-iam como uma qualquer elite iluminada, religiosa ou científica.
Aceitemos por um momento a metáfora da roupa. O marxismo pode e deve ser pesado como a roupa de inverno e leve como a roupa de verão. É uma abordagem que pugna pela análise concreta da situação concreta, das relações sociais concretas, sem perder de vista as suas potencialidades transformadoras. E qualquer marxista que tenha feito nudismo confirma o que já sabia da esfera privada, que o marxismo se torna uma segunda pele em público, já que tudo se inscreve nos corpos, incluindo a classe.
Já que estamos na praia, paremos para um exercício de memória, estar à beira-mar convida, afinal de contas: não houve uma única luta pela melhoria da sorte da classe trabalhadora no capitalismo que não tenha tido a participação decisiva de marxistas. Podemos dizer com toda a segurança que se as praias estão cheias no verão, com trabalhadores em férias, tal deve muito aos marxistas. Este exercício de memória não impede outros, o dos fracassos e derrotas do marxismo. Quem tenha crescido para a política, para a vida, depois de 1989, sabe que não há gente mais autocrítica do que os marxistas, ao contrário do que possa pensar MEC. É um dever, na realidade.
MEC é um leitor voraz. Atrevo-me a recomendar-lhe um livro: Viver como um Marxista – Porque é que Marx é uma droga que provavelmente devíamos consumir?, do filósofo canadiano Andrew Pendakis (Edições 70, 2025). Bem sei que o subtítulo é horroroso. E há uma ou outra observação infeliz, sobretudo quando se refere à história do marxismo, mas o essencial não é isso: «não julgamos a partir de fora; condenamos uma porcaria omnipresente [a da fase fecal do capitalismo] na qual estamos cobertos dos pés à cabeça». Nada há de mais antielitista neste reconhecimento. O marxismo é tão igualitário quanto universal, é um humanismo radical.
Partindo da rica experiência emocional e moral de se ser marxista, Pendakis define bem as coisas: «o marxismo é em parte, a experiência do trabalho no capitalismo, transformado na coerência de uma teoria crítica» e não há nada mais prático do que uma teoria versátil, incluindo para a organização, que, «no seu melhor, não é nada mais do que a racionalização da esperança».
Sombrio e solar, pessimista e esperançoso, o marxismo imita a vida, melhora a vida. No fundo, MEC sabe isso, creio que teme tirar as implicações desse conhecimento. O problema de MEC compreende-se a um certo nível. Caso contrário, como se fosse uma contradição, não teria escolhido esta formulação para acabar: «o sol está ali para todos, mas no sistema em que só alguns têm dinheiro para um toldo e ficam com a melhor parte do areal...»
Sim, uma segunda pele.
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