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Antifascismo ou defesa do status quo?

O problema de um certo «frentismo» surge quando a prioridade passa a ser apenas a construção de alianças que se desejam sempre «amplas», mas que descuram um conteúdo político e social de profunda ruptura com a ideologia dominante.

Créditos José Sena Goulão / Agência Lusa

No seu ensaio A Economia Política do Antifascismo, João Rodrigues defende que uma economia política antifascista terá de ter um «recorte anti-imperialista e logo antimilitarista» (Rodrigues, 2025: 25), de maneira a «romper com o capitalismo neoliberal, que, em simultâneo, abre caminho às forças neofascistas e é por elas perpetuado e aprofundado (…)» (Rodrigues, 2025: 26). Para João Rodrigues, a luta antifascista não pode ser vista sem termos em conta, entre outros, dois factores: soberania política e uma forte consciência anti-imperialista.

Nessa mesma linha, João Rodrigues refere a obra Rumo à Vitória – As Tarefas do Partido na Revolução Democrática e Nacional (escrita em 1964, dez anos antes do 25 de Abril de 1974), onde Álvaro Cunhal estabelece que a luta antifascista deveria ser baseada: 1) na capacidade nacional para contrariar a submissão económica; 2) no fim da guerra colonial e o reconhecimento à independência das colónias; 3) na saída de Portugal da NATO, com base na ideia de um país democrático e pacífico. Todavia, João Rodrigues chama a atenção, e bem, para o facto de o próprio Cunhal reconhecer que a dimensão anti-imperialista do antifascismo «chocava com uma relativamente escassa consciência política nacional acerca dessas matérias, incluindo entre sectores antifascistas, por exemplo iludidos em relação a lógicas democratizadoras da integração capitalista europeia.» (Rodrigues, 2025: 44).

Se levantarmos a hipótese que essa «escassa consciência política nacional» – relativamente às dinâmicas imperialistas e às ilusões em torno da integração europeia –, não desapareceu com a democratização portuguesa nem com a entrada na União Europeia, talvez possa ser afirmado que uma parte da esquerda portuguesa (aquela que aposta ainda numa social-democracia falida e numa «democracia liberal» refém do poder económico e financeiro) acabou por integrar a ideia de que as instituições europeias representariam um avanço automático da democracia, dos direitos sociais e da cooperação entre povos.

A questão é que essa visão revelou, frequentemente, algumas falhas. A principal diz respeito ao combate que deve ser feito ao crescimento do fascismo e da extrema-direita em Portugal, na Europa e no mundo. A verdade é que o antifascismo não pode, nem deve, ser reduzido, como na maior parte das vezes acontece, a uma simples aliança moral. Esse combate tem de ter, obrigatoriamente, uma dimensão social, económica e, na linha de Álvaro Cunhal e João Rodrigues, anti-imperialista. Assim, combater o fascismo e a extrema-direita implica combater as condições materiais que o alimentam, entre outras: a precarização da vida, a destruição de direitos sociais, a dependência económica e a erosão da soberania popular.

«A verdade é que o antifascismo não pode, nem deve, ser reduzido, como na maior parte das vezes acontece, a uma simples aliança moral.»

Ora, muitos dos actuais discursos «frentistas» parecem esquecer esse elemento central, isto é, o combate às condições materiais que alimentam o fascismo. Constroem, apenas, uma ideia de unidade antifascista que, por vezes, se limita à defesa abstrata das instituições liberais existentes, sem questionar o modelo económico que sustenta essas mesmas instituições liberais e que promove a desigualdade, a despolitização e o ressentimento social. 

Nesse sentido, há sectores da esquerda que acabam por defender uma espécie de «antifascismo institucional», desligado das questões de classe e das relações de dependência internacional. Esse «antifascismo institucional» é defendido por dois tipos de esquerda: 1) aquela que é fortemente europeísta, que tende a encarar a integração europeia como incontestável, e, mesmo quando critica políticas neoliberais da União Europeia, raramente coloca em causa os fundamentos estruturais do projecto europeu; 2) a que oscila entre uma crítica mais radical às imposições europeias e uma posição mais hesitante, talvez por receio de ser associada a discursos considerados «antieuropeus».

É claro que não pode ser negada a importância que frentes antifascistas tiveram em determinados contextos históricos. No entanto, quando o antifascismo perde densidade ideológica e social, corre o risco de se tornar apenas um mecanismo defensivo do status quo. O problema de um certo «frentismo» surge quando a prioridade passa a ser apenas a construção de alianças que se desejam sempre «amplas», mas que descuram um conteúdo político e social de profunda ruptura com a ideologia dominante. 

Assim, a questão que se coloca é a seguinte: que tipo de antifascismo queremos? A resposta é simples: um antifascismo consequente e de ruptura. Nele deverá existir, de forma clara e contundente, uma crítica profunda às estruturas de poder, quer sejam políticas, económicas ou financeiras; quer sejam nacionais ou supranacionais. E, com tudo isso, uma forte consciência anti-imperialista. Sem uma clara e imprescindível compreensão das relações económicas que moldam, no caso português, a soberania nacional, qualquer tipo de «frentismo» será insuficiente e superficial.

Combater o fascismo e a extrema-direita não é apenas impedir o seu crescimento eleitoral. É, acima de tudo, transformar as condições materiais que permitem o seu crescimento. E isso implica recolocar no centro do debate temas que a «esquerda brâmane» tende a relegar para segundo plano: a questão da dependência económica, do poder do capital financeiro nacional e transnacional, da soberania democrática e da luta de classes.

Bibliografia


Rodrigues, João (2025), A Economia Política do Antifascismo e outros ensaios, Lisboa: Página a Página

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