No trabalho lançado nas redes, em Março, o ministro diz uma mentira grosseira: «o contrato dos 153 comboios já foi assinado. Começam a chegar em 2029. O primeiro desses comboios já está em Portugal». E a mentira mais grave não é a cómica e evidente contradição entre «os comboios que começam a chegar em 2029» e «o primeiro já está em Portugal».
Vamos por partes.
1. Quem vê o vídeo pensará que foi o Governo do PSD e do CDS-PP que encomendou os comboios, mas não foi. A encomenda foi realizada em 2019 pelo executivo do PS em dois concursos: um de 22 comboios para o regional e outro de 117 para o regional e o suburbano.
2. O concurso dos 22 comboios para o regional não teve litigância significativa (porque as multinacionais estavam de olho no concurso maior) e avançou mais depressa que o concurso dos 117 comboios, que entretanto o Governo de Montenegro decidiu, e bem, aumentar para 153 comboios.
3. O primeiro comboio dos 22 já está a ser testado e homologado em Portugal.
4. O primeiro comboio dos 153 ainda nem começou a ser construído, aliás, ainda não está construída a fábrica onde eles vão ser montados. Ora, é neste pacote que estão todos os comboios urbanos e a maioria dos regionais.
5. O Governo do PSD e do CDS-PP autorizou, e bem, a CP a comprar 20 comboios para a Alta Velocidade, coisa que o governo do PS devia ter feito e não fez. Mas ainda nem sequer foi lançado o concurso para os mesmos.
Como o ministro Miguel Pinto Luz está alegadamente preocupado com o justo descontentamento dos utentes da CP e da Fertagus com a falta de comboios, criou a ilusão de «que o problema está finalmente a ser resolvido» e que rapidamente (em 2029, depois das próximas eleições) teremos comboios. Infelizmente, não é verdade.
No que respeita a comboios, este Governo e este ministro fizeram duas coisas positivas: alargaram a segunda encomenda de 117 para 153 comboios e autorizaram a CP a comprar os 20 comboios para a Alta Velocidade. Tentar fingir que foi este Executivo que decidiu da compra dos comboios é colocar-se em bicos de pés e só diminui o ministro e o Governo.
Ainda assim, e antes de reclamarem qualquer crédito, tanto este Governo como os anteriores têm desculpas a pedir aos portugueses, desde logo pelo processo de liberalização da aquisição de comboios, que culminou no encerramento da Sorefame (no vídeo, o ministro recorda que há 23 anos que a CP não recebe comboios novos. Podia ter dito que foi há 23 anos que a Sorefame foi encerrada com a cumplicidade do governo do PSD de Durão Barroso).
Pedir desculpas também por se terem recusado a desbloquear, como podiam, o concurso dos 117 (agora 153 comboios), o que teria tornado possível que fosse verdade a mentira que o ministro disse no vídeo. Pedir desculpas pelo facto de terem cancelado os concursos de 2009 que a CP já tinha lançado, e por terem recusado durante mais de 15 anos a devida autorização para a compra de comboios. Pedir desculpas por, sistematicamente, preferirem a mentira à assumpção de responsabilidades.
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