No passado dia 10 de Abril tiveram a segunda e última aula da unidade curricular «Gender Dimensions of War» (As dimensões de género da guerra), mas foi no âmbito da primeira que a turma da pós-graduação em Direitos Humanos manifestou preocupações quanto à «ausência de contextualização crítica e de enquadramento histórico». Na perspectiva dos alunos, que enviaram o email à direcção do Ius Gentium Conimbrigae da Universidade de Coimbra (UC), tal «seria indispensável para uma abordagem academicamente rigorosa de um tema desta complexidade e sensibilidade».
O tema era violência de género em contexto bélico. A aula tinha 1h45 de duração e a professora «limitou-se a passar» o contestado documentário Screams Before Silence, sobre o 7 de Outubro, com cerca de uma hora. «Estávamos à espera de ver outros casos, de ver uma contextualização da situação, mas a professora não fez isso. Perguntou-nos se tínhamos opiniões sobre o que tínhamos acabado de ver, mas toda a gente estava tão embasbacada que ninguém disse nada e a própria professora também não», explica «Aurora», nome fictício, em declarações ao AbrilAbril.
«Lembro-me de ela acrescentar algo como, "Pronto, aqui está um caso de violência sobre as mulheres, em contexto de guerra", e referir-se às violações», afirma. Sobre o documentário de 2024, dirigido pela milionária americana Sheryl Sandberg e usado pela propaganda israelita, admite ser «bastante sensacionalista, com descrições de violência e muito pouco histórico». «Não referia dados, não referia pactos, só mostrava vítimas a descrever o que lhes tinham feito, testemunhos de polícias e pronto, estivemos ali cerca de 55 minutos a ver aquele vídeo», explica, salientando que «nunca, em aula nenhuma, tínhamos visto um vídeo tão longo». Normalmente, diz, há mais discussão nas aulas. Na realizada a 27 de Março, e após a exibição do documentário, a professora [Helena Ferro de Gouveia] tentou ver se havia discussão. «Como não houve, ela também terminou mais cedo. Disse que tinha alguma experiência sobre este assunto, mas não falou de acontecimentos nenhuns, só mostrou aquilo e encerrou a aula, no fundo, não houve mais nada», explica «Aurora».
Sobre se chegaram a confrontar a professora com o que levaram mais tarde à direcção, a estudante diz-nos que não. Na altura, admite, «pelo menos para mim, aquilo foi tão chocante que eu nem sabia o que lhe dizer, por isso decidi agir logo ("Vamos falar com a direcção!"), porque ali no momento ninguém a quis confrontar». «Eu, pelo menos, conheço a forma como ela debate, já tinha visto a senhora na televisão e não queria entrar nisso com ela. Pronto, também me dava um bocado de medo, era um ambiente tenso, e sabemos a posição dela», confessa.
«Ausência de contextualização crítica»
«Aurora» integra o grupo de 15 alunos (a turma tem 21) que enviaram o email à direcção. «O que nos motiva a escrever é a ausência de contextualização crítica e de enquadramento histórico que, na nossa perspectiva, seria indispensável para uma abordagem academicamente rigorosa de um tema desta complexidade e sensibilidade», lê-se na missiva a que o AbrilAbril teve acesso. «A esta preocupação acresce o facto de a sessão ter evidenciado, de forma notória para os presentes, uma preparação pedagógica insuficiente, o que agravou a ausência de estruturação crítica do conteúdo apresentado», denunciam.
Certos de que «num programa de pós-graduação em Direitos Humanos, a selecção e apresentação de conteúdos pedagógicos deve pautar-se por um compromisso com a pluralidade de perspectivas e com o pensamento crítico, os estudantes defendem que a abordagem do chamado «conflito israelo-palestiniano» deve ser acompanhada de um enquadramento que permita formar uma opinião informada e crítica sobre o tema.
Como tal, entendem que «a exibição de material que incide exclusivamente sobre uma das partes do conflito, sem contraponto ou discussão orientada, coloca-nos perante uma dificuldade: a de distinguir entre o estudo crítico do tema e a veiculação acrítica de uma perspectiva particular». Essa distinção, sublinham, «é, a nosso ver, central à integridade académica de qualquer programa que se proponha formar profissionais na área dos Direitos Humanos».
Na resposta ao email, onde solicitam que, «em sessões futuras sobre temáticas igualmente sensíveis, seja assegurado o enquadramento crítico e a pluralidade de fontes que se espera de um ambiente de Ensino Superior comprometido com os valores que este programa representa», a coordenação da pós-graduação lamenta que o documentário «não tenha sido objecto do debate e análise que certamente merece». Mas tenta justificar o sucedido «pelas muitas e inevitáveis polémicas que o conflito israelo-palestiniano (que não era, em si mesmo, o tema geral da aula, note-se) tem gerado e continuará a gerar», lê-se na resposta assinada por Teresa Pizarro Beleza, que o AbrilAbril pôde consultar.
Numa leitura simplista, a responsável afirma que «as posições extremadas de muitos de nós no que respeita ao conflito entre Israel e o Hamas dificulte o diálogo e possa sugerir menor objectividade por parte de quem mostra um documentário que narra a extrema violência cometida nos atentados de dia 7 de Outubro de 2023». Admite, porém, que «deveria ter havido outra preocupação de contextualização dos acontecimentos – embora, repito, o tema da aula não era, em geral e em si mesmo, o conflito israelo-palestiniano».
«Deu para o torto»
O alerta dos alunos chegou ao conhecimento da professora convidada da Universidade de Coimbra, Helena Ferro de Gouveia, que, na segunda aula, dedicada ao tema dos campos de refugiados, nomeadamente de migrantes e da violência de género nesses campos, «ficou só ali em casos africanos, com os quais ela já tinha trabalhado», conta «Aurora».
«Aquilo deu para o torto quando nenhum de nós quis intervir, ninguém tinha nada para dizer. Uns por protesto, nomeadamente eu, não tinha vontade de conversar com aquela senhora, mas há colegas que efectivamente não tinham perguntas, porque às vezes acontece», explica, lembrando que nem toda a turma subscreveu o email à direcção. «E como ninguém falava, ela deu-nos um raspanete em que disse que dá aulas há muitos anos em mais de 40 países e que nunca viu esta atitude por parte de adultos, de se dirigirem à direcção sem falar com ela e que se ia retirar porque nós não estávamos a permitir que ela continuasse a aula, e foi-se embora».
«Aurora» constata que Helena Ferro de Gouveia «é muito diplomática, tal como quando comenta na televisão». No entanto, refere, «via-se que estava muito chateada, tendo afirmado "vocês são adultos, estão numa pós-graduação, não deviam fazer isto a um professor, a direcção mostrou-me uma carta assinada por 15 de vocês"».
A aluna sublinha que «é muito importante a parte do contexto, de sabermos que figura é esta e as coisas que ela costuma dizer, tanto na televisão como nas suas redes sociais. E sabemos que mostrar um vídeo, um documentário como ela mostrou, não foi inocente».
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