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Os neonazis portugueses que vão combater, os que fogem e os amigos deles

Onde se explica o que vão fazer os neonazis à Ucrânia e qual é a guerra de propaganda em que eles estão implicados.

Treinos do Batalhão Azov
Treinos do Batalhão AzovCréditosROMAN PILIPEY / EPA

O Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) garantiu, esta semana, ao semanário Expresso, que foi informado da situação de sete portugueses que foram combater para a Ucrânia, contra a invasão russa. Entretanto, cinco já desistiram de o fazer e estão de volta a casa.

O MNE revela, numa resposta escrita a esse semanário, que «tem registo de sete cidadãos nacionais (dois deles luso-ucranianos) que contactaram os seus serviços informando da sua deslocação para a Ucrânia a título de combatente voluntário. Os cinco cidadãos portugueses manifestaram, entretanto, vontade de abandonar o território ucraniano, o que já estarão a fazer.»

Apesar dessas rápidas desistências – após o bombardeamento russo da base onde estavam acantonados os combatentes estrangeiros – , mais portugueses são esperados na Ucrânia. No dia 20 de Março, terá partido um grupo de vinte pessoas, oito delas com o objectivo de se juntar a uma milícia neonazi ucraniana que se encontra em Lviv. O Expresso garante não ser o Batalhão Azov, o mais poderoso grupo armado ucraniano, com mais de quatro mil combatentes no início da guerra, perfilhando uma ideologia neonazi.

O grupo é liderado pelo neonazi Mário Machado, que lamentou publicamente não poder ficar mais do que quinze dias na Ucrânia, entre ida e volta e estadia, pois está obrigado a apresentar-se quinzenalmente numa esquadra, dado estar com termo de identidade e residência, por mais um processo criminal que tem às costas [Na sexta-feira, depois deste artigo ser escrito, ficou-se a saber que um juiz preocupado, com tanta viagem em pouco tempo, permitiu-lhe não se apresentar na PSP, enquanto estiver na Ucrânia].

O AbrilAbril enviou várias perguntas para o Gabinete do Secretário-Geral do Sistema de Segurança Interna (SSI), ao cuidado do seu secretário-geral, Paulo Vizeu Pinheiro:

«Em várias notícias e redes sociais, elementos neonazis ligados ao grupo de Mário Machado afirmam que vão sete pessoas combater na Ucrânia. Queria saber se o Secretário-Geral do Sistema de Segurança Interna tem alguma preocupação a esse respeito e como encara o facto de neonazis cadastrados ganharem experiência militar e poderem-na utilizar quando regressarem a Portugal».

«É verdade que a causa da independência da Ucrânia é bastante mais nobre que a do Califado do Daesh, mas não deixam de ser extremistas cadastrados a ganharem experiência a matar pessoas».

«Em outros países, como o Reino Unido, o governo colocou entraves à deslocação de pessoas e de ex-militares para combater na Ucrânia, em Portugal vai ser feito alguma coisa nesse sentido»?

«A actividade, nesse país, dessas pessoas será alvo de particular atenção? Serão tomadas medidas de segurança depois do seu eventual regresso?».

Até agora, a missiva não mereceu nenhuma atenção dos responsáveis de segurança de Portugal.

Os neonazis que segundo as televisões não existem na Ucrânia

Há pouco tempo, o Batalhão Azov começou a recrutar nos canais de propaganda, em língua portuguesa, na rede social Telegram. Com as bandeiras de Portugal e do Brasil no cimo do texto, os nazis ucranianos dão conselhos sobre as rotas mais seguras para os voluntários chegarem a Lviv ou a Kiev, bem como as zonas a evitar por causa do risco de emboscadas de tropas russas. «Se tiver o seu próprio equipamento, como equipamentos de primeiros socorros, capacetes, roupas militares, equipamentos militares, sacos de dormir, almofadas para dormir, armamento, leve consigo também», escrevem.

«Olá, pode por favor reencaminhar uma mensagem uma vez que dois de nós estamos a tentar obter uma partilha de carro da Alemanha para a Ucrânia», lê-se numa mensagem de 26 de Fevereiro reencaminhada para um popular canal web neonazi, citado num texto do Washington Post.

«Somos três franceses, partimos amanhã de manhã de Estrasburgo com o nosso carro», respondeu outra mensagem. «Há lugar para dois lutadores alemães».

Estes são os tipos de conversas que têm inundado todos os dias os locais neonazis ocidentais e neo-supremacistas brancos online desde que Vladimir Putin ordenou a invasão da Ucrânia: utilizadores a organizar carpools, a conspirar como atravessar a fronteira entre a Polónia e a Ucrânia para se juntarem à luta contra a Rússia.

Alguns neonazis vêem esta nova guerra como um lugar para realizarem as suas fantasias violentas e ganharem experiência de combate e contactos para usar nos seus países. «Para outros, a força que os puxa para o conflito é uma visão partilhada para um etno-estado ultra-nacionalista. Vêem a Ucrânia como uma oportunidade de ouro para perseguir este objectivo e transformá-la num modelo para exportar para todo o mundo.», conclui Rita Katz, directora executiva do SITE Intelligence Group e uma analista de terrorismo, num texto publicado no diário norte-americano Washington Post.

Como escreveu o administrador de um popular grupo de conversação neonazi alemão e inglês, enquanto exortava os membros a juntarem-se ao Azov, «Não estou a defender a Ucrânia, estou a defender o nacional-socialismo».

«De qualquer forma, quando chegar à Ucrânia, vou matar judeus sempre que os vir», garantiu um neonazi inglês com experiência no exército, que se identifica como D. «Vou juntar o meu equipamento, saudar Hitler, glória à Ucrânia e vamos todos matar alguns judeus para Wotan!» (Wotan é um deus da mitologia nórdica, a que muitos extremistas de extrema-direita apelam na sua retórica e estética). D. indicou mais tarde que tinha formado um «grupo do Reino Unido» para se dirigir para a Ucrânia.

Os militantes foram recrutados por grupos como o Batalhão Azov, absorvido pela guarda nacional ucraniana em 2014. Esse batalhão tem acolhido abertamente os ocidentais nas suas fileiras através de sites supremacistas brancos. Foram vistos autocolantes e símbolos do Batalhão Azov um pouco por todo o mundo: numa manifestação neonazi em Julho de 2020, no Tennessee, e na moto usada numa tentativa de ataque à bomba de uma mesquita em Itália.

De acordo com os dados de um estudo do Soufan Center, organização não-governamental que estuda o fenómeno dos extremismos, pelo menos quatro mil voluntários estrangeiros fizeram parte desta milícia ucraniana, havendo o registo de um português que já combateu nas fileiras do Batalhão Azov entre 2014 e 2019. O número poderá até ser um pouco maior, de acordo com reportagens recentes, como a do jornalista Ricardo Cabral Fernandes no Público. E há uma ligação umbilical entre movimentos da extrema-direita portuguesa com estes ucranianos, com a realização de seminários e torneios de artes marciais tanto em Portugal como na Ucrânia nos últimos anos.

Em 2019, o Soufan Center, que segue grupos terroristas e extremistas em todo o mundo, advertiu: «O Batalhão Azov está a emergir como um nó crítico na rede extremista transnacional de extrema-direita violenta. ... [A sua] abordagem agressiva ao trabalho em rede serve um dos objectivos globais do Batalhão Azov, de transformar as áreas sob o seu controlo na Ucrânia no centro principal da supremacia branca transnacional».

O Soufan Center descreveu como a «rede agressiva» do Batalhão Azov chega a todo o mundo para recrutar combatentes e espalhar a sua ideologia de supremacia branca. Os combatentes estrangeiros que treinam e lutam com o Batalhão Azov regressam depois aos seus próprios países para aplicar o que aprenderam e recrutar outros.

Os extremistas estrangeiros violentos com ligações a Azov incluíram Brenton Tarrant, que massacrou 51 muçulmanos em duas mesquitas em Christchurch, Nova Zelândia, em 2019, e vários membros do Movimento «Rise Above Movement» dos EUA, que foram processados por atacarem pessoas que participavam no comício «Unite the Right» em Charlottesville, em Agosto de 2017. Outros veteranos de Azov regressaram à Austrália, Brasil, Alemanha, Itália, Noruega, Suécia, Reino Unido, Portugal e outros países.

Para os mais extremistas entre estes neonazis, o plano é ainda mais sinistro. Eles vêem a Ucrânia como uma oportunidade para promover uma agenda «acelerista», que procura apressar um colapso de toda a civilização e depois construir estados étnicos fascistas a partir das cinzas.

O SITE Intelligence Group, organização que estuda a actividade da extrema-direita nas redes sociais, denuncia uma série de publicações de uma das vozes neonazis aceleracionistas mais influentes da extrema-direita, «o eslovaco», que estaria implicado na guerra da Ucrânia. A 25 de Fevereiro, «o eslovaco» anunciou que estava a deixar um país desconhecido para lutar na Ucrânia. «Esta guerra vai queimar a fraqueza física e moral do nosso povo, para que uma nação forte possa levantar-se das cinzas», escreveu. «A nossa tarefa é assegurar que as condições permaneçam terríveis o suficiente, por tempo suficiente, para que esta transformação aconteça, e deve acontecer. O nosso futuro está em jogo e podemos não ter outra oportunidade, certamente não uma tão boa como esta».

Em muitos aspectos, a situação da Ucrânia lembra a Síria. Tal como o conflito sírio serviu de terreno fértil para grupos como a al-Qaeda e o Estado islâmico, condições semelhantes podem estar a fermentar na Ucrânia para a extrema-direita. A Síria tornou-se um terreno de conspiração e treino para os terroristas montarem ataques no Ocidente, tais como os ataques em Paris em 2015 e em Bruxelas em 2016.

Os extremistas que conseguirem chegar à Ucrânia poderão regressar a casa com novas armas e experiência de combate – ou permanecer na Ucrânia, onde poderão influenciar ainda mais os seus compatriotas online. Só porque os extremistas estão «noutro lugar», não os torna menos perigosos para os países de onde vêm.

«Putin é um judeu», garante um combatente do Azov

«Não tenho nada contra os nacionalistas russos, ou contra uma grande Rússia», disse Dmitry, ao repórter Shaun Walker do diário britânico The Guardian, enquanto acelerávamos pela noite escura de Mariupol numa pick-up, uma metralhadora posicionada na parte de trás. «Mas Putin nem sequer é um russo. Putin é um judeu».

A reportagem datada de 2014, acompanhou a reconquista de Mariupol pelos neonazis. Dmitry – que disse não ser o seu verdadeiro nome – é natural da Ucrânia Oriental e membro do Batalhão Azov, que tem feito grande parte da linha da frente na guerra da Ucrânia com separatistas pró-Rússia.

Dmitry afirmou não ser um nazi, mas confessa-se admirador Adolf Hitler como líder militar, e acredita que o Holocausto nunca aconteceu. Nem todos no batalhão Azov pensam como Dmitry, mas depois de ter falado com dezenas dos seus combatentes e de ter participado em várias missões durante a semana passada na cidade estratégica portuária de Mariupol e arredores, o The Guardian encontrou, em muitos deles, opiniões políticas perturbadoras, quase todos com a intenção de «trazer a luta para Kiev» quando a guerra no leste acabar.

O símbolo do batalhão é igual ao Wolfsangel nazi, que encimava os batalhões SS ucranianos, embora fonte oficial do batalhão garante que, de facto, é suposto ser a letra N, representando uma «ideia nacional». Muitos dos seus membros têm ligações com grupos neonazis, e mesmo aqueles que se riram da ideia de que são neonazis não deram as negações mais convincentes.

«Claro que não, é tudo inventado, há apenas muitas pessoas que estão interessadas na mitologia nórdica», disse um combatente quando interrogado se havia neonazis no batalhão. Quando lhe perguntaram quais eram as suas próprias opiniões políticas, contudo, ele respondeu «nacional-socialista». Quanto às tatuagens da suástica vistas em homens na base de Azov, corrigiu: «a suástica nada tem a ver com os nazis, era um antigo símbolo do sol».

Tortura e violação como forma de actuação

O Batalhão Azov tem suas origem numa grupo claque ultra do clube de futebol FC Metalist Kharkiv chamado «Sect 82» (1982 é o ano de fundação do grupo). No final de Fevereiro de 2014, durante a crise ucraniana de 2014, ajudou a reprimir manifestações pró-russas em Kharkiv, o «Sect 82» ocupou o prédio da administração da Oblast [região] em Kharkiv e serviu como uma força de «autodefesa» local.

Em 13 de Abril de 2014, o ministro de Assuntos Internos, Arsen Avakov, emitiu um decreto autorizando a criação de novas forças paramilitares de até 12 mil pessoas. O Batalhão Azov foi formado em 5 de Maio de 2014, em Berdiansk.

O batalhão começou a actuar em Mariupol, onde esteve envolvido em combates, tendo sido determinante na reconquista da cidade aos separatistas russos, na segunda batalha por essa cidade.

Em relação ao cessar-fogo acordado em 5 de Setembro, o líder do grupo, Biletskiy, declarou: «Se foi um movimento táctico, não há nada de errado com isso. Se é uma tentativa de chegar a um acordo sobre o solo ucraniano com separatistas, obviamente é uma traição».

A ocupação de Mariupol e a acções do Batalhão Azov e de outras forças neonazis, desde aí, não foi pacífica. Já em 2014, a Amnistia Internacional apelou ao governo ucraniano para investigar abusos de direitos e possíveis execuções por parte dos batalhões neonazis Aidar e Azov.

«A incapacidade de pôr fim aos abusos e possíveis crimes de guerra por parte dos batalhões voluntários corre o risco de agravar significativamente as tensões no leste do país e minar as intenções proclamadas das novas autoridades ucranianas de reforçar e defender o Estado de direito de forma mais ampla», disse, o na altura, Salil Shetty, Secretário-Geral da Amnistia Internacional, em Kiev.

Segundo um relatório da OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) que monitorizava o cumprimento do cessar-fogo entre ucranianos e separatistas, datado de 2015, as forças de segurança ucranianas e as unidades neonazis estavam envolvidas em práticas generalizadas de tortura aos prisioneiros e população suspeita de ter simpatias pelos separatistas russos.

«Os prisioneiros foram electrocutados, espancados cruelmente ao longo de vários dias com diferentes objectos (barras de ferro, bastões de basebol, bastões, espingardas, espingardas, beatas, facas de baioneta, bastões de borracha). Técnicas amplamente utilizadas pelas forças armadas ucranianas e pela segurança forças incluem o waterboarding, o estrangulamento com um «garrote banderista» e outros tipos de estrangulamento. Em alguns casos, os prisioneiros, para fins de intimidação, foram enviados a campos minados e atropelados com veículos militares, matando-os. Outros métodos de tortura utilizados pelas forças armadas ucranianas e as forças de segurança incluem o esmagamento de ossos, esfaqueamento e corte com uma faca, marcas com objectos incandescentes, e disparos contra partes do corpo com armas de pequeno calibre».

No relatório, do Gabinete das Nações Unidas Alto Comissário para os Direitos Humanos, «Violência Sexual Relacionada com Conflitos em Ucrânia», de 2017, foram recolhidos inúmeros testemunhos da utilização, pelos serviços secretos ucranianos e dos batalhões neonazis, da violação como forma de tortura sobre civis suspeitos de simpatizarem com rebeldes pró-russos.

A verdadeira história dos nazis e a falsa história da desnazificação

O Presidente russo Vladimir Putin afirmou ter ordenado a invasão da Ucrânia para «desnazificar» o seu governo, enquanto funcionários ocidentais, como o antigo embaixador dos EUA em Moscovo Michael McFaul, chamaram a isto pura propaganda, insistindo: «Não há nazis na Ucrânia».

No contexto da invasão russa, as relações problemáticas dos governos ucranianos pós-2014 com grupos de extrema-direita e partidos neonazis tornaram-se um elemento da guerra de propaganda, com a Rússia a usá-la como um pretexto para a guerra e o Ocidente a tentar varrê-la para debaixo do tapete.

A verdade é que os neonazis foram importantes para o golpe de Estado de 2014, como foram importantes para combater os separatistas russos na Ucrânia oriental. A invasão russa, longe de desnazificar a Ucrânia, é susceptível de espalhar neonazis treinados por vários países.

O Partido neonazi Svoboda, da Ucrânia, e os seus fundadores, Oleh Tyahnybok e Andriy Parubiy, desempenharam papéis de liderança no golpe apoiado pelos EUA em Fevereiro de 2014. A secretária de Estado adjunta, Victoria Nuland, e o embaixador dos EUA, Geoffrey Pyatt, mencionaram Tyahnybok como um dos líderes com quem estavam a trabalhar antes do golpe de Estado.

Nunca se saberá quão diferente teria sido o novo governo da Ucrânia se um processo político pacífico tivesse sido autorizado a seguir o seu curso sem a interferência dos EUA ou de extremistas violentos de direita.

Mas foram os neonazis que subiram ao palco na praça Maidan e rejeitaram o acordo de 21 de Fevereiro de 2014 negociado pelos ministros dos Negócios Estrangeiros francês, alemão e polaco, segundo o qual o Presidente Viktor Yanukovych e os líderes políticos da oposição concordaram em realizar novas eleições no final desse ano. Em vez disso, Yarosh e o sector de direita recusaram-se a desarmar e lideraram a marcha sobre o Parlamento que derrubou o governo.

Desde 1991, as eleições ucranianas tinham oscilado entre líderes como Yanukovych, que era de Donetsk e tinha laços estreitos com a Rússia, e líderes apoiados pelo Ocidente, como o Presidente Viktor Yushchenko, que foi eleito em 2005 após a «Revolução Laranja», a que se seguiu a uma eleição disputada. A corrupção endémica da Ucrânia manchou todos os governos, e a rápida desilusão pública com qualquer líder e partido que ganhasse o poder levou a um equilíbrio e alternância entre as facções alinhadas pelo Ocidente e pela Rússia.

Em 2014, Nuland e o Departamento de Estado conseguiram que o seu favorito, Arseniy Yatsenyuk, se instalasse como primeiro-ministro do governo pós-golpe de Estado. Durou dois anos até que também ele perdesse o cargo devido a um sem fim de escândalos de corrupção. Petro Poroshenko, o Presidente que se seguiu, durou um pouco mais, até 2019, mesmo depois dos seus esquemas pessoais de evasão fiscal terem sido expostos nos Panama Papers de 2016 e nos Paradise Papers de 2017.

Quando Yatsenyuk se tornou primeiro-ministro, recompensou o papel do Svoboda no golpe com três cargos de gabinete, incluindo Oleksander Sych como vice-primeiro-ministro, e governadores de três das 25 províncias da Ucrânia. Andriy Parubiy, do Svoboda, foi nomeado presidente do Parlamento, um cargo que ocupou durante os cinco anos seguintes. Tyahnybok concorreu à presidência em 2014, mas obteve apenas 1,2% dos votos, e não foi reeleito para o parlamento.

Os eleitores ucranianos viraram as costas à extrema-direita nas eleições pós-eleitorais de 2014, reduzindo a quota de Svoboda de 10,4% dos votos nacionais em 2012 para 4,7%. Svoboda perdeu o apoio em áreas onde detinha o controlo dos governos locais mas não tinha cumprido as suas promessas, e o seu apoio foi dividido agora que já não era o único partido a concorrer com slogans e retórica explicitamente anti-russa.

Após o golpe, a extrema-direita ajudou a consolidar a nova ordem, atacando e quebrando os protestos anti-golpistas, no que o líder do Sector Direito, Yarosh, descreveu à revista Newsweek como uma «guerra» para «limpar o país» dos manifestantes pró-russos. Esta campanha culminou a 2 de Maio com o massacre de mais de 40 manifestantes anti-golpistas queimados vivos na Casa dos Sindicatos em Odessa.

Após os protestos anti-golpistas terem evoluído para declarações de independência em Donetsk e Luhansk, a extrema-direita na Ucrânia foi armada para um confronto em grande escala. Os militares ucranianos tinham pouco entusiasmo em combater o seu próprio povo, pelo que o governo formou novas unidades da Guarda Nacional, com neonazis, para o fazer.

O Sector Direito formou um batalhão, e os neonazis também dominaram o Batalhão Azov, que foi fundado por Andriy Biletsky, um supremacista branco declarado que afirmava ser o objectivo nacional da Ucrânia livrar o país dos judeus e outras raças inferiores. Foi o batalhão Azov que liderou o assalto do governo pós-golpe às repúblicas auto-proclamadas e retomou a cidade de Mariupol das forças separatistas.

O acordo de Minsk II, em 2015, pôs fim aos piores combates e criou uma zona tampão em torno das repúblicas separatistas, mas uma guerra civil de baixa intensidade continuou. Estima-se que tenham sido mortas 14 mil pessoas desde 2014. A representante Ro Khanna, Democrata eleita pela Califórnia, e outros membros progressistas do Congresso tentaram durante vários anos pôr fim à ajuda militar dos EUA ao Batalhão Azov. Finalmente, fizeram-no na Lei de Apropriação de Defesa de 2018, mas o Azov terá continuado a receber armas e treino dos EUA, apesar da proibição.

Independentemente do sucesso decrescente de Svoboda nas eleições nacionais, grupos neo-nazis e nacionalistas extremistas, cada vez mais ligados ao Batalhão Azov, têm mantido o poder nas ruas da Ucrânia, assim como na política local, no coração nacionalista ucraniano em torno de Lviv, na Ucrânia ocidental.

Após a eleição do Presidente Volodymyr Zelenskyy, em 2019, a extrema-direita ameaçou-o de destituição, ou mesmo de morte, se negociasse com líderes separatistas de Donbass e seguisse em frente com os acordos de Minsk. Zelenskyy tinha concorrido às eleições como «candidato à paz», mas sob ameaça da direita, recusou-se mesmo a falar com os líderes de Donbass, que descreveu como terroristas, como afirmam Medea Benjamin e Nicolas J.S. Davies, num artigo sobre o papel dos neonazis no conflito, publicado no site fairobserver.

Durante a presidência de Trump, os EUA inverteram a proibição de Obama de vender armas à Ucrânia, e a retórica agressiva de Zelenskyy levantou receios em Donbass e na Rússia de que ele estaria a preparar as forças da Ucrânia para uma nova ofensiva para retomar Donetsk e Luhansk pela força.

O neoliberalismo antecipou a guerra

A guerra civil combinou-se com as políticas económicas neoliberais do governo para criar um terreno fértil para a extrema-direita. O governo pós-combatente impôs mais da mesma «terapia de choque» que foi imposta em toda a Europa de Leste nos anos 90. A Ucrânia recebeu uma ajuda de 40 mil milhões de dólares do Fundo Monetário Internacional e, como parte do acordo, privatizou 342 empresas estatais; reduziu o emprego no sector público em 20%, juntamente com cortes salariais e nas pensões; privatizou os cuidados de saúde e desinvestiu na educação pública, fechando 60% das suas universidades.

Juntamente com a corrupção endémica da Ucrânia, estas políticas levaram à pilhagem de bens estatais pela classe dominante corrupta, e à queda do nível de vida e de medidas de austeridade para todos os outros. O governo pós-golpe manteve a Polónia como modelo, mas a realidade estava mais próxima da Rússia de Boris Ieltsin dos anos 90. Após uma queda de quase 25% do PIB entre 2012 e 2016, a Ucrânia é ainda o país mais pobre da Europa.

Tal como noutros lugares, os fracassos do neoliberalismo alimentaram o aumento do extremismo de direita e do racismo, e agora a guerra com a Rússia promete proporcionar a milhares de jovens alienados de todo o mundo treino militar e experiência de combate, que poderão então levar para casa para aterrorizar os seus próprios países.

Neste momento, os ucranianos estão unidos na sua resistência à invasão da Rússia, mas não devemos ficar surpreendidos quando a aliança dos EUA com as forças neonazis na Ucrânia, incluindo a entrega de milhares de milhões de dólares em armas sofisticadas, resultar em algo incontrolado.

O silêncio não fará a extrema-direita ucraniana desaparecer de imediato. Agir como se qualquer menção ao problema alimente a propaganda do Kremlin só está a piorar a situação.

Mas, enquanto fala de desnazificação, a Rússia também tem dado novos passos para fortalecer as suas fileiras com elementos ligados à extrema-direita. Desde o início da invasão russa que os mercenários do Grupo Wagner, co-fundado por Valeryevich Utkin, neonazi condecorado pelo presidente russo, e considerado o braço militar não oficial do Kremlin, têm estado presentes na guerra. O Grupo Wagner também está a recrutar através do Telegram, diz o Counter Extremism Project, citado pelo site Setenta e Quatro.

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