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«Nenhum governo vai calar a voz das mulheres brasileiras»

A Jornada Nacional de Lutas das Mulheres começa no dia 8 e prolonga-se até 14, dia em que se assinala um ano do assassinato de Marielle Franco. A dirigente do MST Kelli Mafort fala sobre as mobilizações.

Mobilização das mulheres do MST
Mobilização das mulheres do MST Créditos / MST

Sob o lema «Pela vida das mulheres, somos todas Marielle!», a jornada deverá mobilizar, por todo o Brasil, milhares de mulheres do campo e da cidade «na luta contra a violência, contra Bolsonaro e os retrocessos impostos pelo seu governo», revela o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na sua página.

A Jornada Nacional de Lutas das Mulheres tem início na próxima sexta-feira, dia 8, e prolonga-se até à quinta-feira da semana seguinte, dia 14, quando se completa um ano do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Pedro Gomes, no Rio de Janeiro.

De acordo com o MST, serão temas centrais das mobilizações a Reforma da Previdência e a violência contra as mulheres. «A sanha do actual governo em suprir a necessidade do grande capital relativiza o trabalho feminino e contribui para que a violência, o controlo do corpo das mulheres e o machismo ganhem cada vez mais espaço na nossa sociedade», afirmam os sem-terra.

Falando para a página do Movimento, Kelli Mafort, da direcção nacional do MST, aborda as mobilizações e o papel das mulheres no processo de resistência, sublinhando que, entre as mulheres trabalhadadoras sem-terra, existe grande entusiasmo para o 8 de Março. «Ao longo da história temos feito deste dia um marco de luta e resistência, e este ano não será diferente», disse.

Justiça para Marielle

Um dos principais eixos de luta é a exigência de justiça para Marielle, a vereadora carioca que se destacou como feminista e defensora dos direitos dos negros.

«Essa é a condição para impedir os assassinatos de lutadores e lutadoras do povo, e também para acabar com a violência que atinge tantas mulheres, em especial as mulheres negras», afirmou Mafort, que destacou a elevada violência contra as mulheres no Brasil – só nos primeiros 20 dias deste ano, houve 107 casos de feminicídio – e pessoas LGBT – o Brasil é o país onde mais se matam LGBT no mundo.

«Entre 2005 e 2015, houve um aumento de 54% de homicídios de mulheres negras. Marielle carrega a simbologia da resistência, por isso, ela vive em nós, somos todas Marielle», declarou.

Reforma da Previdência: um ataque às mulheres

Kelli Mafort sublinhou que a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 06/2019, avançada pelo governo de Jair Bolsonaro, constitui «uma afronta aos direitos sociais», na medida em que põe fim «ao tripé da segurança social (previdência, saúde e assistência social) previsto na Constituição Federal de 88», sendo que as mulheres e as trabalhadoras rurais são as principais atingidas.

Ao definir os contornos da proposta, Mafort destacou a tendência privatizadora e que os bancos serão os únicos beneficiados com tais mudanças, que «tendem a levar contingentes no campo a níveis de miséria absoluta».

Para a dirigente do MST, «a mobilização das mulheres é fundamental para derrotar uma proposta que tem inspiração na reforma previdenciária do Chile, implantada em plena ditadura» e «cujo saldo actual é de 79% a receber aposentações abaixo de um salário mínimo e 44% da população abaixo da linha da pobreza».

«Os diferentes núcleos de actuação dentro do governo – económico/agronegócio, militar, jurídico e fundamentalista – têm unidade política entre si e impõem às trabalhadoras uma agressiva retirada de direitos», denunciou Mafort, acrescentando que «as medidas conservadoras não são uma cortina de fumo: elas perseguem, matam e ferem».

«Quem é pobre vive menos»

Comentando as declarações recentes da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, de acordo com as quais a idade de 60 anos para a reforma de homens e mulheres do campo «é óptimo», Kelli Mafort considerou que se trata de um «absurdo» dito «no conforto de um escritório com ar condicionado».

«Ela pouco ou nada entende da realidade do campo e do trabalho penoso. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida média dos brasileiros é de 72,7 anos», mas, no estado de Alagoas, «onde 26% da população vive no campo, as expectativa de vida cai para 66 anos», explicou Mafort.

A dirigente do MST precisou que Alagoas tem o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, 36,5% de analfabetismo funcional e menos de 20% de acesso a saneamento básico. «Portanto, está mais do que provado que quem é pobre vive menos e que quem está no campo em trabalhos historicamente precários está em condições ainda mais dramáticas», frisou.

Neste contexto, destacou a necessidade da mobilização e da resistência: «Enquanto houver mulheres dispostas a enfrentar a violência e as consequências de uma sociedade misógina, lá estarão as nossas bandeiras. Enquanto houver gente sem terra, sem casa, sem comida, certamente estaremos no meio, organizando, lutando e arrancando conquistas na marra».

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