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«A pele e o osso»: a fome provocada por Israel em Gaza atinge em força os idosos

«A fome esculpiu os corpos dos idosos em Gaza, transformando-os em esqueletos vivos», afirma a Al Jazeera ao abordar a grave situação no enclave, onde há registo de novas mortes por má-nutrição.

Créditos / Anadolu

«A fome fez-me perder peso – passei dos 78 quilos para apenas 42 quilos», disse Riyad al-Ghazali à cadeia árabe.

«Não há comida e não temos dinheiro para a comprar. Os preços são altíssimos», disse.

«Vejam o que me aconteceu. Antes, tinha mãos cheias e fortes; agora são só pele e osso», acrescentou. «Tudo o que como é meio pão, porque é tudo o que temos. Às vezes como apenas sal, porque não há mais nada.»

A sua mulher, Nadia Abu Shaaban, conta que às vezes vão dormir sem jantar. «Muitas vezes, o Riyad vai dormir sem jantar – simplesmente não há comida», disse.

Entretanto, nos lares de idosos do enclave, os prestadores de cuidados têm pouco para oferecer aos seus doentes idosos. Alguns estão tão fracos que já não se conseguem mexer, refere a fonte.

«Nos últimos meses, perdemos cinco idosos devido à fome e à inanição», disse Ashraf Hamada, responsável do departamento de cuidados a idosos. «Não temos bens de primeira necessidade – nada está disponível nos mercados ou mesmo nas cozinhas de caridade», revelou.

Esta quinta-feira, o Ministério da Saúde em Gaza informou que mais quatro pessoas (incluindo duas crianças) tinham falecido no enclave devido à fome nas 24 horas anteriores, no contexto do cerco imposto pelas forças de ocupação israelita, que bloqueiam o acesso a comida, água e medicamentos.

Com essas mortes, o número de falecidos por fome e má-nutrição no território chegou a 317, 121 dos quais crianças, indica a Wafa.

Save the Children alerta que crianças estão a morrer lentamente à fome

Numa sessão do Conselho de Segurança da ONU, esta quarta-feira, em que os EUA voltaram a deixar patente o apoio ao seu «aliado» no Médio Oriente, Inger Ashing, directora executiva da organização Save the Children, afirmou que as crianças em Gaza estão a morrer lentamente à fome, algumas delas demasiado fracas para sequer chorar.

Ao discursar, Ashing declarou que a fome não é um «termo técnico seco», explicando que as crianças famintas primeiro queimam gordura para sobreviver, depois consomem músculos e órgãos vitais, definhando ao longo de semanas.

«No entanto, as nossas clínicas estão quase silenciosas. Agora, as crianças não têm forças para falar ou sequer chorar em agonia. Jazem ali, emaciadas, literalmente a definhar», disse, citada pela Al Jazeera.

As organizações humanitárias têm alertado repetidamente para a fome, tendo em conta o bloqueio imposto por Israel à entrada de comida e outros bens essenciais na Faixa de Gaza. Ashing instou o mundo a agir: «Todos nesta sala têm a responsabilidade legal e moral de agir para impedir esta atrocidade», frisou.

A ONU declarou oficialmente a fome no enclave costeiro na passada sexta-feira, informando que mais de 500 mil pessoas já foram afectadas e que a fome poderá atingir dois terços de Gaza até ao final de Setembro.

Na sequência do encontro desta quarta-feira em Nova Iorque, todos os membros do Conselho de Segurança com excepção dos EUA confirmaram a existência da fome na Faixa de Gaza e emitiram uma declaração em que expressam «profunda preocupação» e lembram que a utilização da fome como arma de guerra – como Israel o está a fazer – é proibida ao abrigo do direito internacional.

De acordo com as autoridades de saúde no enclave, desde 7 de Outubro de 2023 a ofensiva israelita contra Gaza provocou 62 966 mortos e pelo menos 159 266 feridos. A Wafa, que noticia o facto, adverte que a maioria das vítimas são mulheres e crianças, e que há um número indetermiando de vítimas mortais sob os escombros.

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