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Classe, questão que trago comigo mesmo – nota de uma experiência pessoal

Aprendi no liceu que a questão de classe abrange a linguagem, os hábitos, as referências culturais, a forma como se ocupa o espaço e até a confiança com que se fala.

Créditos / Helena Lopes

A leitura de Regresso a Reims, de Didier Eribon1, marcou-me profundamente. Para alguém, como eu, que cresceu numa vila que por sua vez cresceu à volta de uma fábrica têxtil — vila essa cujo declínio está intimamente ligado ao declínio e encerramento da referida fábrica —, filho de um trabalhador dessa mesma fábrica e sindicalista activo até meados dos anos oitenta, ler esse livro foi uma espécie de «nota explicativa» (com as devidas distâncias) sobre questões que há muito me perseguem. Uma delas, que a hegemonia neoliberal tem conseguido fazer desaparecer das nossas conversas, é a questão relacionada com a ideia de classe.

Desde muito cedo fui confrontado com ela nos mais diversos lugares: na família, na escola, no grupo de amigos. E o mais curioso é que essa a ideia raramente se apresentava de forma teórica ou política; surgia antes nos pequenos detalhes da vida quotidiana, em coisas aparentemente insignificantes, mas que acabam por moldar a forma como nos vemos e como vemos os outros. «Classe» não era uma palavra que se dissesse em voz alta. Era uma sensação. Uma espécie de consciência difusa, cheia de possibilidades e diferenças.

Ainda hoje o sentimento de «pertença a uma classe» me diz muito. A música, por exemplo, sempre foi uma das minhas grandes paixões. Desde pequeno habituei-me a ouvir música na televisão e na voz da minha mãe. Um dia, os meus pais compraram um pequeno rádio com leitor de cassetes e passámos a ir à feira comprar cassetes pirata, mas sempre com grande parcimónia. A primeira aparelhagem, tal como o primeiro vinil (de uma colecção de três), só entrou em casa quando fiz o nono ano. Ainda no outro dia contei este episódio e alguém me perguntou «porquê?». respondi: porque era um luxo ao qual não nos podíamos dar ao luxo.

Mas esta questão só se tornou verdadeiramente clara para mim quando fui estudar para a Escola Secundária Afonso de Albuquerque, na Guarda, que na altura ainda era designada por «o Liceu». Muitos dos meus colegas de turma tinham aparelhagem em casa e vinis «herdados» dos pais, além de bibliotecas consideráveis. Foi aí que senti, pela primeira vez de forma consciente, pertencer a uma classe. Muitos eram filhos de professores, engenheiros, bancários, advogados e técnicos superiores. Eu era filho de um contabilista numa fábrica têxtil – que sempre viu a progressão da sua carreira hipotecada pelo facto de ter sido sindicalista e não praticante do «beija-mão» – e de uma «dona de casa» que fazia malha e renda para fora, e assim procurava equilibrar a conta-corrente lá de casa.

Aprendi no liceu que a questão de classe abrange a linguagem, os hábitos, as referências culturais, a forma como se ocupa o espaço e até a confiança com que se fala. Havia colegas meus para quem o futuro parecia uma continuação natural do presente: ir para a universidade, ter uma profissão prestigiada, viajar, possuir livros, discos, determinados códigos culturais. No meu caso, nada disso era evidente. Tudo parecia depender de esforço, prudência e alguma sorte. E essa diferença, mesmo quando não era verbalizada, fazia-se sentir a toda a hora.

Todavia, esse sentimento de «pertença a uma classe» agudizou-se ainda mais com a minha entrada numa residência de estudantes dos Serviços Sociais da Direcção Regional de Educação do Centro. Nela contactei com rapazes de todo o distrito da Guarda, vindos de terras cujo nome nunca tinha ouvido: Prados, Pala, Vide Entre Vinhas, Ervas Tenras, Outeiro de Gatos, Póvoa do Concelho, Forno Telheiro, entre outras. Essa experiência marcou-me para sempre – e digo isto com perfeita noção do exagero que a frase pode encerrar. Quase todos eram filhos de trabalhadores agrícolas, operários da construção civil, sapateiros, alfaiates, pedreiros. Em comparação com eles, eu era um privilegiado.

«Foi aí que comecei a perceber uma das grandes contradições da chamada "consciência de classe": raramente ela é absoluta ou linear. Somos quase sempre "os de baixo" em relação a alguém e "os de cima" em relação a outros.»

Foi aí que comecei a perceber uma das grandes contradições da chamada «consciência de classe»: raramente ela é absoluta ou linear. Somos quase sempre «os de baixo» em relação a alguém e «os de cima» em relação a outros. E isso cria inevitavelmente zonas de ambiguidade. No liceu, sentia-me distante dos meus colegas mais favorecidos; na residência de estudantes, percebia que a minha situação familiar me dava vantagens que muitos daqueles rapazes nunca tinham tido. A verdade é que me sentia excluído num contexto e privilegiado noutro. E talvez seja precisamente aí que a questão da classe se torna mais difícil de definir: ela não é apenas uma posição económica fixa, mas também uma experiência relacional, feita de comparações constantes.

Tudo isto veio baralhar o meu sentimento de pertença. Por um lado, eu não pertencia, de forma inequívoca, à classe dos meus colegas de liceu; mas também não pertencia, de forma inequívoca e absoluta, à classe dos meus colegas da residência, embora me sentisse mais próximo destes do que daqueles. Havia em mim uma espécie de consciência dividida: a percepção de que vinha de um meio modesto, marcada pelo trabalho, pela contenção e por uma certa precariedade, mas também a noção de que existiam realidades ainda mais duras do que a minha.

Talvez seja por isso que um livro como o de Didier Eribon me tenha tocado tanto. Porque mostra que a classe não desaparece simplesmente porque alguém estuda, lê livros ou muda de meio social. Há sempre qualquer coisa que fica: uma memória, uma forma de olhar o mundo, um desconforto persistente, por vezes até uma sensação de deslocação permanente. Como se nunca pertencêssemos completamente ao lugar de onde saímos, mas também nunca pertencêssemos totalmente ao lugar para onde fomos. Estamos.

 

  • 1

    Eribon, Didier (2019), Regresso a Reims, tradução de João Carlos Alvim, Lisboa: D. Quixote.
     

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