Num desses sábados largos de junho, em que o sol nos convoca para a rua, atravessava a cidade com o meu amigo Edgar Macedo – um grande entusiasta da cultura proletária e um divulgador incansável do desporto popular. A tarde começava por essa Lisboa que ainda resiste nos bairros populares, cujos nomes se vão subsumindo em grandes áreas descaracterizadas – divisões administrativas que inspiram um certo cosmopolitismo: a Alta de Lisboa, Marvila, Areeiro, Olaias.
Ao subir o Alto Pina, nessa breve viagem, recordo uma velha gracinha familiar sobre o bairro e as Marchas de Lisboa. Na minha memória vivem nomes de bairros que quase desapareceram, ouvidos na rádio ou na televisão, lidos em jornais; nomes que ganhavam um rosto, muitas vezes, nas transmissões das Marchas de Lisboa ou no Teatro de Revista, que, em meados da década de 1980, apesar do declínio e desprestígio, transportava uma imensa e importante cultura popular lisboeta, associada a um mundo proletário e aos seus lugares de sociabilização – as coletividades.
O meu amigo diz-me, então, que, em todo o bairro, apenas o Clube Desportivo do Alto Pina mantém visível o nome que, agora, foi engolido pela grande zona do Areeiro. Com a reforma administrativa para a agregação das freguesias, as populações destes bairros ficaram mais afastadas dos centros de decisão e foram perdendo o controlo sobre a relevância das suas insígnias na distinção cultural e social da cidade.
«Ao subir o Alto Pina, nessa breve viagem, recordo uma velha gracinha familiar sobre o bairro e as Marchas de Lisboa. Na minha memória vivem nomes de bairros que quase desapareceram, ouvidos na rádio ou na televisão, lidos em jornais; nomes que ganhavam um rosto, muitas vezes, nas transmissões das Marchas de Lisboa ou no Teatro de Revista (...).»
Não há muito tempo, o rapper e produtor Sam the Kid deu uma entrevista na qual alertava para esse fenómeno de apagamento do nome dos bairros, de exclusão social e diabolização, do absurdo que é a própria sinalética dentro dessas grandes áreas administrativas ficar ainda mais confusa e perder o seu verdadeiro objetivo. Os nomes são importantes: Chelas é Chelas, não é Marvila; Marvila não é simultaneamente para a esquerda e para a direita; o Areeiro e o Alto Pina são tão diferentes como Alvalade e o Beato. Mas há quem queira forçar a uniformização da cidade.
Com o agravamento da especulação imobiliária e da expulsão das populações de toda a cidade, atirando-as para periferias ainda mais distantes, agravou-se também o declínio social e cultural dos bairros. Se há muito que as coletividades perderam associados empenhados no seu funcionamento quotidiano, a política de habitação tem cravado ainda mais fundo esse mortífero punhal. Mas não só. Toda a política cultural da cidade, assente em grandes estruturas burocráticas e na facilitação de grandes negócios, não só tem como reverso da medalha a criação de barreiras no acesso das populações à cultura, como tem promovido ativamente o desinvestimento necessário no movimento associativo e popular.
Ainda há poucas semanas, Sofia Lisboa perguntava aqui, no AbrilAbril: «Uma feira popular organizada por pequenos operadores teria o mesmo poder negocial? Um conjunto de comerciantes locais conseguiria exigir a suspensão de taxas municipais sob ameaça de partir para outro concelho?» E respondia sem hesitações: «Evidentemente que não.» O texto de Sofia Lisboa ajuda-nos a compreender bem a dimensão das opções e dos meandros de uma política cultural e económica que despudoradamente beneficia grandes e poderosas organizações e fecha a porta à organização popular de cada bairro da cidade.
Com rendas elevadas em prédios comprados em bloco por fundos imobiliários hostis à permanência das coletividades, com despesas incomportáveis provocadas por uma crise económica que, em menos de uma década, tem sentenciado a existência de associações e IPSS, é cada vez mais difícil sobreviver. Mesmo para aqueles que, com o esforço e sacrifício dos seus associados, através de campanhas de fundos e outras formas de autofinanciamento, conseguiram erguer os seus próprios edifícios, o custo destes equipamentos não consegue, hoje, ser suportado pelas quotas.
Muitas coletividades, por todo o país, tiveram de se sujeitar a ser meras prestadoras de serviços e abandonar a sua essência. Trocaram os grupos de teatro pelas aulas de zumba e o hóquei pelo kempo. A cultura popular e o desporto foram trocados pela massificação de fenómenos exteriores à própria comunidade, num tempo em que a massa crítica foi substituída pelo vício do consumo. Os associados passaram a ser clientes. Não significa que tenhamos de excluir, à partida, atividades culturais e desportivas que vão surgindo por decorrência da diversidade e das próprias dinâmicas sociais. Mas há uma diferença significativa entre isso e a criação artificial de atividades comerciais para resolver urgências financeiras.
«Se há muito que as coletividades perderam associados empenhados no seu funcionamento quotidiano, a política de habitação tem cravado ainda mais fundo esse mortífero punhal.»
Os corpos sociais são, por vezes, ocupados por homens providenciais, alguns deles ungidos por um espírito messiânico, que absorveram as patranhas neoliberais da «adaptação aos novos tempos» e assumiram que os problemas financeiros eram resultado exclusivo de anacronismo e má gestão. Fizeram pactos com o diabo, uns por crença, outros por falta de melhor alternativa. Os resultados estão à vista: coletividades endividadas, na posse da banca, e destruição de toda a base social comprometida com a sua identidade cultural.
Nada disto é motivado por uma ordem sobrenatural, mas sim por opções políticas concretas, por decisões tomadas num amplo quadro de reorganização social da cidade, que enche os bolsos dos grupos económicos à custa de um orçamento que deveria servir o interesse de quem habita e vive as cidades. À custa, enfim, da nossa vida em comunidade. Nada disto está, também, desligado de uma grande ofensiva ideológica que pretende isolar cada indivíduo e garantir que as hipóteses de uma vivência comum não são um obstáculo à prossecução de interesses económicos que não os seus.
Por estes dias de verão, sente-se bem a falta de uma Lisboa popular. Mas ela ainda existe e precisa que a voltemos a descobrir. Resistimos sempre e damos o nosso contributo em cada passeio a pé, em cada torneio de bairro que vamos assistir, em cada iniciativa popular que não ignoramos e à qual prestamos muito mais atenção. Resistimos e vencemos qualquer tentativa de nos separar em cada momento que decidimos que a cidade nos pertence e que é nela que queremos viver. Resistimos e vencemos quando a nossa memória de uma graçola de família, protagonizada pelo som de um elétrico de bairro popular, não nos deixa esquecer como essa vida é melhor partilhada.
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