|Didier Caramalho

As redes sociais, o espelho deformante de um Portugal à deriva...

Pode supor-se que a esmagadora maioria dos portugueses de França que apoiam André Ventura, e que passam a maior parte do ano em terras gaulesas, conhecem hoje Portugal através daquilo que as redes sociais lhes dão a ver.

CréditosLiz Bravo / Pixabay

Como compreender o que nos conduziu até aqui?

Este domingo, a diáspora portuguesa votou massivamente na extrema-direita na primeira volta das eleições presidenciais de 2026. Em contraciclo com o voto nacional, António José Seguro, candidato do Partido Socialista, ficou em segundo lugar. E se nos concentrarmos na emigração portuguesa em França, aquela que conheço, aquela de que eu próprio sou oriundo, a vantagem de André Ventura é vertiginosa. Na diáspora portuguesa em França, a extrema-direita ultrapassa o Partido Socialista em 41,74 %.

Como compreender isto? Como conceber que os portugueses de França concedam mais crédito a um partido nacionalista e protecionista do que os próprios portugueses residentes em Portugal? Porque é que, aqui em França, leio por todo o lado nas redes sociais dos órgãos de comunicação comunitários este slogan incessantemente martelado: «Força André Ventura»?

As redes sociais, precisamente. Talvez tenhamos aqui um início de resposta.

De Jordan Bardella ou Éric Zemmour em França a Andrew Tate nos Estados Unidos, passando pela Alternative für Deutschland na Alemanha ou pelo Vlaams Belang na Bélgica, os partidos e personalidades da extrema-direita ocupam um espaço desmesurado nas plataformas digitais. Os seus discursos são ali omnipresentes. Esta hegemonia não é fruto do acaso: resulta de uma estratégia metódica que explora as falhas estruturais das redes sociais. Sabemo-lo bem: os algoritmos privilegiam os conteúdos que geram envolvimento ou seja, gostos, partilhas e comentários. Ora, os slogans da extrema-direita são frequentemente mais provocatórios, mais polarizadores do que os restantes. Como esquecer os slogans do Chega durante estas presidenciais: «Isto não é o Bangladesh» ou ainda «Os ciganos têm de cumprir a lei»? Os algoritmos adoram este tipo de conteúdos. Promovem-nos precisamente porque provocam reações.

Outro dado bem conhecido: o Chega é o partido do Facebook e do TikTok. Está entre as formações mais seguidas e aquelas que geram mais interações online. Entre as suas centenas de milhares de seguidores contam-se, evidentemente, muitos portugueses residentes fora de Portugal, nomeadamente em França. Pode, assim, supor-se que a esmagadora maioria dos portugueses de França que apoiam André Ventura (os números falam por si: 60,46 %, ou seja, 6917 votos em 11 607) e que passam a maior parte do ano em terras gaulesas, regressando ao país apenas, na maioria das vezes, durante os períodos de férias, conhecem hoje Portugal, sobretudo, através dos ecrãs dos seus telemóveis, através daquilo que as redes sociais lhes dão a ver.

«Como conceber que os portugueses de França concedam mais crédito a um partido nacionalista e protecionista do que os próprios portugueses residentes em Portugal?»

 

E o que é que lhes é mostrado sobre Portugal? Essencialmente, a imagem de um país «invadido». Por estrangeiros: paquistaneses, indianos, bangladeshianos, brasileiros, ciganos. Um país onde, supostamente, essas populações não respeitariam a lei e viveriam de apoios sociais. Um país onde alguns quereriam mesmo islamizar-nos... Eis o relato com que o Chega alimenta os seus seguidores e, de facto, também muitos portugueses de França. Não vou aqui alongar-me sobre a dimensão destas mentiras, isso ocuparia páginas inteiras e excederia o âmbito deste artigo. Saibam, no entanto, que todas as informações necessárias para responder corretamente a estas ideias preconcebidas estão disponíveis e são de acesso público.

Mas então, por que razão os portugueses em França acreditam tanto nisso? Não é por serem estúpidos. Pensar assim é uma facilidade. É tentador, efetivamente, afirmá-lo, sobretudo quando se comparam os resultados da emigração portuguesa em França com os da emigração no Reino Unido. Do outro lado do Canal da Mancha, António José Seguro surge em primeiro lugar com 33,38 % dos votos, e André Ventura segue atrás com 23,56 %, menos 575 votos. Em França, a emigração portuguesa é historicamente menos diplomada, menos qualificada e mais envelhecida. No Reino Unido, é mais jovem, mais qualificada e mais móvel. Seria, portanto, tentador explicar este voto massivo a favor da extrema-direita pelo analfabetismo ou pela ignorância.

Mas não estou convencido.

Creio, antes, que estes eleitores estão perante um espelho deformante: o dos seus ecrãs, o das suas redes sociais, que lhes devolvem uma imagem caricatural e falsa do seu país natal. E como não temer as formas monstruosas que esse espelho reflete? Portugal, esse país que muitos deixaram há vinte ou trinta anos, por vezes há ainda mais tempo, que se sonha reencontrar um dia, na reforma; esse país para o qual se enviou tanto dinheiro para construir uma casa ou comprar um apartamento a pensar nos anos da velhice… mas em que se transformou ele? A questão do regresso é uma questão central da emigração. E os portugueses vivem quase todos com a esperança de reencontrar um dia o paraíso perdido.

«Creio, antes, que estes eleitores estão perante um espelho deformante: o dos seus ecrãs, o das suas redes sociais, que lhes devolvem uma imagem caricatural e falsa do seu país natal.»

 

É aqui que entra em jogo outro sentimento-chave: o medo. A priori, os eleitores do Chega em França não são todos racistas, xenófobos, antissemitas ou islamófobos. Talvez tenham simplesmente medo. Talvez temam não voltar a encontrar, caso regressem, o país tal como o conheceram. O Chega percebe isso. O medo desencadeia uma reação imediata, contorna a reflexão. Fabrica quase instantaneamente um «nós» contra um «eles». Designa inimigos. Sempre os mesmos, sob nomes diferentes: imigrantes, minorias, judeus, elites, jornalistas, socialistas. E se tudo isto não fosse então senão o resultado de um medo cuidadosamente mantido pelo Chega nas suas redes sociais?

O que aqui se escreve não são, de modo algum, certezas. São apenas pistas de reflexão. Pistas para tentar compreender, sem cair na armadilha do desprezo. Recusemos categoricamente o desprezo. Alimentá-lo é também participar na fabricação de um «nós, os democratas e bons votantes» face a um «eles, os estúpidos e maus votantes». Não. Ninguém está fora da comunidade democrática. Não existem eleitores de segunda. Existem apenas razões, mais ou menos legítimas, que explicam escolhas, mais ou menos pertinentes. É por isso imperativo compreender as causas para, quem sabe um dia, mudar os efeitos. E acabar com a extrema-direita.

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

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