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Electricidade, escura como o carvão

Enquanto muitos estávamos na Festa do Avante!, num exercício de transparência responsável, o mercado eléctrico, escuro como o carvão, movia-se sorrateiramente.

Central termoeléctrica a carvão, no Pego, em Abrantes. Foto de arquivoCréditos / antenalivre.pt

O governo tem vindo a desdobrar-se, desde há muitos meses, em declarações no sentido do encerramento antecipado das centrais termoeléctricas a carvão, situadas em Sines e no Pego/Abrantes.

A EDP, por seu lado, embora hesitante no início, aderiu à ideia, desde logo porque, conforme revelou publicamente, «até teria prejuízo em manter Sines a funcionar» devido à oneração dos custos pelas taxas de carbono e outros impostos ambientais.

«a importação de electricidade através das interligações Portugal-Espanha atingiu, no domingo, dia 6 de Setembro, a potência de 4445 MW, o valor mais alto jamais atingido»

A corporação, especializada em meter no bolso vários governos durante muitos anos, está agora empenhada em limpar a sua imagem através de uma operação de charme em que se declara interessada num «Planeta com zero CO2»!

Contudo, a produção eléctrica à base de carvão tem vindo a ser muito significativa durante o corrente mês de Setembro.

Troquemos isto em miúdos, tentando perceber melhor.

Como exemplo, refira-se que a importação de electricidade através das interligações Portugal-Espanha atingiu, no domingo, dia 6 de Setembro, a potência de 4445 MW, o valor mais alto jamais atingido. Entre as 13 e as 19 horas esteve sempre a importar-se acima dos 4000 MW!

Um pouco mais de 50% da electricidade consumida durante o dia 6, foi importada.

Consumiram-se 118,1 GWh nesse domingo, dia 6, e 140,4 GWh na segunda-feira, dia 7, tendo-se produzido, respectivamente, 61,3 GWH e 132 Gwh.

Por que razão acontecem estes saltos, se existe potência eléctrica sobrante montada em Portugal?

«Consumiram-se 118,1 GWh nesse domingo, dia 6, e 140,4 GWh na segunda-feira, dia 7, tendo-se produzido, respectivamente, 61,3 GWH e 132 Gwh. Por que razão acontecem estes saltos, se existe potência eléctrica sobrante montada em Portugal?»

Da energia importada no dia 6, apenas 20% foi para bombagem hidroeléctrica, porque a maioria foi mesmo para substituir produção portuguesa que esteve parada. Essa electricidade importada incluiu electrões provenientes de Espanha e Marrocos, e entre eles estavam electrões provenientes de centrais nucleares e térmicas convencionais. Os electrões não têm cor.

De facto, a EDP tem vindo a atribuir um valor/preço à produção hidroeléctrica (albufeira) superior à produção de base a carvão (já com os custos de CO2 e outros impostos!).

Por essa razão, que é inteiramente «de mercado», a produção a carvão (Sines Grupo 3) tem entrado em primeiro lugar na ordem de mérito no Despacho de Rede/Mercado Grossista. Assim, a EDP, poupa a água das albufeiras ao fim de semana para a vender, com maior lucro, durante as pontas verificadas na semana de trabalho. Nessa perspectiva o carvão, e eventualmente o gás natural, entram conforme os preços no mercado grossista. É que se não houver vento, como foi o caso, resta o gás natural, a biomassa e alguma fotovoltaica.

Durante os primeiros dezasseis dias de Setembro do corrente ano a produção, por fonte de energia primária, foi, em GWh:

HidroeléctricaBombagem hidroEólicaBiomassaFotovoltaicaCarvãoGás naturalOutras
300,7(45,9)321,8143,970,4402,6886,8202,9

Portanto, as principais fontes foram o gás natural e o carvão, tendo-se produzido um total de 2283,3 GWh, para um consumo de cerca de 2150 Gwh.

Muito diferente daquilo que apregoam, de braço dado, o governo e a EDP.

«as principais fontes foram o gás natural e o carvão, tendo-se produzido um total de 2283,3 GWh, para um consumo de cerca de 2150 Gwh. Muito diferente daquilo que apregoam, de braço dado, o governo e a EDP»

O que aqui se crítica não é a utilização das fontes convencionais, porque, à parte a optimização que as poucas dezenas empresas eléctricas, designadamente das três ou quatro grandes, fazem do mercado grossista por elas dominado, essa utilização é incontornável e sê-lo-á por muito tempo, até que haja uma fonte limpa alternativa credível, socioeconomicamente sustentável e segura.

Até lá, enquanto muitos estávamos na Festa do Avante!, num exercício de transparência responsável, o mercado eléctrico, escuro como o carvão, movia-se sorrateiramente.

O problema é que, com papas azuis e bolos verdes, eles, os senhores da transição descarbonatada, continuam a enganar muita gente.

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