|Festa do Avante!

Um notável concerto de abertura

Na Festa, o Palco 25 de Abril é a expressão exemplar de como um programa musical pode integrar os mais diversos géneros musicais, sem cedências a nenhum outro critério que não seja o da importância artística e estética.

CréditosPedro Soares

Desde 1976 que a  Festa do Avante! é expressão da força política e social do Partido Comunista Português traduzida num enorme e plural acontecimento cultural, de inegável valor artístico e estético disseminados pelos vários espaços da Festa.

Desde essa sua primeira edição tem sido alvo de variadas calúnias das mais apuradas às mais soezes, sem esquecer o atentado terrorista que tentou anular a sua primeira manifestação pública. Também são de referir as desesperadas tentativas de estrangulamento económico que de forma cínica e hipócrita foi tentada por outros partidos vivendo na sombra dos favores económicos directos e indirectos das forças do capital, incapazes da mobilização militante das milhares de pessoas que todos anos orgulhosamente a constroem.

A primeira nota é de este ser o primeiro ano em que, desde a primeira Festa do Avante!, Ruben de Carvalho não coordenou até ao fim o trabalho da equipa responsável pelos memoráveis concertos que se realizaram na festa no palco principal e a orientação geral dos outros palcos que tanto animam o seu espaço.

Ninguém é insubstituível e o trabalho colectivo realizado ao longo de quase um quarto de século sob a sua responsabilidade política e cultural é garantia de que haverá continuidade no prestígio que a Festa alcançou e que foi inovador a todos os níveis.

Na Festa, o palco central, o Palco 25 de Abril, é a expressão exemplar de como um programa musical pode integrar os mais diversos géneros musicais, sem cedências a nenhum outro critério que não seja o da importância artística e estética.

Desde já alguns anos a música sinfónica é a do concerto de abertura da Festa. Uma excelente opção que obteve uma óptima recepção por parte do público, que provavelmente nas primeiras edições em assinalável percentagem, tinha pouco relacionamento com esse género musical.

Progressivamente a ela aderiu até hoje ser o êxito que é, cumprindo o  objectivo político-cultural que a tornam ímpar. Procurou-se também fazer um enquadramento histórico-político do programa musical, o que nem sempre é tarefa fácil não porque os fins políticos práticos sejam incompatíveis com a qualidade genuinamente artística, mas porque a arte ora se deixa atrasar em relação aos tempos ou a eles se adianta, traço nuclear da sua relativa autonomia em relação ao tempo histórico em que surge.

O concerto sinfónico da edição deste ano integra três compositores representativos do romantismo, todos alemães, um deles Beethoven, de transição do classicismo para o romantismo, os outros dois, Mendelssohn e Schumann bem representativos desse período e do primeiro romantismo alemão.

O romantismo é um período complexo. A burguesia em ascensão, detendo grande e crescente poder económico começa a apropriar-se do poder político contrapondo-se à aristocracia em decadência. É a época da primeira Revolução Industrial, dos primórdios do liberalismo, da transformação das condições de vida com os camponeses a emigrarem para as cidades, o surgimento do proletariado e das suas lutas que terão expressão no Manifesto Comunista de Marx e Engels.

Nas artes, um romantismo revolucionário coexistia com um romantismo contra-revolucionário. Um movimento que seguiu em direcções diferentes na Alemanha e na Europa Ocidental. O romantismo alemão transitou de uma atitude originalmente revolucionária para um ponto de vista reaccionário, no resto do Ocidente de um ponto de vista monárquico-conservador para o liberalismo.

Anote-se que é também neste período que há uma nova atitude artística. Uma luta de libertação não só contra as academias, igrejas, cortes, patronos mas também contra os princípios da tradição, da autoridade, da norma. O artista, agora numa nova posição na escala social, torna-se progressivamente independente da aristocracia das cortes e da igreja para se tornar cada vez mais dependente do mercado.

Com os românticos, na música as dificuldades técnicas de execução aumentam. Surgem os compositores virtuosos. Schumann e Mendelssohn são excelentes pianistas. O paradigma dos compositores virtuosos é Paganini que assombra os auditores e são vários os compositores que posteriormente escrevem versões, variações ou rapsódias sobre os seus temas.

O modernismo nas artes surge quando há uma crescente politização da vida, a burguesia tem posse plena da sua força enquanto a classe trabalhadora intensifica a luta pelos seus direitos que culminará na Revolução de Outubro.

Para representar esse período foram seleccionadas duas obras que, historicamente, se situam no período entre as duas grandes guerras mundiais. Uma de Rachmaninoff, talvez o último dos compositores românticos que anuncia a transição para o modernismo e Ravel, um caso muito particular entre os pioneiros do modernismo como no programa da Festa se sublinha e que deve ser atentamente lido pela excelente informação que anota sobre as obras, os compositores, o enquadramento histórico e estético.

Sobre o concerto de abertura da Festa do Avante! há que destacar, com tudo o que estes destaques têm de subjectivo, a superlativa interpretação de António Rosado na Rapsódia para Piano e Orquestra sobre um Tema de Paganini, bem apoiado pela Orquestra Sinfonietta de Lisboa.

Só um pianista excepcional consegue enfrentar o aparato técnico virtuosístico da obra do compositor russo, que depois da Revolução Bolchevique abandona a sua pátria viajando e tocando por vários países da Europa até se fixar nos EUA, naturalizando-se norte-americano. António Rosado conseguiu fazer parecer fácil o que é de extrema dificuldade de execução, tornando aliciante a audição da obra de Rachmaninoff mesmo para quem não o tem entre os seus compositores preferidos. Isto só está ao alcance de um exímio pianista.

O segundo destaque vai para o Triplo Concerto, Concerto para Violino, Violoncelo e Piano de Beethoven. Não é das obras significativas do genial compositor mas é a que mais marca a transição do classicismo para o romantismo.

São variadas e notáveis várias as gravações de grandes solistas que a incluíram no seu reportório em que se evidencia a da Filarmónica de Berlim com David Oistrakh, Mistilav Rostropovich e Sviastoslav Richter. É, portanto, uma obra em que são muitos os termos de comparação o que criava grande expectativas na interpretação de três jovens, o Trio Adamastor, Francisco Henriques no violino, Pedro Massarrão no violoncelo, José Pedro Pinheiro, piano.

Foi a confirmação absoluta de que estamos perante três jovens com futuro brilhante no universo musical. O qualidade individual dos três solistas, o entrosamento entre eles, e deles com a orquestra, confirmou plenamente todas as expectações.  

As outras três composições que completaram o programa, a Abertura para Orquestra «Ruy Blas», de Mendelssohn, o primeiro andamento da Sinfonia nº3 «Renana»,  de Schumann e a Valsa de Ravel, foram tocadas com a já habitual competência da orquestra Sinfonietta de Lisboa, dirigida por Vasco Pearce de Azevedo, bem conhecedora de todos os condicionalismos que naturalmente se colocam num auditório como o Palco 25 de Abril e de como os ultrapassar para que a música seja bem recepcionada e compreendida pelo público.

A finalizar, retomando o que se escreveu no início desta nota, sobre a multiplicidade dos eventos culturais que se sucedem, até forma vertiginosa, nos espaços das organizações regionais e nos centrais –  por exemplo no Avanteatro, no CineAvante, na Bienal de Artes Visuais, – sublinhe-se que são todos não só expressões relevantes do ponto de vista artístico mas de resistência cultural e política,  numa demonstração da rica democracia interna de O Partido com Paredes de Vidro.

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