Eu sei que os senhores CEO não gostam da palavra chantagem, sentem-se gente fina, acima dos comportamentos rudes da plebe. Não despedem, terminam a relação contratual. Não roubam, desviam. Não chantageiam, colocam condições. Quando são entrevistados, não há contraditório, dizem o que querem, quando querem e se querem. Mas dizem-no de forma tão elegante. Só que basta raspar um pouco a camada exterior, e no meio de tanta sofisticação está, quase sempre, alguém só preocupado com os lucros que a sua empresa gera e com os ganhos que pode retirar para si próprio.
Olhemos para a longa «entrevista» de João Bento, CEO dos CTT, ao Jornal de Negócios, em Janeiro. São sete páginas de jornal de «entrevista». Vejamos o que nos diz sobre o serviço público postal: «Se isto não se resolver, não vai ser possível apurar qual o valor justo que tem de vir do Orçamento do Estado, e se não se apurar não vem. E se não vier, não há serviço público.» Que significa exactamente o mesmo que dizer: Agora que a infra-estrutura postal é nossa, se o Estado não nos pagar o que queremos, acabamos com o serviço postal, despedimos três ou quatro mil trabalhadores, e vamos ganhar dinheiro rentabilizando o património imobiliário dos CTT. E até nos lembra, para credibilizar a ameaça, que já houve um país da União Europeia – a Dinamarca – que acabou com a distribuição postal.
Aqui está o resultado inevitável e previsto da liberalização e privatização dos CTT. De um serviço eficiente e lucrativo para o Estado involuímos para um serviço degradado que o Estado terá de pagar ou deixará de existir, depois de um conjunto de capitalistas se terem lambuzado com os CTT, lhe terem extraído centenas de milhões de euros de dividendos em resultado da liquidação do seu vasto património e dos lucros das suas operações. Como o PCP tem dito repetidamente, a renacionalização dos CTT é uma questão de absoluto bom senso, sem a qual o país acabará sem serviço postal, ou a pagar muitos milhões por uma caricatura desse serviço (sim, porque João Bento também reivindicou uma nova redução dos índices de qualidade exigidos ao serviço postal).
Não é a ideologia que faz o PCP defender a nacionalização dos CTT. A ideologia arma o PCP para compreender a verdadeira natureza do capitalismo e por isso faz com que o PCP seja capaz de prever, ainda decorria o processo de privatização, que caso esta acontecesse chegaria o dia em que o CEO dos CTT diria o que agora disse João Bento. A nacionalização dos CTT e dos sectores estratégicos é uma questão de bom senso. De forma oposta, a ideologia neoliberal faz com que pessoas sérias acreditem num conjunto de mitos, e permitam, ou até apoiem, medidas como a liberalização e privatização do serviço postal, que só beneficiam a grande burguesia (e não toda). Desde Marx que se sabe que a «ideologia dominante é a ideologia da classe dominante», e é com esse domínio que é preciso romper.
Expresso e Banco: uma empresa em liquidação
No resto da entrevista, João Bento continuou a tentar vender aquilo que interessava aos accionistas dos CTT e a si próprio. Se retirarmos o suco de tanto palavreado, o que fica é assustador:
Assume a vontade de separar o Banco do resto do grupo CTT, assumindo o desejo de lhe reduzir a exposição, continuando a admitir mesmo a sua venda.
Como já anteriormente alertámos, os números do Banco não são nada confortáveis, principalmente se pensarmos que o conjunto da Banca está a gerar os lucros que está a gerar (mas não o Banco dos CTT). Há evidentes riscos para o grupo da exposição ao Banco (que João Bento reconhece), que na sua fragilidade pode soçobrar perante qualquer crise financeira (e no capitalismo há sempre uma crise à espreita) até porque cresceu essencialmente através de aquisições arriscadas. O Banco, que foi criado com o património e os activos dos CTT está assim à venda, e se a venda acontecer, se algum outro grupo bancário internacional (a Generali já ficou com uma parte) responder aos convites dos accionistas dos CTT, os accionistas dos CTT irão seguramente recolher o seu quinhão. Mas não os CTT. O sonho de um Banco Postal foi assim liquidado pela gestão privada dos CTT.
«Desde Marx que se sabe que a «ideologia dominante é a ideologia da classe dominante», e é com esse domínio que é preciso romper.»
«Aqui está o resultado inevitável e previsto da liberalização e privatização dos CTT. De um serviço eficiente e lucrativo para o Estado involuímos para um serviço degradado que o Estado terá de pagar ou deixará de existir, depois de um conjunto de capitalistas se terem lambuzado com os CTT (...).»
O Correio Expresso, que continua a ganhar peso, continua também o seu processo de «internacionalização». João Bento quis-nos convencer que os CTT estão à beira de absorver a DHL e os Correos espanhóis, mas já todos vimos vezes demais onde terminam estes processos de internacionalização: com a absorção da parte portuguesa por uma grande multinacional, neste caso, provavelmente a DHL. Também aqui a opção é sempre a de «criar valor para os accionistas» e não propriamente uma gestão integrada e equilibrada.
E o serviço postal, que ainda distribui mais de um milhão de cartas por dia, que criou todo o património dos CTT, está em degradação e em risco de ser encerrado mesmo. E o património onde assenta esse serviço postal – os Centros de Distribuição Postal, os Postos de Correio, as Sedes – que não foi vendido já foi separado do serviço postal, colocado numa operação financeira imobiliária, para garantir a sua rentabilização com ou sem serviço postal.
Os CTT são assim mais uma empresa portuguesa em processo de liquidação, com um conjunto de capitalistas que lhe estão a sugar o valor, ao mesmo tempo que preparam a sua integração, a troços, em grandes multinacionais.
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