O PS e o PSD andam muito entretidos no Alentejo a discutir de quem é a culpa de a Linha de Beja ainda não estar electrificada, e, mais recentemente, de quem é a culpa de se terem perdido fundos comunitários que estavam atribuídos ao projecto. Bem, a coisa resolve-se com simplicidade: é de ambos. Olhemos a lista dos primeiros-ministros deste século: António Guterres (PS), Durão Barroso (PSD), Santana Lopes (PSD), José Sócrates (PS), Passos Coelho (PSD), António Costa (PS) e Luís Montenegro (PSD).
O mesmo se aplica ao actual processo e à perda de fundos comunitários. Ambos, com a ajuda da IL e do Chega, apoiaram a liberalização da ferrovia imposta por Bruxelas, a destruição da REFER, a política de redução da capacidade operacional das empresas públicas, o recurso sistemático à subcontratação e as leis obstrutivas na contratação pública.
Na China faz-se uma estação ferroviária de raiz em nove dias, em Portugal são nove anos, e os políticos do consenso neoliberal, em vez de nos pedirem desculpa, dizem-nos «coitados dos chineses», enquanto vão trocando obras por promessas e atirando as culpas e os méritos de uns para os outros.
«Qual o impacto económico, social, e até para o futuro da ferrovia, de estarmos até 2032 sem comboio? E qual a necessidade?»
Agora, o Governo fala em encerrar a Linha de Beja até 2032 para, finalmente, realizar a sua electrificação e modernização. Mas, recusa-se a discutir a razão de a obra não poder ser feita com a linha a funcionar. Porque pode. Obras muito mais complexas foram realizadas com a linha operacional, por exemplo, a quadruplicação da Linha de Sintra. Seria um processo mais lento? Sim, seria. Mas nunca mais lento que o actual processo, onde em 15 anos de promessas nem um parafuso foi colocado. Ficaria mais caro? Sim, ficaria. E qual o impacto económico, social, e até para o futuro da ferrovia, de estarmos até 2032 sem comboio? E qual a necessidade? A linha entre Casa Branca e Beja demorou menos de três anos a ser construída, no século XIX, entre 1861 e o início de 1864. Como é que a sua electrificação em pleno século XXI, e com um orçamento de mais de 400 milhões de euros, demora mais tempo? Não pode!
É tempo de resultados concretos. O Alentejo precisa e exige a realização da obra no espaço de um ano, e com a linha operacional.
Urge tomar medidas e parar o espectáculo, a troca de acusações e o auto-elogio. Esqueçam os cadernos de encargos, os concursos e as conferências de imprensa em que se tornaram todos especialistas. Contratem e formem engenheiros e operários para executar as obras públicas. A liberalização da ferrovia é um desastre. Revertam o caminho.
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