|Luís Ventura

Até ao comunicado do Comité de Apelo é vindima

A celebração da vitória é um dos maiores apelos do desporto, e a edificação de um palmarés confere prestígio aos atletas, clubes e competições. A integridade do resultado, é pois, assunto sério. Não sendo inédito, quase tudo o que rodeia a recente decisão da CAF é tudo menos sério.

Créditos / dailysabah.com

 

Marrocos marca aos 90’ + 58 dias

No dia 17 de Março de 2026, o Comité de Apelo da Confederação Africana de Futebol (CAF) deliberou a favor de Marrocos, revertendo e atenuando decisões tomadas pelo Comité Disciplinar da CAF, no sentido de favorecer Marrocos e punir o Senegal. Para contexto, lembrar que a final da Taça Africana das Nações (CAN), sediada em Marrocos, disputada entre os dois países esteve envolta em grande controvérsia, o culminar de um torneio atribulado. Entre uma pobre arbitragem, a saída de campo da equipa senegalesa em protesto, o uso de lasers dos adeptos marroquinos, a interferência dos jogadores da casa no uso do VAR pelo árbitro e uma surreal batalha campal entre os apanha-bolas e o guarda-redes suplente senegalês, no final, um golo solitário de Pape Gueye deu a vitória aos Leões de Teranga.

Dez dias depois do apito final, o Comité Disciplinar (CD) puniu então tanto Marrocos como o Senegal por diversos actos cometidos por jogadores, equipa técnica, staff e adeptos, mantendo o resultado verificado em campo, rejeitando a argumentação marroquina de que a saída de campo da maioria dos jogadores senegaleses a mando do seu treinador constituía o abandono da partida, e como tal, a selecção deveria ter sido desqualificada e a vitória atribuída a Marrocos. Embora o comunicado do CD não faça argumentação das suas decisões, depreende-se que tendo a equipa regressado ao relvado e o jogo continuado a partir daí até ao apito final, que nem o árbitro, nem até a selecção marroquina, consideraram a actuação dos senegaleses como uma desistência.

Mas dois meses depois do final do torneio, surge então a chocante decisão do Comité de Apelo (CA), que não só anula a decisão do árbitro e do CD relativamente ao incidente e ao resultado final do jogo, como atenua ou limpa a maioria das multas que o CD deliberou relativamente a Marrocos, mantendo todas as penalizações ao Senegal. Curiosamente, o dia em que sai o comunicado do CA é o dia em que deveria ter dado início a CAN feminina, também em Marrocos, cujo adiamento da competição foi oficializado apenas 12 dias antes do seu começo, não tendo sido dado um motivo claro por parte do país anfitrião para além de «circunstâncias imprevistas». O adiamento e a demora provocou imensas críticas, como da jogadora nigeriana e atleta do Benfica Christy Ucheibe, considerando um desrespeito para com o futebol feminino. Os tempos destas tomadas de decisão criam dúvidas sobre se a organização da competição estava a ser usada com braço de ferro por Marrocos relativamente às deliberações do CA.

O Rei vai nu

Ao momento da escrita, Marrocos ganha assim a sua segunda CAN, volvidos 50 anos. Porém, o Senegal nega-se a reconhecer a vitória e a entregar o troféu, tendo já recorrido da decisão ao Tribunal Arbitral do Desporto (TAD). Aliás, esta não é a primeira vez que o TAD é chamado a deliberar um caso com contornos semelhantes. Durante a segunda mão da final da Liga dos Campeões da CAF, a equipa marroquina Wydad abandonou o jogo após um golo invalidado, e após 80 minutos, o árbitro deu o jogo por terminado, com a desistência e atribuindo a vitória ao Espérance de Tunis. Por ironia do destino, o Comité Executivo da CAF voltou a não aceitar a decisão do árbitro, mas desta vez não aceitando a desqualificação da equipa... marroquina. Em última instância, o TAD deliberou que se mantinha a decisão do juiz da partida.

As reacções à recente decisão do CA foram quase universalmente de repúdio. Desde jornalistas, dirigentes desportivos, actuais e antigos jogadores um pouco por todo o mundo, ninguém parece ver justiça na decisão tomada. Mas acima das interpretações sobre a decisão tomada, o que parece sobressair é claro: Senegal venceu em campo. Mesmo que o TAS mantenha a decisão do CA, o título marroquino terá sempre um asterisco que acompanhará sempre que for falado.

Acrescentando ao surrealismo em torno desta decisão, a Federação Guineense de Futebol, anunciou que iria pedir também a reversão do resultado da CAN de 1976, em que no último jogo que decidiu o título, supostamente a equipa marroquina também abandonou o campo tendo depois retornado e empatado o jogo frente a Guiné, acabaria por ganhar a competição. No entanto, um dos jogadores guineenses dessa final, Ismaël Sylla, diz que tal não ocorreu. Sendo muito improvável que este problema levantado pela Guiné seja alterado, mostra como a leviandade de alterar resultados finais no desporto pode levar à perda da credibilidade do próprio desporto.

Caso de justiça

Apesar disso, não é inédito que resultados desportivos sejam alterados após o seu desfecho, nem tão pouco é inaceitável que assim aconteça. No desporto em geral, a penalização pela prática de doping é acompanhada com a retirada de resultados do atleta infractor, a partir da data em que este testou positivo a alguma substância proibida. Também quando há violações extra-desportivas, se for julgado como grave ou impeditiva o suficiente, atletas e equipas podem ser sancionados a nível desportivo, algo comum no futebol português com a relegação de clubes de divisões, geralmente devido a motivos financeiros. No passado recente, a Juventus e o Olímpico de Marselha perderam títulos devido a casos de corrupção sobre árbitros e jogadores, sob pena de tribunais. Podemo-nos perguntar, se este tipo de penalização não é insólito, o que difere neste caso entre Marrocos e Senegal?

Logo à partida, a maioria dos casos exemplificados acima provêm de infracções que quem ajuíza no terreno os eventos desportivos não tem como saber, ou está envolvido na infracção. Quando Jorge Sousa arbitrou o Gil Vicente – Vitória FC não estava dentro das suas funções saber o vínculo contratual que o avançado angolano Mateus tinha tido com o Lixa no início da época antes de se transferir para os gilistas. Já o árbitro congolês Ndala e a sua equipa testemunharam todos os incidentes de jogo na final da CAN, sobre os quais tomaram decisões que estes julgaram apropriadas e resultante disso foi elaborado um relatório pelo próprio.

«Sendo muito improvável que este problema levantado pela Guiné seja alterado, mostra como a leviandade de alterar resultados finais no desporto pode levar à perda da credibilidade do próprio desporto.»

 

Outra determinante é a celeridade da tomada de decisão. Por exemplo, a aplicação de sanções pelo uso de substâncias proibidas é automática a partir do momento que é pública a informação de que o atleta foi apanhado com um teste positivo. A eventual morosidade provém no processo de teste das análises recolhidas. No caso da final, árbitro, CAF e milhões espalhados pelo mundo assistiram em directo aos eventos controversos do jogo, portanto as condições para tomar uma decisão em menos de 2 meses estavam mais que reunidas. Se já é irritante quando o VAR interrompe o jogo durante 5 minutos, 58 dias para uma tomada de decisão é incompreensível.

Por fim, é importante realçar que, não raramente, a punição de uns não determina necessariamente a premiação de outros. Regressando a dois casos já mencionados, quando o Marselha perde o campeonato em 92/93, o Paris Saint-Germain que ficou em segundo não passou a ser vencedor, nem eles procuraram ser considerados como tal e até se recusaram a participar na edição da Taça dos Campeões Europeus na época seguinte por uma questão de princípio. No rescaldo do Calciocaos, a Juventus viu-lhe serem retiradas duas Série A, a de 05/06 atribuída ao Internazionale após decisão do tribunal apenas dois meses depois do término da competição, antes do início da seguinte, e a de 04/05 que ficou sem vencedor, possivelmente não só pelo tempo como também pelo segundo classificado, o AC Milan, esteve envolvido no escândalo, embora num papel menor, e como tal não seria um vencedor que pudesse ser considerado justo. Aliás, foi essa a lógica por detrás de um dos casos mais famosos de retirada de títulos quando, anos após os ter vencido, foram retirados os sete Tour de France a Lance Armstrong por doping, que permaneceram sem vencedor, porque olhando para os ciclistas seguintes, não se poderia apelidar que fossem vencedores «legítimos» por também terem estado envolvidos em doping.

Independente da opinião que se possa ter sobre a saída dos jogadores do Senegal de campo, atribuir de forma peremptória a vitória a uma selecção que o própria CA da CAF considerou como provado que os apanha-bolas marroquinos perturbaram o jogo a favor de Marrocos, que os jogadores marroquinos impediram o árbitro de usar o VAR com eficácia e que os adeptos da casa usaram lasers para perturbar a visão dos jogadores senegaleses, indigna qualquer adepto de futebol. Isto sem falar nas decisões de arbitragem polémicas no final do tempo regulamentar a favor de Marrocos, que provocou a reacção que está na origem da saída de campo temporária do Senegal. Todos os actos que estragaram aquela final foram resultado do trabalho das três equipas em campo.

Mais que um jogo

No rescaldo de toda esta situação, o que ressalta é o sentimento de que Marrocos teria que ganhar esta competição de uma forma ou de outra. Marrocos vive o que é o culminar de uma estratégia iniciada em 2008 em usar o desporto como ferramenta de soft power. O investimento em todas as frentes no futebol tem sido notável, vivendo a sua melhor fase na sua história, encabeçada por uma geração de ouro. Dentro de campo, o investimento tem dado frutos tendo a selecção masculina recebido apoio mundial ao ter sido a primeira equipa africana a chegar a umas meias-finais de um Mundial, e em 32 títulos ganhos (em masculino, feminino, jovens, em futebol 11 e futsal) na sua história, 13 foram ganhos nos últimos 6 anos, e também os clubes marroquinos têm sido bastante competitivos.

Fora de campo, as vitórias têm sido tão ou mais estrondosas. Para além de ter organizado a CAN de 2025, a CAF atribuiu a Marrocos a organização das duas últimas CAN do futebol feminino e irá organizar novamente este ano, e a mesma situação repete-se com a CAN de futsal masculino e também sediou a primeira CAN de futsal feminino o ano passado. Nas camadas jovens, Marrocos será o primeiro país a sediar a CAN sub-17 duas vezes consecutivas. Já a FIFA atribuiu a Marrocos a organização de cinco Mundiais sub-17 de futebol feminino entre os anos de 2025 e 2029. a organização do Mundial de clubes em 2022 e obviamente o Mundial de 2030, juntamente com Portugal e Espanha.

«No rescaldo de toda esta situação, o que ressalta é o sentimento de que Marrocos teria que ganhar esta competição de uma forma ou de outra.»

 

Este aumento de influência do reino alauíta junto das entidades reguladoras do futebol tem sido visível, e basta olhar para a figura de Fouzi Lekjaa para o entender. Presidente da federação marroquina de futebol desde 2014, ele também é vice-presidente da CAF e presidente do seu Comité Financeiro, e a partir de 2021, é membro do Conselho da FIFA (o órgão executivo entre congressos) e ministro do Orçamento do Estado de Marrocos. Dois dias depois da decisão do CA da CAF, o director desportivo ganês Gideon Hammond fez uma petição à CAF para remover Lekjaa do seu posto como vice-presidente devido a conflito de interesses. A proximidade de Lekjaa ao presidente da CAF, Patrice Motsepe, e ao presidente da FIFA, Gianni Infantino, tem sido sugerida por vários como a principal determinante da decisão que atribuiu a Marrocos a vitória na CAN.

A CAF e a sua principal competição está assim numa crise de credibilidade aos olhos dos adeptos de futebol, sendo instrumentalizada por um Estado que assumidamente procura usar o desporto para avançar com os seus projectos de hegemonia regional. Mohamed Nouri, cronista alinhado com o reino e investigador em Espanha, sintetiza claramente quando liga as vitórias no futebol como um passo para uma vitória maior: ao do reconhecimento internacional da ocupação de Marrocos sobre o Sahara Ocidental. Devia envergonhar a FIFA, CAF, UEFA, RFEF e FPF quando na candidatura ao Mundial de 2030 o mapa de Marrocos aparece com o território do Sahara Ocidental anexado. Tal como uma edição no Paint não apaga a resistência do povo saharaui, a decisão da CAF não apaga a conquista senegalesa, cujos jogadores têm tido prazer em fazer desfilar o troféu.

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