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O conselho de segurança da mentira

A responsabilidade do alegado ataque químico em Duma, em 7 de Abril de 2018, foi atribuída ao governo de Damasco pelos países e interesses que patrocinam a agressão internacional sem fim contra a Síria.

Créditos / JD1 Notícias

Membros da NATO e da União Europeia no Conselho de Segurança das Nações Unidas impediram uma audição que permitiria esclarecer o comportamento suspeito da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ, OPCW) no caso do suposto ataque químico em Duma (Síria), em 7 de Abril de 2018, que tudo leva a crer tenha sido encenado. O comportamento dos Estados Unidos e aliados reforça vigorosamente esta possibilidade de fraude.

A Federação Russa, que ocupa em Outubro a presidência do Conselho de Segurança, propôs a audição do diplomata brasileiro José Bustani, primeiro director-geral da OPAQ. Bustani é um dos sete peritos signatários de uma investigação publicada em 23 de Outubro de 2019, segundo a qual o relatório final daquela organização sobre o suposto ataque químico em Duma «foi falsificado para favorecer uma conclusão predeterminada» – a responsabilidade do governo sírio.

A conclusão do documento, tornado público pela Courage Foundation, é confirmada também por dados com autenticidade comprovada divulgados pelo website WikiLeaks, extraídos de trocas de emails entre inspectores que fizeram a investigação no terreno.

Estes testemunham, com provas, a falsificação das informações recolhidas pela equipa de inspecção e, por consequência, do próprio relatório da OPAQ, designadamente através da distorção de factos, supressão de dados e documentos e deduções abusivas, todas elas conjugadas no sentido de responsabilizar o governo da Síria.

A responsabilidade do alegado ataque químico em Duma, em 7 de Abril de 2018, foi atribuída ao governo de Damasco pelos países e interesses que patrocinam a agressão internacional sem fim contra a Síria. A versão foi assumida automaticamente pela comunicação corporativa internacional, apesar de vários e conceituados jornalistas no terreno terem imediatamente denunciado acontecimentos obscuros da operação.

O episódio, que tudo leva a crer ter sido encenado, serviu de pretexto para o ataque contra a Síria realizado por Estados Unidos, Reino Unido e França em 14 de Abril de 2018. Mais de cem mísseis de cruzeiro foram lançados nesse dia contra o território sírio e supostas instalações «químicas».

Ao bloquearem a audição de esclarecimento sobre este caso, comparável, na sua metodologia, às falsas armas de destruição massiva que diziam existir em poder do governo iraquiano de Saddam Hussein, os Estados Unidos e os aliados da NATO e da União Europeia tentam preservar, contra todos os indícios, uma narrativa que tem vindo a ser paulatinamente desmontada. E transformam a OPAQ – organização à qual já foi atribuído um Prémio Nobel da Paz – e o próprio Conselho de Segurança da ONU em veículos de mentira e de guerra.

É a primeira vez, em toda a história das Nações Unidas, que uma audição proposta pelo presidente do Conselho de Segurança é bloqueada. Há sempre uma primeira vez para tudo, diz-se. Nem sempre pelas melhores razões, como demonstram os comportamentos de países membros da NATO e da União Europeia.

A encenação como sistema

Há muito que deixou de ser segredo o facto de organizações criadas e patrocinadas pelos Estados Unidos e outros países ocidentais na Síria se terem especializado na encenação de actos de guerra – entre eles atentados químicos – para depois responsabilizar o governo sírio através de campanhas políticas e mediáticas susceptíveis de culminar em mais sanções, mais operações militares e até mais ataques estrangeiros institucionais, como o de 14 de Abril de 2018.

Entre essas organizações avulta a dos Capacetes Brancos, operacionalmente ligada à al-Qaida e aos serviços secretos britânicos e norte-americanos, cuja obra «humanitária» foi reconhecida pela Academia de Hollywood através da atribuição de um Óscar. As encenações de atentados químicos como o de Duma, montadas por esta organização juntamente com produtores ocidentais, como a britânica Olive, e com a cumplicidade de nomes sonantes da comunicação mundial, têm sido denunciadas até por profissionais de informação de alguns desses órgãos.

Riam Dalati, produtor da BBC, declarou-se «enojado e cansado de ver activistas e rebeldes usarem cadáveres de crianças para encenar imagens emotivas para consumo do Ocidente». James Harkin, director do Consórcio Internacional de Jornalismo de Investigação (ICIJ), afirmou que as imagens de Duma foram «provavelmente encenadas».

Uma investigação forense promovida pelo perito independente Robert Stuart sobre o documentário Saving Syrian´s Children, do programa Panorama BBC, apurou que «sequências filmadas por pessoal da BBC e outros no hospital Atareb, em Alepo (Síria), em 26 de Agosto de 2013, mostrando a situação depois de um ataque com bombas incendiárias perto de uma escola, são em grande parte, ou mesmo totalmente, encenadas».

Fraude grosseira

O diplomata brasileiro José Bustani foi o primeiro director-geral da Organização para a Proibição de Armas Químicas. Conhece a organização como poucos; e conhece igualmente, por experiência própria, a tentação de a instrumentalizar manifestada desde a sua fundação por potências que se consideram «excepcionais» perante as outras nações, isto é, com todos os direitos e poucos ou nenhum deveres.

Bustani esteve à frente da OPAQ no período sensível entre 11 de Setembro de 2001 e os acontecimentos que conduziram à segunda invasão do Iraque pelos Estados Unidos e países seus aliados, a maioria deles na NATO. No âmbito das suas funções e no espírito assumido publicamente pela OPAQ, o diplomata brasileiro privilegiou o diálogo com Bagdade e conseguiu a adesão iraquiana à Convenção das Armas Químicas – o que implicava colocar os arsenais e instalações à disposição das verificações internacionais. Em princípio, estava travado o caminho para a guerra.

«Uma investigação forense promovida pelo perito independente Robert Stuart sobre o documentário Saving Syrian´s Children, do programa Panorama BBC, apurou que "sequências filmadas por pessoal da BBC e outros no hospital Atareb, em Alepo (Síria), em 26 de Agosto de 2013, mostrando a situação depois de um ataque com bombas incendiárias perto de uma escola, são em grande parte, ou mesmo totalmente, encenadas".»

Os senhores da guerra não perdoaram a José Bustani. O ex-conselheiro de segurança de Trump, o fascista John Bolton, então na administração de George W. Bush, entrou-lhe desabridamente pelo gabinete no início de 2002 e exigiu a sua demissão. «Sabemos onde estão os seus filhos», ameaçou Bolton sem rodeios.

O diplomata brasileiro não se demitiu, mas as manobras de bastidores desenvolvidas por Washington, manipulando países e acontecimentos, fizeram com que fosse mesmo afastado em Abril desse ano de 2002. Seguiu-se a guerra contra o Iraque, declarada por causa de armas de destruição massiva – químicas, entre outras – que este país teria em seu poder e que, ao cabo de mais de 17 anos de ocupação estrangeira, ainda não apareceram.

Os supostos atentados químicos na Síria de hoje remetem-nos para esses tempos. Pelo que a presença de José Bustani no Conselho de Segurança da ONU seria essencial para que este órgão dispusesse de todas as informações e todas as versões, oficiais ou não, que existem em torno de tais episódios geradores de violência e sofrimento.

O grupo de investigação da Courage Foundation sobre o alegado atentado em Duma, que o diplomata brasileiro integrou, extraiu conclusões que põem seriamente em causa a tese oficial das potências ocidentais. Por exemplo: «Ficámos convencidos, em função dos testemunhos, de que informação-chave sobre análises químicas, avaliações de toxicologia, estudos balísticos e declarações de testemunhas foi suprimida ostensivamente para favorecer uma conclusão predeterminada.» Ou seja, para culpar o governo de Damasco.

Comentando ainda os resultados da investigação, Bustani declarou: «As provas convincentes do comportamento irregular da OPAQ no suposto ataque químico de Duma confirmam as suspeitas e dúvidas que eu já tinha. Eu não conseguia entender o que ia lendo na imprensa internacional. Até relatórios oficiais sobre as investigações pareciam incoerentes, na melhor das hipóteses.»

Por estes excertos poderemos deduzir o teor das declarações que o diplomata brasileiro iria proferir perante o Conselho de Segurança da ONU; poderemos igualmente inferir as razões pelas quais os países da NATO e da União Europeia o amordaçaram segundo uma metodologia usada pela primeira vez naquele órgão.

O documento da Courage Foundation reproduz também as diligências feitas, em vários sentidos, por inspectores que estiveram no terreno em Duma e que, perante o relatório da OPAQ, vêem a sua competência, a sua imparcialidade e a sua credibilidade serem postas em causa por uma falsificação ostensiva cometida pelo secretariado-geral da organização, sob a direcção do então director-geral, o diplomata francês Sébastian Braha. Seguindo, naturalmente, orientações implícitas contidas em declarações do seu presidente, Emmanuel Macron, segundo as quais teria em seu poder «provas do uso de armas químicas» pelo governo da Síria. Que nunca foram por ele exibidas.

«As provas convincentes do comportamento irregular da OPAQ no suposto ataque químico de Duma confirmam as suspeitas e dúvidas que eu já tinha. Eu não conseguia entender o que ia lendo na imprensa internacional. Até relatórios oficiais sobre as investigações pareciam incoerentes, na melhor das hipóteses.»

José Bustani, primeiro director-geral da OPAQ

«Queiram retirar esses documentos dos arquivos», ordenou Sébastian Braha aos serviços da OPAQ a propósito da contribuição do inspector Ian Henderson, elaborada de acordo com as investigações efectuadas no terreno em Duma – e contrárias à tal «conclusão predeterminada».

A prova desta instrução censória dada por Braha foi revelada pelo website WikiLeaks, tal como um email interno do também inspector Aamir Shouket denunciando que as alterações introduzidas no documento final, à revelia da equipa no terreno, «minam a credibilidade do relatório», uma vez que «as conclusões finais não são suportadas pelos factos».

O inspector Shouket fala em eliminação de dados de epidemiologia, incongruência entre os sintomas relatados por testemunhas e os vídeos divulgados e supressão da própria bibliografia científica proposta como suporte ao trabalho de campo.

De resto, os inspectores especificaram – e o relatório da OPAQ omite – que os terroristas que controlavam militarmente a região de Duma não lhes permitiram o acesso aos cadáveres do suposto atentado, que foram apressadamente queimados – um procedimento que contraria abertamente a cultura islâmica. Sublinham ainda os inspectores que não lhes foram dadas condições para saberem sequer o número de mortos, «se os houve», facto igualmente omitido no relatório oficial.

Por acção dos países da NATO e da União Europeia, o Conselho de Segurança da ONU não toma, portanto, conhecimento oficial de comportamentos graves dos dirigentes da OPAQ, que falsificam relatórios para transformar a mentira em verdade oficial e continuar a alimentar uma guerra assassina.

Ao invés, e certamente por causa desses «bons serviços», a OPAQ é a instituição encarregada de investigar os supostos casos de «envenenamento químico» de figuras protegidas pelos serviços britânicos de espionagem, como o pai e a filha Skripal, e o oposicionista russo Alexei Navalny, sob custódia do governo alemão. As conclusões dessas investigações estarão, como é natural, «predeterminadas».

Por este caminho vai-se transformando a situação internacional numa grande encenação internacional.

José Goulão, Exclusivo O Lado Oculto/AbrilAbril

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