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Trabalhadores da Nestlé na América Latina articulam-se na defesa dos direitos

Trabalhadores de fábricas da multinacional na América Latina estão a articular-se para travar o ataque aos direitos. No horizonte, está a criação de uma federação que reúna operários de todo o continente.

A Nestlé não respondeu ao Brasil de Fato sobre despedimentos em massa e contratações de precários, entre outras «práticas desleais», alegando que não comenta negociações em curso
A Nestlé não respondeu ao Brasil de Fato sobre despedimentos em massa e contratações de precários, entre outras «práticas desleais», alegando que não comenta negociações em curso Créditos / Brasil de Fato

Edwin Mejía Correa, presidente do Sindicato Nacional de Trabalhadores do Sistema Agroalimentar (Sinaltrainal) da Colômbia, entende que a união internacional pode ajudar a evitar que as violações de direitos que ocorrem no Brasil durante a pandemia, por exemplo, se repitam noutros países.

Os contactos internacionais, segundo o dirigente sindical, facilitam o encaminhamento das exigências directamente para organizações na Suíça que prestam apoio nas negociações com a Nestlé. «Reunimo-nos no ano passado, em vários países, e temos a ideia de fazer um giro pelo continente para ampliar essa articulação», sublinha Correa.

Uma das medidas mais urgentes, para Correa, é garantir que as fábricas forneçam aos trabalhadores equipamentos de protecção individual em quantidade suficiente. Nalgumas unidades, no início da pandemia, entregavam apenas uma máscara por operário por turno. Os especialistas recomendam que a máscara seja trocada a cada duas horas.

«Na Colômbia, as fábricas não pararam, o ritmo não diminuiu com a Covid-19. Pelo contrário, produziu-se mais durante a pandemia; então, esse período não teve impacto nos nossos salários. Mas estamos mobilizados para garantir condições sanitárias adequadas», disse ao Brasil de Fato o dirigente colombiano.

Situação no Brasil

A Nestlé planeia investir 142,3 milhões de dólares nas operações no Brasil em 2020, mas ameaça direitos conquistados há décadas pelos trabalhadores. Nas unidades dos estados da Bahia e do Espírito Santo, os trabalhadores resistem ao que consideram uma «deslealdade» por parte da companhia.

«Aqui, na Bahia, a Nestlé fechou uma fábrica em Itabuna com mais de 340 postos directos por conta do fim de incentivos fiscais», aponta o secretário de Organização do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação e Afins da Bahia (SindAlimentação), Eduardo Sodré.

«Precisamos de nos organizar para o combate a práticas desleais, ou então voltará o chicote ao palco das relações entre capital e trabalho»

Eduardo Sodré

Sodré afirma que os trabalhadores estão com receio das medidas impostas pela empresa. «Noutras fábricas, há despedimentos em massa e contratação de trabalhadores temporários e terceirizados com condições infinitamente piores. As ameaças são constantes, mas estamos dispostos a resistir», defende.

O dirigente informa que o sindicato avançará com a convocação de uma greve, solicitará mediação junto ao Tribunal de Justiça do Trabalho e espera apoio judicial em relação a essa questão, «que se posicione contra a extinção de cláusulas históricas que foram construídas ao custo de muita luta».

Contactada pelo Brasil de Fato, a multinacional informou que está em processo de negociação do acordo colectivo 2020/21, através de reuniões virtuais, e que «não comenta o conteúdo de negociações em curso».

Para o sindicalista, muitos dos retrocessos que os trabalhadores enfrentam no contexto pandemia são o resultado da reforma laboral de 2017, e a articulação internacional com outros trabalhadores da Nestlé significa «uma luz no fim do túnel». «Precisamos de nos organizar para o combate a práticas desleais, ou então voltará o chicote ao palco das relações entre capital e trabalho», disse.

«Devíamos estar unidos, solidários e informados da situação em cada país. Se estivéssemos organizados em todo o continente, a conversa seria outra.»

Eduardo Sodré

Eduardo Sodré lembra que a empresa está presente em mais de 250 países, e defende que a união dos trabalhadores também deve extrapolar as fronteiras, de modo a garantirem os seus direitos. «Devíamos estar unidos, solidários e informados da situação em cada país. Se estivéssemos organizados em todo o continente, a conversa seria outra. Organizados a nível global, como o capital, o respeito pelos trabalhadores seria bem diferente», enfatiza.

A situação relatada por Sodré na Bahia é similar à dos operários de outros estados, como explica a presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Alimentação do Espírito Santo (Sindialimentação-ES), Linda Morais.

«Os trabalhadores demonstraram indignação e resistência. A Nestlé está a fazer a opção errada ao precarizar a mão-de-obra no seu plano estratégico de se tornar a dona do mundo. A postura tem sido mesquinha e de grande maldade com os trabalhadores», critica.

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