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Senhor da guerra na Ucrânia vai a Washington (muitas vezes)

Mamulashvili, que se vangloria de ter autorizado execuções de prisioneiros russos na Ucrânia, viajou diversas vezes aos Estados Unidos, onde foi recebido calorosamente, também por congressistas e senadores.

Mamuka Mamulashvili, exibindo a bandeira da Legião da Geórgia, posa com Eliot Engel, então presidente da Comissão de Assuntos Externos no Congresso dos EUA, em 2017 
Mamuka Mamulashvili, exibindo a bandeira da Legião da Geórgia, posa com Eliot Engel, então presidente da Comissão de Assuntos Externos no Congresso dos EUA, em 2017 Créditos / Facebook / The Grayzone

«Enquanto os especialistas dos media ocidentais uivaram sobre as imagens de cadáveres na cidade Bucha, ecoando a acusação do presidente ucraniano Volodymyr Zelenksy de que a Rússia é culpada de "genocídio", ignoraram largamente a aparente admissão de atrocidades por um aliado declarado dos Estados Unidos, que foi bem recebido no Capitólio por legisladores que supervisionam as comissões de política externa do Congresso», afirma o jornalista Alexander Rubinstein numa peça recentemente publicada no portal thegrayzone.com.

Apesar de ter lutado noutras guerras contra a Rússia e das alegações de que teve um papel determinante no massacre de 49 manifestantes no golpe da Praça Maidan, em Kiev, em 2014, Mamuka Mamulashvili fez várias viagens aos Estados Unidos, sendo «calorosamente recebido» por membros do Congresso, o Departamento da Polícia de Nova Iorque e membros da diáspora ucraniana, lembra o jornalista norte-americano.

Numa entrevista este mês, Mamulashvili foi questionado sobre um vídeo em que aparecem soldados russos que tinham sido executados extra-judicialmente em Dmitrovka, uma cidade a uns oito quilómetros de Bucha.

Mamulashvili «foi sincero» sobre a táctica da sua unidade de não fazer prisioneiros, refere Rubinstein, embora tenha negado qualquer envolvimento nos crimes mostrados no vídeo.

«Nós não aceitamos soldados russos, nem kadyrovitas [chechenos]; de qualquer forma, não fazemos prisoneiros, nem uma única pessoa será capturada», disse Mamulashvili, deixando perceber que a sua unidade executa os prisioneiros de guerra.

«Sim, nós atamos as mãos e os pés deles, às vezes. Falo pela Legião da Geórgia; jamais faremos um soldado russo prisioneiro. Nem um único será feito prisioneiro», sublinhou Mamulashvili, citado pelo jornalista norte-americano, com base numa fonte entretanto suspensa pelo Twitter e lembrando que as execuções de combatentes inimigos são um crime de guerra à luz da Convenção de Genebra.

Combatentes ucranianos e da Legião da Geórgia celebram a execução de soldados russos prisioneiros (imagem de vídeo) / The Grayzone

Crimes de guerra ucranianos silenciados

Rubinstein destaca a existência de diferentes paradigmas na abordagem a massacres na Ucrânia. Por um lado, os governos dos países ocidentais bloqueiam o pedido da Rússia para que as Nações Unidas levem a efeito uma investigação dos alegados massacres em Bucha, que se tornaram «fonte de indignação e de disputa acesa».

Por outro, aquilo que classifica como um caso claro de crime de guerra cometido a 30 de Março pelas forças militares ucranianas, a pouco mais de oito quilómetros de Bucha, «teve uma resposta muito mais discreta, apesar da cobertura por parte de The New York Times».

«As imagens macabras mostram pára-quedistas russos mortos ou sangrando numa estrada, alguns com as mãos claramente atadas – um trabalho supostamente realizado pela Legião Georgiana», afirma, acrescentando que quem filma celebra o episódio e chama a atenção dos seus companheiros, referindo-se explicitamente aos «georgianos».

«Olhem, ainda está vivo», diz um dos combatentes quando um dos soldados russos se contorce no meio de uma poça de sangue. Em seguida, atingiram-no com três tiros à queima-roupa.

Neste local, dois dias depois de a caravana russa ter sido destruída, apareceu Oz Katerji, um «agente neoconservador» britânico-libanês que, segundo Rubinstein, «chegou à ribalta», entre outras coisas, por enviar mensagens ameaçadoras por Whatsapp a jornalistas que se opõem à guerra suja apoiada pelos EUA na Síria, por «fantasiar» sobre a polícia a torturar o editor de The Grayzone Max Blumenthal, por interromper «histericamente» o ex-líder trabalhista do Reino Unido Jeremy Corbyn numa reunião contra a guerra, e por «se associar» a grupos armados apoiados pela CIA na Síria.

Oz Katerji no Líbano (mais à esquerda); Katerji no local de uma caravana russa destruída na Ucrânia, em 2 de Abril de 2022 // The Grayzone

«Filmando-se tendo como pano de fundo numerosos tanques russos queimados, Katerji escreveu no Twitter que soldados lhe disseram que "tinham retirado ontem do campo de batalha os cadáveres de oito russos"», afirma Rubinstein, sublinhando que uma versão «igualmente higienizada da cena» foi publicada pelo Ministério ucraniano da Defesa no Twitter, que reuniu fotos da destruição e uma entrevista com um soldado sobre uma trilha sonora electrónica intermitente.

No vídeo original dos crimes de guerra, um dos homens que se regozijam com a cena da matança foi identificado como Khizanishvili Teymuraz, da Legião da Geórgia. Teymuraz, refere o jornalista, foi guarda-costas do aliado de Mamulashvili e ex-presidente georgiano Mikheil Saakashvili – um «projecto de estimação» dos neocons de Washington que caiu em desgraça depois da guerra desastrosa contra a Rússia por causa da Ossétia do Sul e que acabaria por aceitar a oferta da Ucrânia pós-Maidan para ocupar o lugar de governador em Odessa.

Um senhor da guerra muitas vezes em Washington... e Nova Iorque

Mamuka Mamulashvili e os seus legionários estão entre os principais suspeitos do massacre na Praça Maidan, em Fevereiro de 2014. Antigos companheiros de armas de Mamulashvili, que ele havia juntado «pela defesa da causa ucraniana», declararam à imprensa russa que ele lhes disse: «É necessário criar o caos na Maidan, usando as armas contra quaisquer alvos, manifestantes e polícias – não importa.»

A responsabilidade dos «misteriosos assassinatos» seria apontada ao governo ucraniano de então, fragilizando a posição do presidente Viktor Yanukovych.

Ivan Katchanovski, professor de Ciência Política na Universidade de Ottawa, no Canadá, defende que o grupo de Mamulashvili estava entre os franco-atiradores que dispararam contra os presentes na Praça Maidan. A The Grayzone disse que os testemunhos de vários georgianos que admitiram ter disparado na praça batem certo com os dados recolhidos nos seus estudos sobre o massacre de 2014.

Num artigo publicado em 30 de Março em The Grayzone, Rubinstein mostrou uma das fotos da página de Facebook de Mamulashvili em que este aparece no Capitólio norte-americano ao lado de figuras da Comissão de Relações Externas.

Mamulashvili recebido pela congressista Carolyn Maloney, em Março de 2018 Créditos

Outras mostram-no a visitar gabinetes do Senado, nomeadamente da senadora Dianne Feinstein e da senadora Kristen Gilibrand, ambas ligadas à Comissão de serviços Secretos. Contactados por The Grayzone, os seus gabinetes recusaram-se a comentar a recepção ao senhor da guerra georgiano.

As diversas viagens realizadas por Mamulashvili aos EUA deram-lhe a oportunidade de participar em eventos na Embaixada ucraniana em Washington, proferir palestras na Saint George Academy, uma escola católica ucraniana em Manhattan (Nova Iorque), e participar numa entrevista na sede de Washington da Voice of America. Também realizou sessões fotográficas com agentes do Departamento da Polícia de Nova Iorque.

Entre estas viagens, Mamulashvili construi três bases de treino e recrutou centenas de combatentes, afirma Alexander Rubinstein. Algumas das fotos que partilhou na página de Facebook mostram os seus subordinados a treinarem crianças. Esta prática, sublinha o jornalista, «é partilhada com o mais célebre Batalhão Azov».

Voluntário norte-americano, Legião, execuções e criminosos

Em Março, Rubinstein entrevistou Henry Hoeft, um veterano do Exército dos EUA que seguiu o chamamento de Zelensky e se alistou como voluntário na Legião Nacional da Geórgia.

Hoeft disse a The Grayzone que os membros da legião o ameaçaram matar quando ele se recusou a ir para a linha da frente sem uma arma. Também contou que os georgianos enfiaram sacos na cabeça de dois homens que tinham feito explodir um posto de controlo e os executaram no local, acusando-os de serem espiões da Rússia.

Elemnetos da Legião Nacional da Geórgia na Ucrânia // Facebook / The Grayzone

Desde que entrou na luta contra a Rússia na Ucrânia, Mamulashvili é apresentado por alguma imprensa ocidental como uma figura corajosa e um comandante tacticamente hábil, afirma Rubinstein, que recorda algumas menções não tão honrosas, nomeadamente por acolher entre as suas fileiras neonazis, criminosos e foragidos à justiça, como o norte-americano Craig Lang, procurado nos EUA por suspeita de assassinato de um casal na Florida.

Lang, que já falou à imprensa em nome da Legião da Geórgia, faz parte de um grupo de oito norte-americanos que são investigados pelo Departamento da Justiça por «crimes de guerra» no Leste da Ucrânia, tendo alegadamente feito prisioneiros entre «não combatentes», que terão torturado, alguns dos quais até à morte, antes de os enterrarem numa vala comum.

«À medida que a guerra na Ucrânia se intensifica e os EUA aprofundam o seu empenho na escalada, figuras políticas de topo em Washington apontam o dedo à Rússia com uma mão e dão um passou-bem a Mamulashvili, um criminoso de guerra declarado, com a outra», nota Rubinstein.

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