Publicado, há cerca de 10 dias na sua conta oficial no X, o que se popularizou nas redes sociais como Manifesto Palantir é um resumo em 22 tópicos d’A República Tecnológica (The Technological Republic: Hard Power, Soft Belief, and the Future of the West, em seu original em inglês), livro de autoria de Alex Karp e Nicholas W. Zamiska, co-fundadores da empresa. A Palantir é uma daquelas mega empresas de tecnologia que preza pela opacidade em seu negócio, mas que afirma ser uma desenvolvedora de softwares e IA para defesa, forças policiais e saúde, criar plataformas tecnológicas e processar grandes volumes de dados, tudo financiado por riquíssimos contratos governamentais.
O manifesto, por sua vez, é uma ode à mentalidade dos tech bros, um estereótipo masculinista daqueles que, imersos na indústria de alta tecnologia do Vale do Silício, não conseguem enxergar o mundo para além dos seus teclados, dos seus investimentos em criptomoedas e da alienação sobre os verdadeiros impactos nocivos que as gigantes da tecnologia californiana criaram desde os anos 80. O texto, que começa com a motivação à publicação «porque nos perguntam muito sobre isto», tem um ar levemente pomposo e triunfalista, genérico no ponto e fascista de cabo a rabo, sem abrir mão de algumas surpresas pelo caminho.
Se o Manifesto da Palantir é um resumo d’A República Tecnológica, permitam aqui um resumo do resumo, sem comentários, já que o original tem um texto um tanto rocambolesco:
1. O Vale do Silício tem uma dívida moral ao país que o ergueu. A sua elite tem obrigação de defender a nação;
2. Devemos-nos rebelar contra a tirania das aplicações. O iPhone libertou-nos, mas agora pode-nos limitar;
3. E-mail grátis não é suficiente. Uma cultura decadente só é perdoada se entregar crescimento e segurança;
4. Os limites do soft power foram expostos. Vencer exige hard power, construído sobre o software;
5. A questão não é se armas de IA serão construídas, mas quem as construirá e qual o propósito;
6. O serviço nacional militar deve ser um dever universal. Todos devem compartilhar o risco e o custo da guerra;
7. Se um fuzileiro pedir um rifle melhor, construa-o. O mesmo vale para softwares.
8. Funcionários públicos não precisam de ser valorizados. Nenhuma empresa deveria remunerar tanto os seus funcionários, com o risco de falir;
9. Deveríamos ser mais permissivos àqueles que, tendo entrado na vida pública, cometeram erros;
10. O envolvimento emocional da política moderna leva-nos ao erro. Quem busca desalienar-se através da política ficará decepccionado;
11. A nossa sociedade tornou-se ansiosa demais para celebrar o fim de seus inimigos;
12. A era atómica está no fim. Uma nova era de dissuasão construída sobre IA está a nascer;
13. Nenhum país avançou mais valores progressistas que os EUA. Há mais oportunidades aqui do que em qualquer outro lugar;
14. O poder americano tornou possível uma paz extraordinariamente longa. Três gerações nunca conheceram uma guerra mundial;
15. A neutralização pós-guerra da Alemanha e do Japão deve ser desfeita. O desarmamento destes dois países foi excessivo e agora pagamos por isso;
16. Deveríamos aplaudir quem tenta construir onde o mercado falhou. O desdém por Musk é injusto, os bilionários também têm interesses para além do enriquecimento;
17. O Vale do Silício deve ajudar a combater o crime violento. Políticos abandonaram esforços sérios nesta luta para salvar vidas;
18. A exposição implacável da vida de figuras públicas afasta talentos do área governamental;
19. A cautela que incentivamos na vida pública é corrosiva. Quem não erra frequentemente nada diz de substancial;
20. A intolerância a crenças religiosas em certos círculos deve ser resistida;
21. Algumas culturas produziram avanços vitais; outras permanecem disfuncionais e regressivas. Há culturas melhores que outras e deve-se saber distinguir;
22. Devemos resistir à tentação de um pluralismo vazio. Em nome de que inclusão os EUA vem há 50 anos resistindo à definição de culturas nacionais?
Recomenda-se a leitura da versão ácida do manisfesto reescrito por Yanis Varoufakis, publicado no Outras Palavras. Tópico a tópico, o autor, conhecido por cunhar a expressão «tecnofeudalismo», deixa os objetivos do manifesto ainda mais claros, expondo a hipocrisia e violência da Palantir e dos EUA ao longo dos anos.
É uma mistura de mentiras descaradas com um cinismo ridículo, propositalmente enfileiradas de forma a, quase 200 anos depois, actualizar a doutrina do Destino Manifesto, projecto político-ideológico predominante na administração americana do século XIX que tem tido uma retomada meteórica desde o início do novo Governo Trump. Está quase tudo lá, da missão divina e moral de expandir os valores ocidentais, até a expansão efectiva do poder americano sobre os territórios estrangeiros. É tudo tão descarado, que dizer que o Manifesto da Palantir é um apito de cachorro para a extrema-direita seria uma ofensa à nossa inteligência, ele é um eco claro do Destino Manifesto em pleno 2026. Na comunicação social internacional foi recorrente referir o texto como «vilanesco», na comunicação social portuguesa foi recorrente a ausência de referência.
Além de fascista, com o item 21 impedindo-nos de dizer o contrário, é redundante. Há alguma repetição proposital ou não de assuntos: já entendemos que, para os tech bros, os funcionários públicos não são de valor, diferente dos bilionários da tecnologia, esses sim merecedores de todo o respeito e leniência, pois são os benfeitores altruístas do nosso tempo.
Ao mesmo tempo que declara o fim da era atómica, o manifesto aponta o terrível erro de terem restringido as forças militares fascistas derrotadas na Segunda Guerra Mundial. Teria sido tão mais fácil exercer poder sobre o mundo se os recém derrotados Japão e Alemanha, países de alta tecnologia nuclear, tivessem tido a oportunidade de construir suas próprias armas atómicas enquanto estreitavam seus laços de amizade com os EUA. A forma como o manifesto trata os EUA também é interessante, pois não é apenas o país sede da empresa. A Palantir coloca-se como o cavaleiro templário que vai, financiado pela Igreja – no caso a CIA através do seu fundo de investimento In-Q-Tel– desbravar qualquer território e travar qualquer guerra pela sua nação divina.
A Palantir não é uma startup qualquer, não é uma app aparentemente inofensiva que ganha dinheiro vendendo os seus dados sorrateiramente. O que as notícias têm mostrado é que a Palantir é uma gigante do mercado de espionagem governamental contratada para extrair, cruzar os seus dados e até indicar as acções que devem ser tomadas. Não deveria haver um interesse dos medias portugueses sobre o assunto?
Por coincidência, no dia em que o AbrilAbril publica esta análise, Clara Ferreira Alves também o faz na sua coluna de opinião no Expresso. A colunista explica a ausência do assunto nos medias como um embate entre uma esquerda obtusa, incapaz de enxergar o progresso e a burrice da extrema-direita mais xucra. Com estes dois pólos a disputar a atenção, não haveria espaço para a elevada apreciação crítica deste manifesto «neste momento histórico e geopolítico». Clara Ferreira Alves tece poucos comentários sobre o manifesto ou sobre a Palantir, mas não deixa de destacar que um dos fundadores foi colaborador dos governos democratas, tentando assim suavizar e normalizar o conteúdo, não associando a empresa de hipervigilância à actual administração. Não há um único comentário sobre o teor mentiroso e fascista do manifesto, mas um convite à sua leitura, como se lá dentro houvesse um pensamento filosófico sobre os deveres da tecnologia para a humanidade.
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