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O cidadão, a estatística e a AstraZeneca

Ao cidadão, sobretudo o de idade mais avançada, resta rezar para que não caia do lado errado da estatística e no grupo dos «raros», isto é, vitimado pelos riscos e privado da oportunidade de sentir o alívio das vantagens.

Sede da AstraZeneca em Gaithersburg, EUA, a 5 de Abril de 2021. A farmacêutica europeia viu suspensa a produção da sua vacina Covid na subcontratada Emergent BioSolutions, por erros na manipulação de componentes que estragaram 15 milhões de vacinas, e procura um novo fabricante local
Sede da AstraZeneca em Gaithersburg, EUA, a 5 de Abril de 2021. A farmacêutica europeia viu suspensa a produção da sua vacina Covid na subcontratada Emergent BioSolutions, por erros na manipulação de componentes que estragaram 15 milhões de vacinas, e procura um novo fabricante localCréditosJIM LO SCALZO / EPA

A confusão instalou-se. E os responsáveis, em vez de inocularem um pouco de lucidez para travarem uma inquietação cada dia mais desgovernada, fogem para a frente amparando-se em dogmas que, por muito correctos que sejam em termos estatísticos, permitem que a vida humana seja jogada em caprichos de roleta. As coisas estão, de facto, a correr mal com a vacina da AstraZeneca contra a Covid-19. Escondê-lo atrás da certeza fundamentalista de que o medicamento é «seguro e eficaz» e persistir na vacinação como se nada estivesse a acontecer é uma estratégia que cumpre efectivamente o preceito tecnocrático segundo o qual uma pessoa é apenas um número; mas atenta contra os direitos humanos.

Os reguladores estão desregulados, como aliás é próprio de um regime que vive da desregulação; e os políticos, sobretudo os europeus, desregulados estão. No meio do salve-se quem puder continuam a morrer pessoas e a multiplicar-se situações que ameaçam a sua qualidade de vida.

A vacina da AstraZeneca, também inicialmente conhecida como a «da Universidade de Oxford», uma espécie de chancela de bom-tom apensada para lhe dar peso propagandístico, como é próprio do velho e experiente lobby imperial britânico, foi das mais promovidas durante o período de descoberta e ensaios.

Mesmo antes de o medicamento ter sido criado a Comissão Europeia apressou-se a contratar a compra de milhões das «vacinas de Oxford», jogando assim com os bens dos contribuintes, que depressa se provou serem mal servidos porque o conglomerado farmacêutico anglo-sueco logo começou a falhar com as encomendas. No entanto, o regulador europeu ou Autoridade Europeia do Medicamento (EMA em inglês) fora célere na aprovação da vacina logo que foi anunciada. Uma espécie de antes de ser já o era. O que está longe de acontecer com outros imunizantes com provas já dadas em vastas partes do mundo.1

Não é despropositado recordar que todos os processos até à inoculação das vacinas contra a Covid-19 em seres humanos foram sumários, dispensando – como aconteceu com a AstraZeneca – os ensaios em animais e encurtando drasticamente a fase de testes em pessoas. As urgências perante a pandemia compreendem-se; já não se compreende a negação da realidade.

Anomalias graves

E a realidade é que numerosas pessoas inoculadas com a «vacina de Oxford» começaram a manifestar anomalias graves de saúde antes de completadas duas semanas após o tratamento, entre as quais se destacam a formação de coágulos sanguíneos, a ocorrência de trombo embolias e o registo de baixas drásticas dos níveis de plaquetas sanguíneas – circunstâncias fatais em alguns casos, como anunciaram vários países.

Não se trata de efeitos secundários da vacina, assegurou prontamente a EMA. O medicamento é «seguro e eficaz», garantiu; além disso, os casos «são raros» e as vantagens decorrentes da vacinação são superiores aos riscos. Estes soundbites continuam a ser, enquanto se avoluma o número de vítimas, as verdades definitivas e inquestionáveis de reguladores de medicamentos, autoridades de saúde e dirigentes políticos, sobretudo, repete-se, no espaço da União Europeia.

Alguns reguladores nacionais, chamados a pronunciar-se sobre a situação em países que ainda prezam a sua soberania perante o autoritarismo federalista, foram menos dogmáticos que a EMA e mais sensíveis a estudos sobre a relação de causa e efeito entre a vacina da AstraZeneca e a formação de coágulos sanguíneos. Uma investigação norueguesa garantiu que existe uma associação directa entre a vacina, a formação de trombos e o baixo nível de plaquetas no sangue. Os resultados do estudo mal conseguiram passar fronteiras, foram rapidamente silenciados, remetidos para o índex criado pelos fundamentalistas do cumprimento das campanhas de vacinação a todo o preço.

Apesar destes, aqui e ali começou a ser suspensa a aplicação da vacina, uma medida que acabou por se estender a quase toda a Europa. Os Estados Unidos, entretanto, armazenaram dezenas de milhões de doses da vacina anglo-sueca mas o regulador do país ainda não aprovou a sua utilização, nem mesmo de emergência.2 Um procedimento para favorecer a utilização das vacinas da «casa», a da Moderna e a da Pfizer, tudo o indica, pelo que se trata de um caso de escrever direito por linhas tortas. Ou será que as autoridades sanitárias norte-americanas levam a sério os riscos e continuam, à cautela, a observar o desenvolvimento dos efeitos da AstraZeneca por outras paragens?

As primeiras suspensões de vacinação, contudo, não se prolongaram por muito tempo. Sem que se tenha registado qualquer avanço, pelo menos em termos de informação pública, no esclarecimento das anomalias verificadas entre os vacinados, país atrás de país foram retomando o tratamento – enquanto os fabricantes providenciavam um conveniente aumento da disponibilização dos polémicos medicamentos.

Esta retoma tornou ainda mais evidente a confusão que reina entre as autoridades de saúde e políticas em termos de efeitos secundários da vacina da AstraZeneca. Cada nação adoptou faixas etárias específicas às quais é, ou não, aconselhável ministrar o medicamento. E essas definições não coincidem de um caso para o outro, andam à mercê não se sabe de que critérios, eventualmente de interpretação estatística, mas soam como meros palpites, o que não parece uma estratégia muito científica quando estão em causa a vida e a morte de pessoas.

As notícias de casos de inoculados com a «vacina de Oxford» afectados com coágulos sanguíneos continuaram a multiplicar-se – a que devem acrescentar-se os episódios convenientemente silenciados ou que, por outras quaisquer razões, não chegam a ser notícia – pelo que vários reguladores nacionais voltaram a entender que o melhor seria suspender o tratamento. O próprio «dono» da vacina, o regulador britânico, decidiu aconselhar medidas restritivas da sua utilização.

A medida de interrupção, embora parcial, da vacinação está a estender-se novamente entre as nações europeias; entretanto o chefe da EMA confessa oficiosamente que há ligação entre a vacina e a criação de trombos; oficialmente, porém, a EMA, decidiu amenizar a formulação e afirma que «possivelmente» existe uma relação de causa efeito entre o medicamento e as manifestações graves sofridas pelos vacinados. Em consequência, tornou público uma espécie de catálogo de sintomas mediante os quais os pacientes devem procurar ajuda médica «urgente». Ou seja, vacine-se primeiro e depois reze para que não sofra nada do que está a acontecer a outros; por «raros» que sejam, também são pessoas.

Do lado errado da estatística

Não existe situação que exemplifique tanto a deriva da União Europeia desde o início da pandemia como esta. E, apesar disso, há ministros de Estados membros, como em Portugal, por exemplo, que continuam a entregar a solução nas mãos de uma cada vez mais improvável coordenação a nível de União Europeia. O que mais não é do que uma variante da política de vacine-se primeiro e tenha fé em que as coisas corram bem.

Enquanto isto, a Comissão Europeia e a EMA não dão qualquer sinal de suspender a aplicação da polémica vacina e de procurar, com toda a lógica, substitui-la por outras disponíveis no mercado. Qualquer cidadão pode e deve interrogar-se sobre o tipo de ligação umbilical entre as autoridades europeias e o conglomerado anglo-sueco capaz de arrastar a saúde das pessoas por caminhos reconhecidamente arriscados. Entretanto, distanciando-se claramente das imposições geopolíticas atlantistas de Bruxelas, vários Estados da União, entre eles a Alemanha, cuidam de se abastecer com vacinas russas precavendo-se, como escreve a agência Reuters, para «uma corrida» entre os países europeus pela Sputnik V.3

No meio das incertezas, dos casos graves, das suspensões e das suspensões das suspensões, a EMA mantém-se firme nas suas garantias: a vacina da AstraZeneca é «segura e eficaz»; as suas «vantagens superam os riscos»; e os casos de danos existentes «são raros».

As autoridades portuguesas, entretanto, resolveram suspender o tratamento com a AstraZeneca em pessoas com menos de 60 anos – afinal talvez os mais velhos já tenham usufruído quanto baste das delícias terrestres e estejam mais vocacionados para correr os riscos inerentes. Por incrível que pareça, a medida mais elementar, equitativa e humanitária – a suspensão pura e simples de toda a vacinação com doses da AstraZeneca – não foi encarada pelos responsáveis portugueses dos serviços de saúde e dos medicamentos. O caso dá que pensar.

Recorda-se que, antes da decisão mais recente, os responsáveis portugueses, munidos de uma sensibilidade de tractor, tinham advertido as pessoas de que se rejeitarem tomar a vacina em causa irão para «o fim da fila», de castigo por pensarem em salvaguardar a vida perante reconhecidas ameaças. A punição continuará a ser válida, agora só para os maiores de 60 anos?

Ao cidadão, sobretudo o de idade mais avançada, resta rezar para que não caia do lado errado da estatística e no grupo dos «raros», isto é, vitimado pelos riscos e privado da oportunidade de sentir o alívio das vantagens.

José Goulão, exclusivo O Lado Oculto/AbrilAbril

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