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Violência contra os indígenas aumenta no Oeste do Paraná

Dirigentes de povos originários dão conta de ameaças, atentados e sequestros. O elevado número de suicídios entre jovens guarani também deixa clara a urgência da demarcação de terras indígenas.

Os Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul
Os Guarani Kaiowá também têm sido alvo de ataques por parte fazendeiros, no Mato Grosso do SulCréditos / cimi.org

A intimidação e a violência sobre as comunidades indígenas no Oeste do estado do Paraná (Sul do Brasil) não é um fenómeno de hoje, mas, segundo refere o Brasil de Fato, tem vindo a aumentar com o processo de demarcação de terras, nomeadamente a Terra Indígena «Tekoha Guassú Guavirá», que abrange um território localizado entre as cidades de Guaíra, Terra Roxa e Altônia.

Neste sentido, o portal brasileiro sublinha que «a tensão e o medo» crescem «nas relações entre indígenas e proprietários de terras na região Oeste do Paraná» desde o início do ano.

Atentados, sequestros e suicidíos

Dirigentes de povos originários referem que os indígenas são alvo de atentados, sequestros-relâmpago, tentativas de atropelamento e agressões físicas. Um dirigente da comunidade Tekoha Y'hovi, de Guaíra, que preferiu não se identificar, disse ao Brasil de Fato: «Nas ruas tentam atropelar-nos quando percebem que somos indígenas.»

A mesma fonte relata os casos de sequestro-relâmpago de dois guaranis, que foram levados para o Paraguai e largados ali. De acordo com o Brasil de Fato, a situação foi encarada como um «aviso» aos indígenas. Questionado sobre a realização de denúncias, o dirigente afirmou que «não podem denunciar». «As vítimas têm medo e a polícia não liga; eles negam-se a fazer o boletim de ocorrência», disse.

Atentado em Guaíra no dia 6 de Novembro

No passado dia 6 de Novembro, o indígena Avá-Guarani Donecildo Agueiro, de 21 anos, foi alvejado quando saía de uma reunião da Coordenação Técnica Regional da Fundação Nacional do Índio (Funai), em Guaíra, segundo refere o portal De Olho nos Ruralistas. Uma das balas continua alojada na sua coluna e Agueiro perdeu o movimento das pernas.

Na sequência da tentativa de homicídio, o cacique da comunidade Tekoha Y'hovi disse ao Conselho Indigenista Missionário (Cimi) que «o cenário de violência vidido pelos indígenas em Guaíra é crítico e se acentuou desde 2012». Algo que, em seu entender, se fica muito a dever à acção de um grupo de fazendeiros.

O Brasil de Fato lembra ainda que, desde 2013, ocorreram pelo menos dez casos de suicídio de adolescentes e jovens guarani nos municípios de Guaíra e Terra Roxa. O mais recente teve lugar a 17 de Setembro na aldeia Tekoha Taturi, em Guaíra. Ali, um jovem de 14 anos pôs fim à vida.

Delimitação de terras: uma urgência suspensa por mais 90 dias

Na sequência de uma acção interposta pela Federação Agrícola do Estado do Paraná, o Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4) suspendeu, no passado dia 7, pelo prazo de 90 dias, o processo de demarcação de terras dos indígenas Avá-Guarani nos municípios de Terra Roxa e Guaíra, publicado pela Funai a 15 de Outubro do Diário Oficial da União.

A FAEP alegou que a Funai não tinha notificado os ocupantes das zonas a serem demarcadas e que há índios na região com cidadania brasileira e paraguaia, o que afectaria a soberania nacional, revela o De Olho nos Ruralistas.

Indígenas no Oeste do Paraná pelo menos desde o séc. XVI

Um estudo da Funai, referido pelo De Olho nos Ruralista, revela que esta região era ocupada por indígenas pelo menos desde o século XVI. Após o fim da Guerra do Paraguai, em 1870, a região foi concedida para cultivo de erva-mate por uma empresa multinacional, que explorava a mão-de-obra indígena. O avanço dos brancos sobre o território indígena começou na década de 1930 e intensificou-se na de 1970, quando foi construída a hidroeléctrica de Itaipu.

Indígenas da comunidade Avá-Guarani Créditos

Então, afirma-se no relatório da Funai, «comunidades indígenas inteiras são assassinadas e atiradas no Rio Paraná, famílias removidas à força para o Paraguai ou para outras terras indígenas no Paraná, e a sua existência é negada por mecanismos diversos, como a acusação de serem estrangeiros».

Até à actualidade, não houve quaisquer medidas efectivas «para compensar e mitigar os impactos da construção da hidroeléctrica para os Avá-Guarani da região de Guaíra e Terra Roxa». Apesar das inúmeras pessoas mortas ou que foram expulsas da região, uma «parte significativa da população Avá-Guarani do Oeste do Paraná» prossegue a busca de «estratégias para permanecer no seu território», lê-se no texto.

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