O artista espanhol Pablo Auladell, em entrevista à revista Blimunda, publicação da Fundação José Saramago, conta um pouco do processo de desenvolver um projecto gráfico para o romance do Nobel português, que só conhecia o argumento quando foi contactado. Já tinha escolhido O Evangelho Segundo Jesus Cristo como o seu favorito do autor, mas confessou surpreender-se com o tom «tão apocalíptico» do Ensaio.
Auladell conta também que os Cadernos de Lanzarote deram muitas pistas sobre como proceder com a ilustração dos cegos. Lá, o autor escreve: «Prefiro, desta vez, que o livro seja povoado por sombras de sombra», Auladell entendeu que os cegos da história deveriam ser seres vazios de luz, quase silhuetas.
Para dar forma a este imaginário foi escolhido o grafite, que em pó e prensado sobre o papel permitiu ao artista «desenhar e redesenhar, construir e destruir», uma técnica «especialmente apropriada para este projecto, já que os sulcos de grafite, esses rasgos leitosos que se abrem, estabelecem de alguma forma um paralelismo com o efeito da cegueira branca descrito no romance».
Esta obra emblemática, que não descreve fisionomicamente os personagens, ganha agora rostos. «Ao desenhá-los acabo por romper em alguma medida o jogo proposto por Saramago», «uma pequena traição», contornada com desenhos de feições de «gente normal e corrente, nada de idealizações».
A edição especial, da Porto Editora, terá a sessão de lançamento no próximo dia 3 de Fevereiro, pelas 18h30 na Sala de Âmbito Cultural do El Corte Inglés de Lisboa. O momento, com entrada gratuita, contará com a participação de Carlos Reis, Pilar del Río e Vasco David.
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