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Quando o poder tem medo de perder

O presidente francês começou tarde a campanha eleitoral, marcada pela hipótese de as listas conjuntas de esquerda poderem acabar com a sua maioria no parlamento.

Macron em campanha , quando foi interpelado por uma jovem. 
Macron em campanha , quando foi interpelado por uma jovem. CréditosJacques Witt / Sipa

O final da campanha da coligação que apoia o reeleito presidente Francês, Emmanuel Macron, que mudou o nome para Ensemble! (juntos), não tem sido calma, desde lançarem acusações que o principal proponente da coligação de esquerda, Jean-Luc Mélenchon, é o Hugo Chávez francês e que se pudesse faria do país uma nova Venezuela, até afirmarem que está contra as forças da ordem, por ter condenado a morte a tiro de uma pessoa, por polícias numa operação stop, pode-se ouvir um pouco de tudo da boca dos ministros e dirigentes dos partidos que apoiam o presidente. Mas para ilustrar o clima crispado do chefe de Estado na campanha, nada melhor que uma pequena história.

Uma estudante do ensino secundário Laura, 18 anos, a viver em Gaillac no Tarn, teve a desagradável surpresa de ter recebido – no dia seguinte a ter interpelado o presidente sobre o facto de dois os seus ministros terem sido acusados de violação – a visita de vários polícias na sua escola.

A estudante trocou palavras com Emmanuel Macron, numa viagem deste ao seu departamento eleitoral, sobre as acusações de violação de dois ministros do governo, Gérald Darmanin e Damien Abad (o primeiro tinha sido alvo de uma queixa por violação, fechada sem acção, depois relançada e para a qual o procurador solicitou um arquivamento no início de 2022).

O diálogo que terá incomodado o governante foi tido quando o presidente deixava a esquadra de Gaillac com o ministro do Interior, Gérald Darmanin: «O principal objectivo do seu mandato de cinco anos era a igualdade das mulheres e a protecção das mulheres que são violadas. Entretanto, coloca à cabeça do Estado, homens acusados de violação e violência contra as mulheres. Porquê?», questionou a estudante.

No dia seguinte recebeu a visita das autoridades. «Eu estava na aula de espanhol quando, por volta das 11.30 da manhã, a subdirectora veio buscar-me para uma conversa. Fora da aula, ela perguntou-me se eu aceitaria falar com os polícias», disse a estudante ao Le Parisien.

Os polícias estavam inicialmente preocupados em saber se ela queria apresentar uma queixa. De facto, à margem da sua conversa com o chefe de Estado, ela tinha confiado que tinha sido vítima de uma agressão sexual no RER há quatro anos atrás. Mas «chegámos rapidamente à troca de palavras com Emmanuel Macron. Eles perguntaram-me o que eu queria fazer, por isso disse-lhes que queria fazer essas perguntas. Então o polícia disse-me: "Isso não era para ser feito". A sua colega acrescentou que se eu tivesse querido interrogar o Presidente da República, então deveria ter passado por canais hierárquicos, escrevendo ao Eliseu», disse a jovem ao diário. Ela descreveu esta discussão, que durou dez minutos, como «intimidatória».

A abstenção ameaça crescer

Os colégios eleitorais da França metropolitana abriram este domingo para a primeira volta das eleições legislativas, nas quais se espera um duelo entre o partido do presidente Emmanuel Macron e a nova coligação de esquerda, de Jean-Luc Mélenchon.

Mais de 48 milhões de franceses são convocados para as eleições de dois turnos nas quais estão em jogo os 577 círculos eleitorais da Assembleia Nacional e nas quais a principal incógnita é se Macron alcançará a maioria absoluta ou será forçado a procurar alianças nos próximos cinco anos para levar a cabo o seu programa eleitoral.

Um dos elementos que se espera assinalar este dia, segundo os institutos demográficos, é a elevada taxa de abstenção, que se prevê superior ao recorde de 51,3% alcançado nas últimas eleições de 2017.

De forma a vencer na primeira volta, o candidato mais votado tem de reunir 50% dos votos que representem pelo menos 25% dos eleitores inscritos. Quando isto não acontece, passam à segunda volta, que se realiza no dia 19 de junho, todos os candidatos que tenham obtido votos equivalentes a mais de 12,5% dos inscritos ou os dois candidatos mais votados.

Em 2017, apenas quatro deputados foram eleitos na primeira volta, já que devido ao sistema de percentagem de votos em relação à população inscrita nas listas, dificilmente haverá muitos eleitos na primeira volta.

As eleições legislativas francesas disputam-se em 12 e 19 de junho, funcionando com base num sistema uninominal de duas voltas.

Empate técnico entre a esquerda e Macron

As últimas sondagens da primeira volta das eleições legislativas de domingo, 12 de Junho, mostram um empate entre os dois pólos principais. Os candidatos de Ensemble! – uma coligação que reúne La République en marche (LRM), Horizons e o MoDem – têm 28% das intenções de voto (margem de erro de mais ou menos 1,3 pontos), logo seguido da Nova União Popular, Ecológica e Social - Nupes, que reúne A França Insubmissa, o Partido Socialista (PS), o Partido Comunista Francês (PCF) e a Europa Ecologia-Os Verdes, com 27% na sondagem (mesma margem de erro). O Rassemblement National (União Nacional de Marine Le Pen está cotado com menor previsão de votos (19%, margem de erro mais ou menos 1,1 pontos). Contudo, se adicionarmos a pontuação esperada de Reconquête (Reconquista), a formação de Eric Zemmour (5,5%, margem de erro de mais ou menos 0,7 pontos), o pólo da extrema-direita atingiria cerca de 24,5%.

Quando a luta de classes é escondida

Num artigo, publicado no diário Le Monde, o economista Thomas Piketty abordou os desafios políticos que estas eleições colocam, com a existência de um bloco liberal de direita, a esquerda e a extrema-direita, da seguinte forma: «É possível saírmos de uma democracia com três partições eleitorais e reconstruir uma divisão esquerda-direita centrada em questões de redistribuição e desigualdade social, em França e, de uma forma mais geral, à escala europeia e internacional? Esta é a questão central das actuais eleições legislativas».

Como explica o economista esta partição do eleitorado em três blocos não acabou com as clivagens políticas fundadas sobre os interesses diferentes e divergentes das várias classes sociais.

«O bloco liberal atinge de longe os seus melhores resultados entre os eleitores mais favorecidos socialmente, qualquer que seja o critério utilizado (rendimento, riqueza, diploma), particularmente entre os mais velhos. Se este "bloco burguês" consegue reunir um terço dos votos, isso deve-se também à evolução da participação, que se tornou muito mais forte entre os mais abastados e os mais velhos do que entre o resto da população durante as últimas décadas, o que não era o caso antes.»

«De facto, este bloco sintetizou as elites económicas e imobiliárias que anteriormente votaram a favor do centro-direita com as elites instruídas que assumiram o centro-esquerda em muitos lugares desde 1990, como mostra a World Political Cleavages and Inequality Database. Com a participação igualitária de todos os grupos sociodemográficos, no entanto, este bloco apenas reuniria cerca de um quarto dos votos e não poderia pretender governar sozinho. Em contraste, as forças de esquerda estariam potencialmente na liderança, uma vez que têm melhor pontuação entre as classes trabalhadoras, e especialmente entre a geração mais jovem. O bloco nacionalista também avançaria, mas mais ligeiramente, porque o perfil do seu voto popular é mais equilibrado entre os grupos etários.»

«De certa forma, poderíamos dizer que esta divisão em três blocos se refere às três grandes famílias ideológicas que estruturaram a vida política durante mais de dois séculos [em França]: o liberalismo, o nacionalismo e o socialismo. Desde a revolução industrial, o liberalismo tem sido baseado no mercado e no desmantelamento social da economia, e tem atraído a maioria dos vencedores do sistema. O nacionalismo responde à crise social resultante, reificando a nação e as solidariedades etno-nacionais, enquanto o socialismo tenta, não sem dificuldade, promover a emancipação universalista através da educação, do conhecimento e do acesso ao poder.», analisa Piketty.

Para o economista, a grande novidade no presente é que a visibilidade da questão social «perdeu intensidade, em parte, porque quando a esquerda esteve no poder perdeu a sua ambição transformadora e aliou-se muitas vezes ao liberalismo triunfante depois da queda do comunismo.»

Aquilo que define esta democracia dividida em três polos, é que as classes populares estão profundamente divididas em torno da questão migratória e pós-colonial, segundo Piketty:

«O eleitorado popular jovem e urbano com uma origem nacional mais mixigenada vota nas forças de esquerda; inversamente, o eleitorado popular menos jovem e mais rural sente-se abandonado e vira-se para o bloco nacionalista. O bloco burguês espera permanecer perpetuamente no poder graças a esta divisão, mas esta é uma aposta arriscada e perigosa, porque a retórica utilizada pelo bloco nacionalista (e muitas vezes encorajada pelo bloco burguês) não conduz a nenhum resultado construtivo e apenas agrava os conflitos num impasse.».

Não é por isso de admirar que perante esta disputa, o primeiro-ministro português, António Costa, tenha estado recentemente em França para apoiar Macron, contra a opinião do Partido Socialista local.

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