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|Plano de Recuperação e Resiliência-PRR

Startup que recebeu 13,3 milhões de euros do PRR abriu falência

A Unbabel, uma das empresas que ocupou um andar inteiro no AIhub, um dos hubs temáticos da Unicorn Factory criado por Carlos Moedas, beneficiou de 13,3 milhões de euros de apoios públicos. Em Março pediu falência depois de um dos investidores privados ter lançado um processo para reaver o dinheiro investido. 

Moedas
Créditos António Pedro Santos / Agência Lusa

É uma história com uma conclusão que não é rara no mundo das startups. De acordo com dados do Eurostat de 2022, a taxa de mortalidade de startups nos primeiros 5 anos ronda os 50%. Já um estudo de Shikhar Ghosh, da Harvard Business School, concluiu que a taxa de falhanço dessas empresas é de 30-40% se considerarmos a perda total do investimento; de 70-80% se considerarmos o retorno financeiro projectado; e de 90-95% se considerarmos a falha em cumprir as projecções iniciais.

Não faltam estudos que comprovam que investir em startups acarreta um elevado risco, mas isso não impediu os governos de canalizar fundos públicos para a incerteza. Sendo certo que é do Estado que parte o incentivo à inovação, algo que os liberais optam por nunca mencionar, a verdade é que esse investimento deve ter em conta um conjunto de pressupostos que tenham em conta o real desenvolvimento do país.

Num contexto em que o actual Governo está muito preocupado com as supostas fraudes relativas às prestações sociais e invoca os prazos do PRR para poder aprovar à força a Prestação Social Única, o caso da Unbabel acaba por ser revelador da política de classe que serve de bússola orientadora das políticas de direita,

Fundada em Lisboa em 2013, a Unbabel é uma startup portuguesa que traduz e adapta conteúdo para vários idiomas e que desenvolveu os seus próprios modelos de IA, como o TowerLLM. A história da empresa não por fica por aqui, no entanto, uma vez que a empresa ocupou um andar inteiro no AIhub, um dos hubs temáticos da Unicorn Factory Lisboa, uma iniciativa promovida por Carlos Moedas que procurava ser um grande polo de inovação e empreendedorismo, para além de desenvolver e fixar as denominadas «startup unicórnio»: empresas jovens, de rápido crescimento, que atingem uma avaliação de mercado de 1 milhão de milhões de euros.

Todos estes elementos permitem já traçar o escândalo. Ao longo dos últimos anos, a Unbabel foi amealhando dinheiro do PRR, a famosa «bazuca» que supostamente iria garantir uma economia mais resiliente. Ao todo, estava previsto receber um financiamento de 14,8 milhões de euros, sendo que recebeu 89,6% deste, ou seja, 13,3 milhões.

A projecção da empresa era tal que esta chegou a liderar um dos consórcios de inteligência artificial financiados pelo PRR, com 75 milhões de fundos comunitários. Este sua liderança chegou ao fim após a compra da Unbabel pela americana TransPerfect, empresa de tradução norte-americana. Ao ECO, jornal que lidera o número de notícias sobre a empresa, Vasco Pedro, cofundador e CEO da Unbabel, disse que a operação iria permitir aumentar significativamente a escala da empresa.

A operação aconteceu a Agosto de 2025 e essa entrevista de Vasco Pedro foi em Agosto do mesmo ano. Acontece que, passado um mês, o ECO noticiou que a «Venda da Unbabel por “valor relativamente baixo” gerou “perda total” para muitos investidores». «Com perspetivas "pouco animadoras" e uma queda de 50% no volume de negócios, a Unbabel foi vendida por "um valor relativamente baixo". Alguns investidores perderam tudo», pode ler-se na peça.

Já em Dezembro de 2025 soube-se que o fundo espanhol Buenavista Equity Partners, investidor da Unbabel, intentou uma acção contra a venda da startup à TransPerfect no valor de 12,75 milhões de euros.

Nem um ano passou e, no passado mês de Março de 2026, a Agência para a Competitividade e Inovação, I.P. (IAPMEI) começou a analisar se a Unbabel concluiu os projetos financiados pelo PRR. Ou seja, além do processo em tribunal, as autoridades portuguesas começaram a investigar a empresa. Digno de registo foi o silêncio das entidades políticas que incentivaram o investimento público em empresas altamente especulativas.

Acontece que a abertura de investigação por parte do IAPMEI só surge depois da notícia que veio confirmar todas as suspeitas: a Unbabel tinha pedido insolvência no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa. «No Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa, Juízo de Comércio de Lisboa – Juiz 2 de Lisboa, no dia 10 de março de 2026, pelas 16h40, foi proferida sentença de declaração de insolvência da devedora: Unbabel, Lda», lê-se na sentença.

«Sem atividade nem ativos significativos, a insolvência da Unbabel Lda. é mais um capítulo nesta história que marca o empreendedorismo português», escreveu o ECO, num processo que vai deixar muita gente a arder já que a empresas nada tem. Entre essas entidades que nada vão ver de retorno está o proprio Estado que injetou bastante dinheiro na empresa.

Numa altura em que se discute a «subsidiodependência», importa vincar que nem a direita nem a extrema-direita levantaram esta bandeira, a bandeira das empresas que arrecadam milhões dos contribuintes e nada acrescentam para a economia nacional.  

 

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    Actualização: o lead da notícia foi actualizado no dia 23 de Junho de 2026. A Unbabel não participou na Unicorn Factory.

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